Rodrigo Almeida tinha apenas 8 anos quando entrou pela primeira vez numa pista de karting. Foi durante uma visita com o pai ao Automobile and Touring Club of Mozambique (ATCM), cujo traçado emblemático se encontra junto à marginal de Maputo. Bastaram-lhe alguns minutos a observar os carros para pedir que o deixassem conduzir. Alguns dias depois, voltou para se inscrever na academia do clube e nunca mais parou. “Fiz a academia e gostei logo da experiência. Foi aí que nasceu a minha paixão pelo automobilismo”, recorda.
Nascido em Maputo e criado no bairro do Triunfo, encontrou no ATCM o ponto de partida para uma trajectória que, pouco mais de uma década depois, o leva aos principais campeonatos da Europa e da Ásia. Sob orientação técnica, começou a competir no karting e rapidamente se destacou.
Ao contrário de muitos pilotos internacionais, Rodrigo não cresceu numa família ligada ao desporto motorizado. Ainda assim, o pai, Joel Almeida, sempre o incentivou. “O meu pai esteve comigo desde o primeiro dia. Contei também com pessoas importantes, como Rufino Fontes, que continua a acompanhar-me e a aconselhar-me”, conta Almeida à E&M.
O seu talento abriu-lhe portas, mas depressa percebeu que, no automobilismo, a vitória depende de muitos outros factores além da velocidade. A transição do karting para as corridas de automóveis implicava custos muito mais elevados e obrigou-o a angariar patrocinadores para sustentar a sua carreira. “Foi provavelmente a fase mais difícil. Sem patrocinadores seria impossível continuar.”
Entre a universidade e as pistas
Ainda enquanto estudava na Escola Portuguesa de Moçambique, conciliava as aulas com viagens frequentes para competir no estrangeiro. Os seus esforços foram recompensados com a conquista do Campeonato Nacional de Karting, organizado pelo ATCM, um dos momentos mais memoráveis da sua carreira. Nessa categoria, sagrou-se campeão nacional várias vezes e conquistou o passaporte para representar Moçambique internacionalmente.
Rodrigo Almeida é um jovem piloto moçambicano, nascido em 2004, apaixonado pelo automobilismo e a competir na diáspora
Em 2023, mudou-se para Portugal para seguir estudos superiores de Engenharia Mecânica na Universidade do Porto. A decisão teve também uma vertente estratégica: viver mais perto dos circuitos europeus reduziu o tempo de viagem e permitiu-lhe concentrar-se mais na preparação para as competições.
“Vim por causa dos estudos, mas também por facilitar muito a logística das corridas. Antes perdia dias inteiros em viagens”. Apesar da mudança, regressa todos os anos a Moçambique. “Sinto falta das pessoas, do clima e da praia. Continuo a sentir que Moçambique é a minha casa”, diz o piloto.
Competir com a bandeira de Moçambique
A ligação ao País onde nasceu acompanha-o ao longo de todas as competições internacionais. “Representar Moçambique significa muito para mim. Levo sempre a bandeira comigo”. Hoje, aos 22 anos, Rodrigo já competiu em mais de 45 países na Europa, na Ásia e no Médio Oriente. Cada campeonato representou um novo nível de desafio e de aprendizagem. “Cada corrida ensina alguma coisa. Conhecemos novas culturas, diferentes formas de trabalhar e pilotos muito experientes. Tudo isso ajuda-nos a evoluir”.
A sua ascensão foi rápida. Depois de conquistar vários títulos nacionais de karting, Rodrigo representou o seu país no Campeonato Mundial de Karting da Federação Internacional de Automobilismo (FIA) de 2019. No ano seguinte, ficou em terceiro lugar no Campeonato Português de Karting, em Portimão. Em 2021, deu o salto para o automobilismo. Competiu na BMW M2 Cup na Alemanha, terminando o campeonato em quarto lugar, entre 23 pilotos, além de garantir uma “pole position” e um segundo lugar no Circuito de Zolder. A época seguinte ficou marcada por uma das suas maiores conquistas: venceu uma corrida do DTM Trophy no Red Bull Ring, na Áustria, um dos circuitos usados pela Fórmula 1.
Nos anos seguintes consolidou o percurso em competições internacionais ao volante de automóveis como o Porsche 911 GT3 Cup e o Toyota GR Supra GT4 EVO2. Passou a integrar o programa de jovens talentos da Porsche Carrera Cup Asia e acumulou pódios (na Europa e na Ásia).

Em 2026, divide a temporada entre a Porsche Carrera Cup Asia, ocupando os primeiros lugares da classificação geral, e o Campeonato de Portugal de Velocidade, ao serviço da Toyota Gazoo Racing Caetano Portugal.
“Cada corrida ensina-me alguma coisa nova”
Nem todas as lições, porém, vieram das vitórias. “Houve corridas em que um pequeno erro custou um excelente resultado. Neste desporto tudo se decide por milímetros. O importante é aprender rapidamente”. A sua preparação também mudou. Além do treino físico, passa horas no simulador para conhecer cada circuito em pormenor. “Nem sempre é possível treinar com os carros por causa dos custos. O simulador tornou-se essencial”.
Outra experiência inesquecível aconteceu nas 24 Horas de Spa-Francorchamps, na Bélgica. “Foi provavelmente a prova mais difícil que fiz. São 24 horas de corrida e qualquer distracção pode comprometer o trabalho de toda a equipa”.
A par da sua carreira desportiva, Rodrigo continua a investir na formação académica. Além do mais, estudar Engenharia Mecânica permite-lhe compreender melhor o comportamento dos carros que conduz e comunicar de forma mais precisa com os engenheiros da equipa. O próximo objectivo é transformar o seu estatuto de piloto júnior num contrato profissional. “É para isso que trabalho todos os dias”.
Sempre que regressa a Maputo, faz questão de visitar o ATCM, onde os seus sonhos despertaram. “É especial voltar aqui. Foi aqui que tudo começou e adoro ver cada vez mais jovens a interessarem-se pelo automobilismo”, afirma.

A próxima curva ainda está por vir
Na sua opinião, o karting continua a ser a principal porta de entrada para o desporto, mas acredita que os simuladores podem ajudar a reduzir as barreiras e a descobrir novos talentos. “Há pilotos que começaram nos simuladores e chegaram às pistas. Tal pode abrir muitas portas aos jovens moçambicanos”, salienta Almeida.
O piloto defende também um maior envolvimento das empresas no desenvolvimento deste desporto. “Temos um circuito muito bom em Maputo e muito potencial. Com mais promoção e mais patrocinadores, poderão surgir outros pilotos capazes de representar Moçambique ao mais alto nível”.
Mais de uma década depois daquela primeira volta no ATCM, em Maputo, Rodrigo Almeida continua a perseguir o mesmo sonho. A diferença é que, agora, os circuitos são maiores, os adversários vêm de todos os cantos do mundo e compete nos principais campeonatos da Europa e da Ásia. Mas continua a entrar na pista com a mesma bandeira que levava consigo quando saiu de casa pela primeira vez.
Texto Germano Ndlovo • Fotografia D.R.



























































