A Assembleia-Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução que promove uma representação mais precisa das dimensões dos continentes nos mapas mundiais, uma decisão que, segundo o ex-ministro santomense das Finanças Acácio Elba Bonfim, poderá contribuir para que o Sul Global tenha maior voz na construção de “uma ordem internacional mais justa”.
A resolução, apresentada pelo Togo e apoiada pela União Africana (UA), foi recentemente aprovada com 164 votos a favor, um contra, dos Estados Unidos de América (EUA), e seis abstenções, da Estónia, Geórgia, Lituânia, Moldávia, Sérvia e Ucrânia. Intitulada “Corrigir o Mapa”, a iniciativa defende uma representação mais precisa das áreas terrestres dos continentes, particularmente de África.
“A votação por uma maioria esmagadora dos membros das Nações Unidas pode ajudar o Sul Global a ver-se e a ser visto de modo mais justo”, afirmou Acácio Elba Bonfim, em Macau. O antigo ministro do Planeamento e Finanças de São Tomé e Príncipe é actualmente administrador não executivo do Banco Central do país.
Bonfim falava à margem do Fórum de Think Tanks entre a China e os Países de Língua Portuguesa e Espanhola 2026, realizado na Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau. O encontro está centrado na Iniciativa de Governança Global, apresentada em 2025 pelo Presidente chinês, Xi Jinping.
“A votação por uma maioria esmagadora dos membros das Nações Unidas pode ajudar o Sul Global a ver-se e a ser visto de modo mais justo”
Acácio Elba Bonfim, antigo ministro do Planeamento e Finanças de São Tomé e Príncipe
Sobre a nova representação cartográfica, o ex-ministro defendeu que a mudança, apesar do seu carácter simbólico, deve produzir efeitos para além dos mapas. “Apesar de simbólica”, a iniciativa deve ser “convertida em maior voz nas instituições globais, melhor acesso a recursos e tecnologia, cooperação baseada em benefícios mútuos e uma participação efectiva na construção de uma ordem internacional mais justa e mais equilibrada”, afirmou.
A discussão surge sobretudo em torno da projecção de Mercator, desenvolvida no século XVI pelo cartógrafo flamengo Gerardus Mercator. A representação aumenta visualmente a dimensão das regiões próximas dos pólos, fazendo com que territórios como a Gronelândia aparentem ter uma dimensão semelhante à de África, apesar de o continente africano ser cerca de 14 vezes maior.
A resolução incentiva os Estados-membros, as organizações internacionais e outras entidades relevantes a adoptarem projecções cartográficas que representem de forma mais proporcional as áreas dos continentes. Entre as alternativas mencionadas está a Equal Earth, que procura preservar uma representação mais proporcional das áreas terrestres.
O ministro dos Negócios Estrangeiros do Togo, Robert Dussey, afirmou antes da votação que as distorções cartográficas têm consequências que ultrapassam a própria cartografia. “Contribuiu para minimizar simbolicamente a dimensão de África, assim como de outras regiões, o que criou uma visão desequilibrada da geografia global. Portanto, (…) vai muito para além da esfera da cartografia”, declarou.
Se estas projecções forem adoptadas, países e regiões próximas dos pólos passarão a ocupar menos espaço visual nos mapas, enquanto África, a América Latina e o Sul da Ásia terão uma representação proporcionalmente maior. A União Africana saudou a aprovação da resolução, afirmando, numa publicação na rede social Instagram, que “esta iniciativa marca um passo histórico para uma representação cartográfica global precisa e equitativa”.
Apesar da aprovação expressiva, a resolução da Assembleia-Geral da ONU não tem força jurídica obrigatória, pelo que a sua aplicação dependerá da vontade dos Estados-membros, das organizações internacionais e de outras entidades que utilizam mapas. Os Estados Unidos da América, único país a votar contra a proposta, criticaram a resolução, considerando que esta “ridiculariza o trabalho e o propósito” das Nações Unidas.
Fonte: Lusa



























































