Apesar do reduzido volume comercial entre Moçambique e a Rússia, empresários russos identificam oportunidades na agricultura, logística e industrialização. A aposta passa pela produção local, mas desafios ligados à logística, a pagamentos e ao ambiente de negócios continuam a travar novos investimentos.
As relações entre Moçambique e a Rússia evoluíram de uma cooperação predominantemente política para uma parceria que procura reforçar a dimensão económica, com enfoque no comércio, investimento e cooperação empresarial. Apesar desse interesse mútuo, o volume de negócios entre os dois países continua reduzido e abaixo do potencial identificado por ambos os Governos.
Dados da UN Comtrade e do International Trade Centre (ITC Trade Map) mostram que, em 2024, Moçambique importou da Rússia mercadorias no valor de 164,6 milhões de dólares, sobretudo cereais e fertilizantes, enquanto as exportações para o mercado russo se fixaram nos 268,7 mil dólares, evidenciando um comércio bilateral ainda desequilibrado e com amplo espaço para crescer.
Para os empresários russos, Moçambique destaca-se não apenas pelo potencial agrícola e mineiro, mas também pela sua posição geográfica estratégica, que poderá transformar o País numa plataforma logística para o acesso aos mercados da África Austral e do Oceano Índico. Esta visão foi defendida por Anton Slinchenko, representante da Business Russia (organização pública pan-russa que representa os interesses das empresas privadas – líderes industriais locais), durante um encontro com jornalistas africanos em Moscovo.
Conhecer melhor África é o primeiro desafio
Para o responsável, o principal obstáculo enfrentado pelas empresas russas não é a falta de interesse pelo continente, mas sim o desconhecimento das especificidades de cada mercado africano.
Segundo explica, um dos maiores erros consiste em olhar para África como um único mercado. “Quando falamos de África, entendemos que cada país tem as suas próprias políticas, o seu próprio ambiente de negócios e as suas próprias oportunidades”, explica.
Por essa razão, a organização privilegia uma abordagem bilateral, estabelecendo contactos directamente com as embaixadas e organizações empresariais nacionais.
“Quando falamos de África, entendemos que cada país tem as suas próprias políticas, o seu próprio ambiente de negócios e as suas próprias oportunidades”
Anton Slinchenko
Slinchenko explica que as representações diplomáticas funcionam como a principal porta de entrada para empresários russos interessados em investir em África, facilitando contactos institucionais, esclarecendo dúvidas sobre legislação e aproximando empresas dos respectivos governos.
Paralelamente, a organização procura celebrar memorandos de entendimento com câmaras de comércio, confederações empresariais e outras entidades económicas locais, promovendo encontros B2B, missões empresariais, seminários e plataformas permanentes de intercâmbio de informação.
Parceiros locais tornam-se prioridade
Depois de compreender o mercado, o passo seguinte consiste em encontrar parceiros considerados credíveis.
Para Anton Slinchenko, este é actualmente o segundo maior pedido apresentado pelas empresas russas. “O segundo pedido dos negócios russos é encontrar um parceiro fiável num país específico”, afirma.
Essa procura levou a Business Russia a desenvolver uma rede de cooperação com organizações empresariais africanas, responsáveis por identificar empresas locais capazes de desenvolver projectos conjuntos.

A organização criou igualmente a figura dos chamados “Embaixadores de Negócios”, empresários russos que vivem permanentemente em países africanos e actuam como intermediários entre investidores russos e empresas locais.
O objectivo passa por reduzir riscos, acelerar contactos comerciais e facilitar a instalação de tecnologias russas em diferentes economias africanas.
Moçambique desperta interesse na agricultura e logística
Entre os países africanos, Moçambique surge como um dos mercados considerados promissores pelos empresários russos.
Segundo revela Anton Slinchenko, a cooperação institucional começou a ganhar forma em 2019, com a assinatura de um memorando de entendimento entre a Business Russia e a Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA).
Desde então, vários sectores têm sido analisados, mas a agricultura continua a concentrar a maior atenção. “O principal formato de cooperação é a localização da produção em Moçambique. As empresas russas ligadas à produção de fertilizantes e ao sector agrícola identificam forte potencial em Moçambique, tanto pela procura existente como pelas condições naturais do País”, explica
Além da agricultura, existe igualmente interesse crescente pela exportação de maquinaria, equipamentos industriais e pelo desenvolvimento de soluções logísticas.
