O Banco BPI chegou a acordo para vender a totalidade da sua participação de 33,35% no Banco de Fomento Angola (BFA), por um valor fixo de 388,5 milhões de euros, acrescido de uma componente variável. A operação representa mais um passo na redução dos investimentos bancários do grupo em África e renova a atenção sobre os 35,67% que mantém no Banco Comercial e de Investimentos (BCI), em Moçambique, cuja alienação continua a admitir.
Anunciado a 3 de Setembro, o acordo prevê a aquisição da participação pela Congolian Financial (CFSA), sociedade ligada ao Grupo Carrinho, com presença no sector agro-industrial angolano. Caso a operação avance nos termos anunciados, a compradora tornar-se-á o segundo maior accionista do BFA, atrás da Unitel, que detém 36,9% do capital. Jornal Económico.
Pagamento faseado e condições por cumprir
O preço compreende 345 milhões de euros a pagar na conclusão da transacção e cerca de 43,5 milhões em Maio de 2027. Nessa altura, será também devida uma parcela variável, correspondente a metade dos dividendos do exercício de 2026 atribuíveis às acções vendidas. Comunicado conjunto do BPI e da CFSA.
A concretização depende, entre outras condições, da não oposição do Banco Nacional de Angola, da confirmação pela Comissão do Mercado de Capitais de que a aquisição não obriga ao lançamento de uma Oferta Pública de Aquisição e do não exercício do direito de preferência da Unitel. As partes comunicarão a data da transacção quando estiverem reunidas as condições necessárias. Comunicado conjunto.
A participação estava contabilizada em 379 milhões de euros a 30 de Junho. Considerando apenas o preço fixo e essa referência contabilística, o BPI estima um impacto positivo de cerca de nove milhões de euros nos capitais próprios. O efeito final dependerá também da componente variável e do valor contabilístico na conclusão. Comunicado do BPI.
Uma saída construída ao longo de vários anos
A ligação do BPI ao mercado angolano antecede a constituição do BFA como banco de direito local, em 2002. Remonta à aquisição, em 1996, do Banco de Fomento e Exterior, que já operava uma sucursal em Luanda desde 1993. História do BFA.
A redução da participação ocorreu por etapas. Em 2008, o BPI vendeu 49,9% à Unitel, mantendo uma maioria de 50,1%. Em Janeiro de 2017, alienou mais dois pontos percentuais à operadora, passando a deter 48,1% e perdendo o controlo maioritário. Estrutura societária do BFA.
Em Setembro de 2025, a entrada do BFA em bolsa permitiu ao banco português vender outros 14,75% do capital. A operação gerou um encaixe em kwanzas equivalente a cerca de 103 milhões de euros, ao câmbio então utilizado, e deixou o BPI com os 33,35% agora abrangidos pelo acordo. Comunicado do BPI sobre a oferta pública de venda.
BCI: disponibilidade para vender e mudança contabilística
Em Moçambique, o BPI mantém 35,67% do BCI. O controlo pertence ao grupo Caixa Geral de Depósitos (CGD), que reúne 61,51%, através da Caixa Participações, com 51%, e de uma posição directa de 10,51%. Estrutura accionista do BCI.
A administração do BPI tem reiterado que os investimentos bancários africanos deixaram de ser estratégicos. “As operações em África não são estratégicas”, afirmou o presidente executivo, João Pedro Oliveira e Costa, na apresentação dos resultados semestrais, a 31 de Julho.
Na mesma ocasião, esclareceu que a disponibilidade para alienar a participação moçambicana ainda não se traduzia em negociações: “Não estamos a negociar a venda dos nossos 35% com a CGD nem com mais ninguém”, declarou, segundo o Jornal Económico. Declarações de Oliveira e Costa.
Entretanto, o BPI alterou o tratamento contabilístico do investimento no BCI. No primeiro semestre de 2026, a participação deixou de ser reconhecida como empresa associada, pelo método de equivalência patrimonial, passando a ser registada como activo financeiro ao justo valor através de outro rendimento integral. A reclassificação teve um impacto negativo de 35 milhões de euros no resultado semestral do banco português. Resultados oficiais do BPI.
Na prática, o BPI deixa de incorporar nos resultados a sua parcela dos lucros do BCI e passa a reconhecer os dividendos recebidos, enquanto as variações do valor da participação são reflectidas nos capitais próprios. Segundo a administração financeira, o impacto inicial correspondeu sobretudo à transferência de reservas para resultados, sem alterar, por si só, o valor da participação ou dos capitais próprios. Explicação da administração financeira do BPI.
Caixa pretende manter a maioria e admite entrada em bolsa
O futuro accionista do BCI inclui ainda outra possibilidade: a admissão à Bolsa de Valores de Moçambique. A CGD tem estudado essa hipótese, discutida em Maio entre Paulo Macedo e o Presidente da República, Daniel Chapo.
O presidente executivo da Caixa reiterou, porém, a intenção de preservar o controlo do banco moçambicano. “Independentemente de alienar alguma coisa ou não, é para [a CGD] manter a maioria do capital”, afirmou, numa posição noticiada pelo Diário Económico em Julho. A eventual entrada em bolsa dependerá também da existência de procura pelas acções. Diário Económico.
O acordo relativo ao BFA dá, assim, expressão concreta à intenção de desinvestimento anunciada pelo BPI. Para o BCI, continuam por anunciar um comprador, um preço e um calendário de venda. A eventual cotação em bolsa acrescenta uma possibilidade à reorganização accionista, mas ainda não foi apresentada como solução acordada para a saída do banco português.



























































