Quase nove anos depois do início da insurgência armada em Cabo Delgado, o distrito de Quissanga continua sem infra-estruturas públicas reabilitadas, com vários serviços do Estado a funcionarem em instalações improvisadas.
De acordo com a Lusa, a informação foi avançada pelo administrador do distrito, Sidónio Lindo, que explicou que as infra-estruturas anteriormente utilizadas pelos serviços públicos foram destruídas durante os ataques e ainda não foram recuperadas. “É verdade que o distrito ainda não tem nenhuma infra-estrutura para o funcionamento de qualquer serviço. Vocês conseguem notar que todas as infra-estruturas estão totalmente destruídas”, afirmou o governante.
Segundo o administrador, algumas tentativas anteriores de reconstrução acabaram por ser anuladas por novos ataques dos grupos armados, o que levou as autoridades a adoptarem uma postura mais cautelosa relativamente a novos investimentos. “Em várias ocasiões já se proferiram promessas, mas vocês devem recordar que nós já tivemos reabilitação de infra-estruturas, os terroristas destruíram, conseguimos reerguer algumas infra-estruturas e, de novo, os terroristas voltaram a destruir”, explicou.
Sidónio Lindo defendeu que qualquer novo processo de reconstrução deverá ter em conta as condições de segurança no terreno, para evitar que os investimentos voltem a ser destruídos. “É preciso ponderar em que momento certo podemos reabilitar algumas infra-estruturas de modo que não voltem a ser destruídas”, acrescentou.
Apesar das dificuldades, o distrito já recebeu de volta mais de 55 mil pessoas que tinham abandonado a região devido aos ataques. O número representa uma parte significativa dos cerca de 64 mil habitantes de Quissanga.
De acordo com o administrador, os retornados encontram-se distribuídos por 32 das 34 aldeias do distrito. Namaluco e Sossosso continuam, contudo, sem população residente devido à insegurança. “Temos uma fasquia de mais ou menos 55 mil pessoas que já voltaram ao distrito. O distrito tem um global de 64 mil habitantes e julgamos que essa fasquia de retornados é bastante positiva”, afirmou.
O responsável explicou que algumas zonas continuam a registar movimentações de grupos insurgentes, limitando o regresso das populações e o funcionamento normal dos serviços básicos. “Uma das aldeias que foi totalmente abandonada é Namaluco, que constitui um ponto de entrada dos terroristas quando se deslocam para sul da província”, referiu.
Além da insegurança, Quissanga enfrenta dificuldades na produção agrícola devido à presença de elefantes nas zonas de cultivo, situação que tem afectado a capacidade das famílias para produzirem alimentos para consumo próprio.
Parte das necessidades alimentares da população continua, por isso, a ser assegurada através do apoio do Programa Mundial para a Alimentação (PMA). “Este défice de alimentos tem estado a ser coberto com o apoio do PMA, mas não podemos confiar plenamente nesse apoio. A nossa vontade como Governo é ver as populações a produzirem a sua própria comida”, disse Sidónio Lindo.
O administrador apelou ainda à união das comunidades e ao reforço da vigilância como condições importantes para apoiar a reconstrução do distrito e a retoma das actividades económicas e sociais. “Temos que nos unir em torno de um objectivo comum, que é a reconstrução das nossas infra-estruturas e a prossecução das nossas actividades. O Governo, no seu todo, está cá”, concluiu.
A província de Cabo Delgado enfrenta uma insurgência armada desde Outubro de 2017. Segundo organizações internacionais citadas na informação disponibilizada, o conflito já provocou mais de 6600 mortos e cerca de 1,2 milhão de deslocados. Dados recentes do Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários indicam ainda que a violência armada provocou 1401 deslocados em Agosto, enquanto os incidentes de conflito aumentaram 10% no primeiro semestre, comparativamente ao mesmo período do ano anterior.


























































