Uma pesquisa académica divulgada nesta terça-feira (18) sugere que a China e a Rússia usam e contribuem para o autoritarismo em Angola para obterem benefícios com financiamento que enriquece uma pequena elite e mantém os angolanos na pobreza extrema.
A pesquisa baseia-se num trabalho de seis meses realizado por quatro académicos e activistas, entre os quais Florindo Chivucute, que apresentou as conclusões em Luanda. Chivucute é director-executivo da organização da sociedade civil Friends of Angola.
Chivucute ressalvou que o trabalho académico não aponta a China e a Rússia como responsáveis pela criação do que considera ser “o sistema autoritário” de Angola, mas conclui que “estão a aproveitar-se desse sistema autoritário, da fragilidade das instituições para poderem obter benefícios”.
De acordo com os dados divulgados, em troca de petróleo, diamantes e outros recursos naturais, a Rússia actua em Angola “mais na questão da segurança e informação”, enquanto “a China continua a conceder muito crédito ao país, comparando com a Europa ou os Estados Unidos da América (EUA), incluindo o próprio Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial”.
A pesquisa conclui que, entre 2002 e 2024, a China concedeu a Angola “mais de 49 biliões de dólares, em nome do povo angolano, mas este, em geral, não sabe em que condições esse dinheiro foi emprestado e como é que ele foi usado”.
O estudo classifica o financiamento como “opaco” e indica que “mais de metade da população angolana está a viver uma pobreza multidimensional”.
“Como é que se explica que, em mais de duas décadas de investimento e de financiamento, os angolanos continuam pobres e uma elite pequenina, política e sobretudo ligada ao poder Executivo, tornou-se a mais rica já vista na história de Angola?”, questionou.
Florindo Chivucute apontou também o alegado incumprimento das leis laborais e os “salários míseros que muitas dessas empresas chinesas têm estado a dar ao povo”.
O activista deu como exemplo uma empresa que paga cerca de 60 mil kwanzas (56 euros) por mês, num país onde o salário mínimo é de 100 mil kwanzas (94 euros).
“A pesquisa tem como base um trabalho de seis meses de quatro académicos/activistas, entre os quais Florindo Chivucute, que apresentou as conclusões, em Luanda, e que é director-executivo da organização da sociedade civil Friends of Angola”
Referiu-se ainda à transferência de tecnologia, nomeadamente às câmaras de vigilância instaladas em todo o país, que, sublinhou “são boas para combater o crime, mas só quando existem mecanismos para controlar como é que são usadas”. “Em Angola, não sabemos como é que esses dados estão a ser utilizados. No entanto, é sabido que elas têm capacidade de reconhecimento facial e que também podem ler as matrículas dos carros”, afirmou.
Florindo Chivucute considera que Angola não dispõe de um sistema judicial nem de mecanismos adequados para proteger esta informação do público em geral. Segundo o activista, “em vez de ela servir para combater o crime, pode ser usada de forma abusiva contra todos aqueles que o regime não concordar”.
O autor referiu ainda que a pesquisa pretende lançar um desafio aos angolanos, levando-os a questionar-se “porque é que o poder investe desta forma, porque existe tanta corrupção, tanta impunidade, porque é que o poder judicial não funciona para o cidadão comum, só para aqueles que têm o poder político”.
“Os cidadãos não podem continuar a pensar apenas que são vítimas, todos têm responsabilidades e quem está a permitir isso tudo é o partido no poder, mas também todos nós. Somos parte desse colapso, ou mesmo paradoxo, em que num país tão rico como Angola a população continua a viver em extrema pobreza”, declarou.
Fonte: Lusa




























































