Uma equipa de estudantes moçambicanos conquistou o terceiro lugar na final global da Huawei ICT Competition 2025-2026, realizada em Shenzhen, na China, colocando o talento nacional entre os destaques de uma disputa que reuniu participantes de vários países. Trata-se da primeira vez que uma equipa nacional chega a fase global da competição.
Formada por estudantes finalistas de diferentes instituições de ensino, Neyla Mussá da Escola Superior de Ciências Náuticas (ESCN), Walter Salgado do Instituto Superior de Transportes e Comunicações (ISUTC) e Nério Jamisse da Universidade Pedagógica de Maputo (UP-Maputo), a equipa competiu na categoria de Cloud AI, uma área que combina computação em nuvem e Inteligência Artificial (IA).
O Diário Económico conversou recentemente com os vencedores, que partilharam os desafios enfrentados durante a competição, as competências adquiridas ao longo do processo e a visão que desenvolveram sobre o actual estágio tecnológico de Moçambique.
Cloud e IA sob pressão
De acordo com os participantes, um dos principais desafios esteve relacionado com a construção de infra-estruturas em Cloud Computing. Os estudantes tiveram de criar máquinas virtuais, estabelecer ligações entre diferentes ambientes e desenvolver estruturas capazes de comunicar entre si.
O exercício envolvia ainda conceitos como escalabilidade, uma característica fundamental dos serviços digitais modernos. Na prática, a infra-estrutura deveria ser capaz de responder ao aumento ou redução da procura, ajustando os recursos disponíveis ao número de utilizadores.
Na componente de Inteligência Artificial, o desafio assumiu outra dimensão. A equipa recebeu dados relacionados com máquinas industriais que poderiam apresentar falhas de funcionamento e teve de desenvolver um algoritmo capaz de antecipar possíveis avarias, estimar quando poderiam ocorrer e indicar quando seria necessário intervir.

A prova teve uma duração prevista de oito horas, mas acabou por se prolongar por cerca de nove horas de trabalho concentrado. “Foi um desafio que exigiu não só conhecimento técnico, mas também muita capacidade de decisão e trabalho em equipa”, afirmou Neyla Mussá.
A pressão, segundo os estudantes, foi uma das principais características da experiência. A necessidade de encontrar soluções em pouco tempo obrigou a equipa a dividir tarefas, tomar decisões rápidas e adaptar-se aos problemas que surgiam durante a prova.
Um mercado ainda em fase embrionária
Apesar da conquista, os estudantes consideram que Moçambique ainda tem um longo caminho a percorrer na adopção de tecnologias como Cloud Computing, Inteligência Artificial, análise de dados e cibersegurança.
Na sua avaliação, o País já dispõe de algumas infra-estruturas e começa a registar maior interesse empresarial por soluções digitais. O principal desafio está, contudo, em transformar essa capacidade instalada em utilização efectiva.
“Não basta termos infra-estruturas. Precisamos de pessoas capazes de trabalhar com elas e de empresas que tenham capacidade e interesse em utilizar essas tecnologias”, declarou Walter Salgado.
Os jovens descrevem o actual mercado tecnológico moçambicano como ainda “embrionário”, sobretudo quando comparado com países onde a utilização de Cloud, IA e dados já está mais integrada nos processos empresariais.

“A existência de data centers, por exemplo, não significa automaticamente que o País esteja a explorar todo o potencial dessas infra-estruturas. É necessário aumentar o número de profissionais especializados e estimular a procura por competências tecnológicas”, destacou Neyla Mussá.
O desafio estende-se também ao sector público. Na perspectiva da equipa, as instituições públicas têm espaço para reforçar a utilização estratégica de dados e adoptar tecnologias capazes de melhorar processos e serviços.
Do pódio mundial às oportunidades profissionais
A distinção já começa a produzir efeitos na vida profissional dos estudantes. Embora a equipa não tenha recebido, até ao momento, propostas para desenvolver um projecto conjunto, alguns dos integrantes afirmam ter registado maior visibilidade profissional após a competição, sobretudo através do LinkedIn.
“Depois da competição começámos a receber mais atenção. Houve pessoas que passaram a acompanhar o nosso trabalho e a entrar em contacto connosco.”
A experiência demonstra, segundo os estudantes, a importância de combinar formação académica com experiências práticas que permitam testar conhecimentos em situações reais.
Apesar da conquista, os estudantes consideram que Moçambique ainda tem um longo caminho a percorrer na adopção de tecnologias como Cloud Computing, Inteligência Artificial, análise de dados e cibersegurança.
Um sinal do potencial nacional
Na final global, os estudantes moçambicanos competiram com equipas de países como o Vietname, a Itália, as Filipinas, a República Dominicana, o Chile, Madagáscar, Marrocos, a China e o Brasil, entre outros.
Para além da componente competitiva, o encontro permitiu aos jovens trocar experiências e conhecer diferentes níveis de desenvolvimento tecnológico.
“Percebemos que temos capacidade para competir internacionalmente. O que precisamos é de mais oportunidades, formação e acesso às ferramentas.”
O terceiro lugar conquistado em Shenzhen representa, assim, mais do que um resultado académico. Mostra que Moçambique dispõe de jovens capazes de competir num ecossistema tecnológico global e evidencia o potencial que pode ser explorado através de maior investimento em formação, inovação e infra-estruturas digitais.
Para a equipa, o pódio não é um ponto de chegada, mas o início de um percurso. O desafio agora é transformar conquistas individuais em oportunidades concretas: criar produtos, empresas e soluções tecnológicas capazes de responder aos problemas do País e gerar valor económico em Moçambique.
Texto: Ana Mangana



























































