O programa InteRussia aproxima jornalistas africanos da realidade russa, num momento em que Moscovo reforça a sua aposta no continente através dos media, da cooperação profissional e da diplomacia pública, procurando criar novas pontes de comunicação com os países do Sul Global.
Durante quatro semanas, jornalistas de nove países africanos – Moçambique, Zâmbia, Burundi, Ruanda, Uganda, Senegal, Quénia, Somália e Camarões – percorreram instituições políticas, académicas, empresariais e mediáticas da Rússia, numa experiência que os colocou em contacto directo com diferentes sectores da sociedade russa. Entre redacções, universidades, centros de investigação, empresas tecnológicas e encontros com responsáveis governamentais, o programa procurou proporcionar aos participantes uma perspectiva sobre o país a partir do terreno e criar novos canais de diálogo e cooperação entre profissionais dos media.
A iniciativa inseriu-se numa estratégia mais ampla de aproximação entre a Rússia e os países do Sul Global, numa altura em que Moscovo procura reforçar os seus laços com África e ampliar a sua presença no espaço mediático internacional. Para além da cooperação política, económica e cultural, a comunicação social surgiu como uma frente de aproximação, através do contacto directo com jornalistas estrangeiros e da criação de redes profissionais entre os dois lados.
Foi neste contexto que se enquadrou o InteRussia Fellowship em Jornalismo, um programa de desenvolvimento profissional realizado em Moscovo e destinado a jornalistas internacionais. Organizado em cooperação com o Fundo Gorchakov e o grupo de media Rossiya Segodnya, o programa proporcionou aos participantes contacto com órgãos de comunicação social, instituições públicas e académicas, eventos oficiais e profissionais russos, procurando aproximar diferentes realidades mediáticas e estimular o diálogo entre a Rússia e os países do Sul Global.
Para Vasily Pushkov, director de Cooperação Internacional do Rossiya Segodnya Media Group, a iniciativa responde a uma transformação no próprio sistema internacional de informação. Na sua perspectiva, durante as últimas três décadas, o mercado mediático mundial esteve excessivamente concentrado em grandes actores ocidentais.
“Durante os últimos três decénios, o mercado mundial dos media foi um monopólio, controlado pelos grandes actores que surgiram do Ocidente”, afirmou Pushkov, acrescentando que, com o agravamento das relações entre a Rússia e os países ocidentais, “o mercado mundial dos media, incluindo o mercado digital, ficou bastante fechado” à informação sobre a Rússia.
Segundo o responsável, a resposta russa passa pela procura de novos espaços de cooperação, sobretudo com os países do Sul Global.
A aposta numa comunicação mais directa
Vasily Pushkov defende também uma mudança na forma como os países comunicam entre si. Em vez de dependerem exclusivamente de grandes agências internacionais para conhecer a realidade de outros países, os meios de comunicação devem procurar fontes directamente nos países sobre os quais estão a informar.
“Dois países, a Rússia e Moçambique, e as suas agências de notícias, devem entender que, quando escrevem sobre a Rússia, as notícias devem vir de fontes russas”, explicou. Da mesma forma, acrescentou, quando os media russos escrevem sobre Moçambique, “devem pelo menos olhar para as agências de notícias de Moçambique”.

É uma visão que Pushkov considera parte de uma nova fase das relações internacionais no sector dos media. O objectivo, segundo afirmou, é construir “pontes horizontais de comunicação entre diferentes meios de comunicação de diferentes países”, contribuindo para tornar a indústria mediática internacional mais multipolar.
A aposta assume particular importância para África. Vasily Pushkov reconhece a existência de um défice de conhecimento mútuo entre a Rússia e o continente africano. Recordou, inclusive, situações em que cidadãos russos questionaram qual seria a “capital de África”, exemplo que utilizou para ilustrar, na sua perspectiva, o nível de desconhecimento sobre o continente.
Gorchakov: diálogo como instrumento de aproximação
A estratégia mediática insere-se numa política mais ampla de diplomacia pública. Liana Saikyants, directora de programas do Projecto InteRussia do Fundo de Diplomacia Pública Gorchakov, considera a comunicação um dos principais instrumentos para aproximar sociedades.
“O Fundo de Diplomacia Pública Gorchakov foi estabelecido para construir estas pontes de conversação e diálogo entre os países”, explicou Liana Saikyants, acrescentando que a organização trabalha há 15 anos com esse propósito. “Acreditamos que a comunicação é a chave”, afirmou.
A responsável defende que os programas devem criar condições para que jovens profissionais e especialistas de diferentes países se encontrem e discutam assuntos de interesse comum.
Segundo Liana Saikyants, o Fundo identifica anualmente as principais prioridades em termos de regiões e temas e, a partir daí, desenvolve projectos destinados a aproximar jovens especialistas. “Estamos a tentar criar tantas possibilidades quanto possível”, afirmou.
“Dois países, Rússia e Moçambique, e as suas agências de notícias, devem entender que, quando escrevem sobre a Rússia, as notícias devem vir de fontes russas. Da mesma forma, quando os media russos escrevem sobre Moçambique, devem pelo menos olhar para as agências de notícias de Moçambique”
Vasily Pushkov
Mais do que transmitir uma determinada imagem da Rússia, a responsável considera importante proporcionar aos estrangeiros um contacto directo com o país.
“Podemos dizer tantas coisas aos estrangeiros: que a Rússia é importante, é segura e está à espera do diálogo. Mas nunca vão acreditar até virem aqui e experimentarem isso em primeira mão”, afirmou.
É precisamente nessa experiência directa que a responsável vê parte da relevância do InteRussia: conhecer pessoas, organizações, instituições, infra-estruturas e aspectos culturais que dificilmente podem ser apreendidos apenas através de notícias produzidas à distância.
África como novo espaço mediático
A mudança de prioridades da Rússia também se reflecte na estratégia de presença editorial do grupo Rossiya Segodnya. Vasily Pushkov explicou que, antes do agravamento das relações com o Ocidente, o grupo mantinha uma presença significativa em algumas regiões ocidentais, enquanto em África dispunha apenas de um grande centro editorial, localizado no Egipto.
Com a redução das operações na Europa e na América do Norte, novos recursos passaram a estar disponíveis para outras regiões. “Agora temos recursos suficientes para abrir um no sul de África, na Etiópia, e temos planos para a Tanzânia”, revelou.

