O número de profissionais moçambicanos com certificação Chartered Financial Analyst (CFA) triplicou, passando de três para nove, segundo dados apresentados na primeira CFA Charter Award Ceremony realizada no País. O evento decorreu nesta quarta-feira, 23 de Setembro, em Maputo, e reconheceu três novos titulares da qualificação internacional, que abrange áreas como análise financeira, gestão de investimentos, mercados de capitais e avaliação de activos.
A evolução foi destacada por Omar Mithá, economista e membro honorário ligado à organização CFA na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), que participou na cerimónia para proceder à entrega dos certificados.
Segundo Mithá, o CFA é uma certificação internacional estruturada em três níveis, abrangendo áreas como investimentos em acções, rendimento fixo, derivados financeiros, investimentos alternativos e análise financeira.
“Uma das disciplinas importantes desta certificação é a questão da ética e integridade”, explicou o economista, destacando a importância destas matérias ao longo do percurso de formação.
Para o responsável, esta componente assume particular relevância num mercado financeiro que precisa de reforçar a confiança, a qualidade da informação e os padrões profissionais.
Mithá defendeu ainda que a certificação pode ter aplicação em áreas como mercados de capitais, banca de investimento, gestão de reservas, operações cambiais, financiamento de grandes projectos e corporate finance.
“Não são os computadores, não são os edifícios, bonitos muitas vezes, mas são as pessoas. E pessoas com ética e integridade”, sublinhou.
Do estudo à aplicação
Entre os profissionais reconhecidos está Dérick Samo Gudo, associado de financiamento imobiliário no Standard Bank em Moçambique. O profissional levou dois anos e meio a concluir o percurso, iniciado em Maio de 2023 e terminado com o último exame em Agosto de 2025. O charter foi recebido em Outubro do mesmo ano.
Para Gudo, uma das principais características da certificação é o seu carácter internacional.
“Estando em Moçambique, estando na África do Sul, nos Estados Unidos, os exames são todos os mesmos. Logo, conseguimos provar que em Moçambique há talento, há conhecimento igual a qualquer outro canto do mundo”, afirmou.
Entre os conhecimentos que considera mais relevantes estão os investimentos alternativos, a avaliação de instrumentos de rendimento fixo e de acções, bem como a análise de empresas e projectos.
A CFA Charter Award Ceremony é uma cerimónia de reconhecimento dos profissionais que concluíram o percurso necessário para obter o CFA Charter, uma qualificação internacional.
Na sua actividade profissional na banca de investimento, Dérick Samo considera particularmente importante a capacidade de analisar empresas, projectos e oportunidades de investimento. Defende, contudo, que o conhecimento adquirido pelos profissionais CFA deve ultrapassar a esfera individual e contribuir para o desenvolvimento do sistema financeiro.
“Temos de aplicar e usar para melhorar o futuro do nosso país”, frisou.
Na sua perspectiva, esta nova geração poderá contribuir para a actualização da legislação, a criação de novos produtos financeiros e de investimento e o reforço das instituições que operam no mercado nacional.
Ética como diferencial
Youness Masyanganhe, técnico do Banco de Moçambique, levou três anos e meio a concluir o percurso. Superou os dois primeiros níveis à primeira tentativa e concluiu o terceiro em 2024, depois de uma reprovação.
Entre as competências adquiridas, destaca a gestão de portfeólios de activos financeiros e carteiras de títulos, que considera particularmente úteis para as suas funções.
Para Masyanganhe, porém, a importância da certificação vai além da componente técnica. “Ensina-nos mais do que conhecimentos técnicos, princípios e valores fundamentais para qualquer interveniente no mercado financeiro”, sublinhou.
Na sua perspectiva, a disseminação destes princípios pode contribuir para melhorar a qualidade da tomada de decisões em matéria de investimentos e mercados financeiros, através de maior diligência e preparação técnica.

A ética e a integridade ocupam também um lugar central no testemunho de Mino Marengue, que trabalha na gestão de carteiras no Banco de Moçambique. Iniciou o percurso CFA em 2021 e concluiu-o em 2026, depois de enfrentar dificuldades ao longo do processo. Para o profissional, a qualificação representa um marco na carreira e o resultado de vários anos de esforço e dedicação.
“A mais importante, diria, é a ética e a integridade profissional”, afirmou.
Segundo Marengue, a formação permitiu-lhe aprofundar conceitos relacionados com diligência, independência e objectividade na análise, competências que considera essenciais para o desenvolvimento de um mercado financeiro mais robusto.
O profissional defendeu que o aumento do número de titulares da certificação poderá contribuir para reforçar a capacidade técnica dos intervenientes e melhorar a qualidade das análises e das decisões de investimento.
Formação para um mercado em desenvolvimento
A expansão do número de profissionais CFA ocorre num contexto em que o mercado financeiro nacional procura desenvolver novas competências e instrumentos. Para os profissionais ouvidos durante a cerimónia, a aplicação prática dos conhecimentos adquiridos será determinante para transformar a qualificação individual em benefícios para o sector.
Com reconhecimento internacional, a certificação proporciona formação abrangente em áreas ligadas ao investimento e aos mercados financeiros e coloca os profissionais moçambicanos perante padrões de conhecimento comuns aos de outros mercados.
Dérick Samo Gudo considera que esta formação pode também ampliar a visão dos profissionais moçambicanos sobre as possibilidades de desenvolvimento do sistema financeiro.
“Ter essa disposição através de formações ajuda-nos a conversar e ter uma mente mais aberta sobre aquilo que é possível”, afirmou.

Para Omar Mithá, a consolidação destas competências será um processo gradual. O número de profissionais certificados é ainda reduzido face ao universo de economistas e especialistas da área financeira no País, mas a evolução registada representa um passo no reforço da capacidade técnica do sector.
A CFA Charter Award Ceremony reconhece os profissionais que concluíram os requisitos necessários para obter o CFA Charter, qualificação internacional centrada na análise de investimentos, gestão de portfólios e outras áreas dos mercados financeiros. A certificação exige a conclusão dos três níveis do CFA Program, o cumprimento dos requisitos de experiência profissional e a adesão ao CFA Institute.
Em África, a certificação está presente em vários mercados, incluindo a África do Sul, Nigéria, Gana, Quénia, Egipto, Maurícias, Botsuana e Etiópia. O CFA Institute mantém sociedades profissionais em diferentes países da região, reflectindo a expansão da qualificação no continente.
Texto: Germano Ndlovo


























































