Seis mulheres assumiram os comandos de locomotivas na Grindrod, tornando-se nas primeiras maquinistas da empresa no País. Depois de um ano de formação e vários desafios superados, as profissionais representam um marco de inclusão de género.
Durante décadas, a condução de locomotivas foi vista como uma profissão reservada a homens. No sector ferroviário, a presença feminina era rara e, muitas vezes, limitada a funções administrativas. Mas essa realidade está a mudar. Na Grindrod, uma das maiores operadoras logísticas e de terminais portuários em Moçambique, um grupo de mulheres está a desafiar estereótipos e a escrever uma nova página ao tornar-se na primeira equipa de maquinistas da empresa no País. A iniciativa surge no âmbito da política de inclusão da Grindrod que tem vindo a promover a participação feminina em áreas tradicionalmente dominadas por homens. Um conjunto de seis profissionais, Rosa Bela, Malda Maquil, Imaculada Fonseca, Ivete Chile, Isaura Bazima e Helena Salomão, conduz locomotivas, movimentam cargas e demonstram que competência e dedicação não dependem do género.
Das operações à cabine de comando
Isaura Bazima, 32 anos, está na Grindrod há três. Entrou na empresa como operadora de máquinas e a carreira ganhou um novo rumo quando foi seleccionada para frequentar o curso de maquinista. “Não foi fácil”, confessa. A formação, realizada nas instalações dos Caminhos-de-Ferro de Moçambique (CFM), teve a duração de aproximadamente um ano. O início foi marcado por incertezas e receios. “Era tudo novo. Não sabíamos o que íamos encontrar, nem como seria a formação. O primeiro semestre foi difícil, mas depois adaptámo-nos e, no final, foi um sucesso”, diz à E&M. Isaura exerce a função há vários meses e conduz locomotivas responsáveis pelo transporte de materiais para as operações da empresa.
Mãe de dois filhos, reconhece que conciliar a vida familiar com as exigências da profissão continua a ser um desafio diário. “Faço o máximo para que não sintam falta de nada. Faço o papel de mãe e de pai”. A principal mensagem que transmite é dirigida a outras mulheres. “Que não se sintam inferiores. O que os homens podem fazer, as mulheres também conseguem.”
O grupo quebrou barreiras no sector ferroviário moçambicano e o seu maior contributo poderá estar na mudança de mentalidades
Outra integrante desta primeira geração de maquinistas é Malda Maquil, 26 anos. Entrou na Grindrod em 2023 como operadora de manobras e abraçou a oportunidade de formação quando esta surgiu. “Foi uma profissão que nunca imaginei exercer”, admite. Apesar disso, decidiu aceitar o desafio e provar a si própria que era capaz de ir mais longe. “Esta formação mostrou-me que não dependemos do género para determinados tipos de profissão. Aprendi que não existe profissão que uma mulher não possa exercer.”
Ao longo do percurso, enfrentou momentos de dúvida e dificuldades próprias de quem entra em território desconhecido. Ainda assim, encontrou motivação na evolução diária e na descoberta das suas capacidades. “A cada dia desenvolvia-me e percebia que tinha muito potencial.”
Também Ivete Chile, 37 anos, mãe de duas filhas, faz parte deste grupo pioneiro. Tal como as colegas, ingressou na empresa há três anos e iniciou a carreira sem qualquer experiência prévia no sector ferroviário. “Cheguei sem saber nada da área. Aprendi tudo aqui, desde a operação até à formação como maquinista”, recorda. O curso representou um enorme desafio, sobretudo porque implicava dominar conhecimentos técnicos ligados à condução de locomotivas e à movimentação segura de cargas. Para Ivete, o apoio da família foi fundamental. “Tenho a ajuda do meu esposo. Isso facilitou muito a conciliação entre a vida profissional e familiar.” Quanto ao futuro, as suas ambições vão além da função actual. “Quero continuar a crescer na empresa, fazer outras formações e desenvolver-me ainda mais.”

Quebrar barreiras num sector dominado por homens
O percurso destas mulheres é acompanhado de perto por Isabel Carlos, coordenadora de operações ferroviárias da Grindrod. Com quase 15 anos de experiência na empresa e há cinco na coordenação operacional, a dirigente testemunhou a gradual transformação induzida pela presença feminina. “Quando cheguei, era a única mulher na área ferroviária”, recorda. Actualmente, além das maquinistas, a empresa conta com mulheres operadoras de manobras e revisoras de material ferroviário. “Não consigo distinguir uma operação feita por um homem ou por uma mulher. É tudo a mesma coisa.” Houve um período em que as profissionais sentiram necessidade de provar constantemente a sua capacidade. Hoje, essa batalha foi vencida. O ambiente de trabalho tornou-se mais inclusivo e o desempenho contribuiu para eliminar preconceitos.
Uma aposta estratégica na inclusão e na qualificação
Durante a cerimónia de apresentação das novas maquinistas, o representante da Grindrod, Pedro Poh-Quong, descreveu a iniciativa como um momento histórico para a empresa e para o sector ferroviário nacional. Segundo afirmou, o projecto simboliza a abertura de novas oportunidades para mulheres em áreas tradicionalmente consideradas inacessíveis. “Hoje não estamos apenas a celebrar um projecto. Estamos a abrir caminhos”, declarou. Para o responsável, a entrada das mulheres na condução ferroviária demonstra que as barreiras associadas ao género podem ser ultrapassadas quando existem oportunidades, formação adequada e confiança nas capacidades das pessoas. “O progresso acontece quando se desafiam os modelos tradicionais e se criam espaços para que novos perfis profissionais possam emergir”, acrescentou. “O que hoje celebramos é a afirmação de que o género não impõe limites aos sonhos.”
Texto Nário Sixpene • Fotografia D.R



























































