Um artigo publicado nesta quinta-feira, 10 de Setembro, pelo CEDESA, aponta a construtora portuguesa Mota-Engil como determinante na influência da China sobre o Corredor do Lobito, em Angola, um projecto no qual o Ocidente aposta para reduzir a dependência do mercado chinês.
O Centro de Estudos para o Desenvolvimento Económico e Social de África (CEDESA) sublinha o que classifica como “Paradoxo Chinês” num artigo dedicado à influência da China no Corredor do Lobito, o megaprojecto ferroviário que pretende ligar o Atlântico ao interior mineiro de África e facilitar a exportação de minerais como cobre e cobalto.
“A China controla, através da Mota-Engil, uma parte essencial da infra-estrutura que o Ocidente pretende usar para reduzir a dependência da China. É uma ironia estratégica difícil de ignorar”, lê-se no artigo publicado pela organização, dedicada ao estudo e investigação de temas políticos e económicos da África Austral, em particular de Angola.
O projecto do Corredor do Lobito envolve os Estados Unidos da América (EUA), a União Europeia e os Governos de Angola e da República Democrática do Congo (RDC) e, como recorda a análise, “procura oferecer uma alternativa logística ao predomínio chinês na exportação de cobre, cobalto e outros minerais estratégicos” provenientes da RDC “e, em menor escala, de Angola”.
O artigo conclui que, “paradoxalmente, um dos grandes beneficiários finais da sua operacionalização é a China”.
Na análise, o CEDESA destaca “o papel determinante da Mota-Engil, cuja governação é fortemente influenciada por accionistas chineses, a propriedade chinesa de uma parte substancial das minas que alimentarão o corredor e a incapacidade estratégica do chamado Ocidente, marcada por hesitações, falta de visão e um ambiente cultural que desvaloriza a ambição colectiva”.
A primeira razão apontada pelo CEDESA “reside na centralidade da Mota-Engil” no projecto, por se ter tornado “simultaneamente, um relevante operador ferroviário, um dos maiores adjudicatários de obras complementares e um actor com presença simultânea em Angola e na RDC, algo que poucas empresas europeias conseguem replicar com escala e continuidade”.
“Nos últimos anos, a Mota-Engil assegurou contratos essenciais para a reabilitação de troços ferroviários, modernização de estações, construção de pontes e obras de engenharia pesada associadas ao corredor”, indica o artigo.
A análise recorda ainda que a “Mota-Engil é hoje uma empresa com influência chinesa determinante”, com cerca de um terço das acções e presença chinesa na administração, embora continue formalmente portuguesa.
Para o autor, “a Mota-Engil tornou-se, assim, um instrumento híbrido, simultaneamente europeu na fachada e chinês na estrutura de decisão”.
A segunda razão apontada é o facto de “uma parte substancial das minas de onde sairão os minerais transportados pelo corredor pertencer a empresas chinesas”.
Minerais continuam sob influência chinesa
“A China consolidou, ao longo das últimas duas décadas, uma posição dominante no sector do cobre e do cobalto da República Democrática do Congo. O país controla entre 70% e 80% da produção industrial destes minerais, através de participações maioritárias em 15 das maiores minas congolesas”, refere o artigo.
O Corredor do Lobito foi pensado, recorda a análise, como uma alternativa logística ao transporte destes minerais, que actualmente seguem maioritariamente para portos da Tanzânia e da África do Sul.
A CEDESA observa que “alterar a rota não altera a propriedade” e que, “se os minerais continuam a ser extraídos por empresas chinesas, o corredor apenas facilita a exportação de recursos controlados por Pequim, agora através de uma infra-estrutura promovida pelo Ocidente”.
A China beneficia duplamente porque, prossegue o artigo, o Corredor do Lobito “reduz de forma significativa os custos de transporte ao disponibilizar uma rota mais curta, mais estável e menos congestionada para o Atlântico” e permite diversificar as vias de exportação, tanto para os mercados ocidentais como para os asiáticos.
“Esta realidade não decorre de qualquer má gestão Ocidental recente, mas de duas décadas de investimento chinês consistente, paciente e estrategicamente orientado”, lê-se no artigo. “O Ocidente hesita enquanto a China observa, investe, consolida posições e beneficia da infra-estrutura que outros financiam e promovem”, conclui a análise.
Fonte: Lusa



























