Na visão do responsável, a posição geográfica de Moçambique representa uma vantagem competitiva importante para futuras ligações comerciais entre a Rússia e o Oceano Índico. “Moçambique é um dos países mais interessados em organizar corredores logísticos do Oceano Índico para a Rússia”, defende.
Localizar a produção pode criar maior valor acrescentado
Mais do que exportar equipamentos ou matérias-primas, os empresários russos defendem que a próxima etapa da cooperação económica com Moçambique deve passar pela instalação de unidades de produção no País. A estratégia permitiria reduzir custos logísticos, aproximar a produção dos mercados consumidores e contribuir para a industrialização da economia moçambicana.
De acordo com Anton Slinchenko, esse é precisamente um dos temas discutidos entre a Business Russia e a Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA), com destaque para a agricultura, fertilizantes e equipamentos industriais. “O principal formato de cooperação é a localização da produção em Moçambique”, destaca.
“O principal formato de cooperação é a localização da produção em Moçambique. As empresas russas ligadas à produção de fertilizantes e ao sector agrícola identificam forte potencial em Moçambique, tanto pela procura existente como pelas condições naturais do País”
Anton Slinchenko
A proposta enquadra-se igualmente nas prioridades definidas pelo Governo moçambicano, que procura aumentar a transformação local de matérias-primas, reduzir a dependência das importações e desenvolver cadeias de valor industriais. Embora ainda não existam projectos russos de grande dimensão implantados no País, o interesse manifestado por empresas daquele mercado poderá abrir espaço para futuras parcerias em sectores considerados estratégicos.
Slinchenko acrescenta que, além da agricultura, existem oportunidades na produção de maquinaria agrícola, equipamentos industriais e outras tecnologias que poderão ser fabricadas ou montadas localmente através de parcerias com empresas moçambicanas.
Logística e pagamentos continuam entre os maiores obstáculos
Apesar das oportunidades identificadas, a concretização de novos investimentos continua condicionada por dificuldades operacionais.
Na perspectiva da Business Russia, a logística representa um dos principais constrangimentos às relações comerciais entre África e Rússia. Actualmente, os fluxos comerciais são desequilibrados: a Rússia exporta significativamente mais para África do que importa, tornando os custos de transporte elevados e reduzindo a competitividade das operações.
“Temos muito mais exportações para África do que importações. Precisamos de tornar esse comércio mais equilibrado”, afirma, acrescentando a existência de um outro desafio relacionado com os mecanismos de pagamento internacional. As sanções impostas ao sistema financeiro russo dificultaram as operações bancárias internacionais e obrigaram as empresas a procurarem soluções alternativas”.
Segundo Slinchenko, a inexistência de bancos russos com presença directa em muitos países africanos, incluindo Moçambique, continua a dificultar as transacções comerciais. “Precisamos de estabelecer canais de pagamento directos”, refere.
Na prática, estes factores acabam por aumentar os custos das operações comerciais e reduzir a rapidez na concretização de negócios entre empresas dos dois países.
Confiança institucional pesa nas decisões dos investidores
Além das questões logísticas, os empresários russos identificam outro factor determinante: a previsibilidade do ambiente de negócios.
Durante a sua intervenção, Anton Slinchenko afirmou que investidores procuram regras claras, estabilidade institucional e mecanismos que garantam segurança jurídica aos projectos de investimento.
Segundo explicou, empresas estrangeiras valorizam processos transparentes, instituições fortes e organismos públicos capazes de assegurar que os acordos celebrados sejam cumpridos independentemente de alterações políticas.
Embora não tenha dirigido críticas especificamente a Moçambique, o responsável referiu que muitos investidores analisam cuidadosamente o funcionamento das instituições antes de avançarem com investimentos de longo prazo.
Essa realidade reforça a importância das reformas que o Governo moçambicano tem vindo a implementar para melhorar o ambiente de negócios, simplificar procedimentos administrativos e atrair investimento privado.
Texto: Nário Sixpene


























