A expansão não é apresentada apenas como uma estratégia empresarial. Está também associada à necessidade de Moscovo reforçar os contactos directos com as sociedades africanas e ampliar o conhecimento sobre o continente dentro da própria Rússia.
Para Pushkov, os desafios enfrentados pelos jornalistas são, em grande medida, comuns a profissionais de diferentes regiões. “Estamos todos no mesmo barco”, afirmou, apontando dificuldades relacionadas com financiamento, confiança, desinformação, migração das audiências para plataformas digitais e impacto da Inteligência Artificial.
Na sua perspectiva, a resposta a esses desafios exige uma maior cooperação internacional entre jornalistas.
O olhar africano sobre a experiência
A perspectiva dos jornalistas africanos que participaram no programa introduz outra dimensão na discussão. Josef Phiri, jornalista da Zâmbia, considera que a experiência lhe permitiu aceder a instituições e profissionais que dificilmente conheceria através de fontes secundárias.
“Tudo o que sei é que a InteRussia me ofereceu acesso a eventos, figuras políticas, aos media e a outros lugares”, afirmou. Para o jornalista, esse contacto foi importante por lhe proporcionar informação directa sobre “a paisagem mediática russa”.
O profissional considera que iniciativas deste género podem também contribuir para corrigir percepções existentes sobre a Rússia. Na sua visão, a participação de profissionais de diferentes países africanos cria uma rede de conhecimento que pode continuar a produzir efeitos após o fim do programa.
Josef Phiri reconheceu, contudo, que foram estabelecidos alguns limites durante determinadas actividades. Recordou, por exemplo, eventos em que os participantes foram informados de que não seriam respondidas determinadas questões de natureza militar. Mencionou também uma aula de jornalismo militar em que algumas perguntas relacionadas com assuntos militares foram evitadas.
Ainda assim, considera que programas como o InteRussia podem fortalecer o envolvimento entre os media internacionais. “Fomos nove países na Rússia. A Rússia é o décimo país”, observou, referindo-se à diversidade de experiências que os participantes puderam partilhar durante o programa.

O jornalista burundês Denis Ntihindagizwa apresenta uma avaliação mais cautelosa. A sua experiência foi marcada pelo acesso a grandes organizações de comunicação social russas, eventos oficiais e responsáveis públicos.
“Este nível de acesso deu-me uma visão valiosa sobre a forma como as instituições russas funcionam”, afirmou. Ao mesmo tempo, fez questão de distinguir a experiência proporcionada pelo programa da realidade dos jornalistas estrangeiros que trabalham de forma independente no país.
Para Ntihindagizwa, ouvir diferentes perspectivas é fundamental para o exercício do jornalismo, mas não deve significar abdicar da independência editorial.
“O programa expôs-nos à perspectiva da Rússia sobre os assuntos internacionais através de palestras, debates e encontros com especialistas. Como jornalistas, é importante ouvir diferentes pontos de vista, mantendo a independência editorial”, afirmou.
O jornalista considera ainda que os participantes africanos foram recebidos com interesse e que existiu uma clara disposição para aprofundar a cooperação profissional. Na sua avaliação, a Rússia parece atribuir uma importância crescente às relações mediáticas com África, a Ásia e a América Latina.
“Podemos dizer tantas coisas aos estrangeiros: que a Rússia é importante, é segura e está à espera do diálogo. Mas nunca vão acreditar até virem aqui e experimentarem isso em primeira mão”
Liana Saikyants
Por sua vez, Khadar Hassan, jornalista da Somália, apresenta uma leitura mais favorável da abertura proporcionada pelo programa. Na sua avaliação, embora existam restrições significativas para os meios de comunicação na Rússia, o convite a jornalistas estrangeiros e o acesso aos órgãos de comunicação russos criam novas possibilidades de cooperação.
“As restrições enfrentadas pelos órgãos de comunicação na Rússia são significativas em comparação com outros países, mas, ao convidarem mais jornalistas e proporcionarem acesso aos seus próprios media, dão a si próprios e a outros jornalistas mais formas de cooperação”, afirmou.
Hassan considera também que a permanência em Moscovo permite aos jornalistas estrangeiros recolher informação directamente no terreno, em vez de dependerem exclusivamente de relatos produzidos por terceiros.
Na sua leitura, existe igualmente a percepção de que a Rússia procura reforçar as relações com o Sul Global. “A Rússia vê o Sul Global como um grupo de países unidos para promover uns aos outros, incluindo a própria Rússia”, afirmou.
As diferentes avaliações dos participantes mostram que a aproximação mediática entre a Rússia e o Sul Global não é um processo linear. Para Moscovo, programas como o InteRussia representam uma oportunidade para apresentar directamente a sua perspectiva e criar relações duradouras com jornalistas estrangeiros. Para os participantes, constituem uma oportunidade para conhecer uma realidade que muitas vezes chega através de fontes externas.
Texto: Nário Sixpene



























































