Uma iniciativa desenvolvida por investigadores da Universidade Lúrio (UniLúrio), em Nampula, recorreu à Inteligência Artificial (IA) e à química computacional para investigar se a batata africana (Hypoxis hemerocallidea), amplamente utilizada na medicina tradicional, possui bases científicas que justifiquem o seu uso no combate ao Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH). A inovação indica que os resultados da planta contém moléculas com potencial actividade antirretroviral, mas os cientistas, entrevistados pelo Diário Económico, alertam que “isso não significa que possa substituir os medicamentos actualmente utilizados no tratamento da doença”.
A iniciativa, desenvolvida pelos investigadores Laize Silvia Beca e Hamza Age Daúdo, da Faculdade de Ciências de Saúde da UniLúrio, surgiu da curiosidade em compreender se o conhecimento ancestral sobre a utilização da batata africana tinha fundamento científico. Para tal, procurou-se estabelecer uma ponte entre a medicina tradicional africana e a farmacologia moderna, recorrendo a ferramentas de IA para analisar os compostos químicos presentes na planta.
“Ao longo de gerações, as comunidades foram identificando as propriedades terapêuticas de determinadas plantas e transmitindo esse conhecimento por tradição oral. Recordo-me de que, por volta de 1994, quando estava em Maputo, a batata africana era amplamente comercializada nas ruas e nos mercados da cidade. Nessa altura, muitas pessoas recorriam a essa planta como tratamento para o VIH, acreditando nas suas propriedades medicinais”, afirmou a docente e investigadora Laize Silvia Beca.
Segundo a investigadora, durante o processo foram identificados dezenas de princípios activos da batata africana, incluindo flavonoides, fitoesteróis, terpenos e outros compostos naturais. Em seguida, modelos de machine learning foram treinados com base em moléculas já conhecidas por apresentarem actividade contra o VIH, recorrendo também a bases de dados científicas internacionais.
“Treinámos o modelo para identificar diferentes classes de inibidores, incluindo os de protease, de fusão e da transcriptase reversa. Para cada modelo, utilizámos pelo menos 100 moléculas, um número estatisticamente considerado aceitável”, sublinhou.
“Apesar da existência de compostos promissores na batata-africana, ainda não há estudos científicos suficientes que permitam determinar doses seguras, ou possíveis efeitos adversos (…)”
Laize Silvia Beca, investigadora e professora na Faculdade de Ciências de Saúde da UniLúrio
Depois desse processo, os modelos analisaram os compostos da batata africana e identificaram moléculas com potencial para inibir o correceptor CCR5, uma proteína presente nos linfócitos CD4 (um tipo de célula de defesa do sistema imunitário) que o VIH utiliza para entrar nas células humanas. Este é o mesmo mecanismo de acção de um medicamento antirretroviral já aprovado e utilizado internacionalmente, o Maraviroc.
“Utilizámos o fingerprint (impressão digital) de Morgan, que funciona como uma espécie de impressão digital das moléculas. Esse descritor identifica as características comuns entre as moléculas utilizadas no treino de cada modelo de machine learning. O fingerprint permite perceber quais os elementos estruturais associados à actividade das moléculas, como determinadas ligações químicas, grupos funcionais, cargas ou disposições espaciais”, referiu Laize Beca, acrescentando que o processo identifica padrões comuns num conjunto de moléculas e utiliza essa informação para prever a actividade biológica.
Os investigadores explicam ainda que compararam a afinidade dessas moléculas naturais com a do Maraviroc e concluíram que o medicamento apresenta um desempenho superior na ligação ao co-receptor CCR5. Perante estes resultados, a equipa enfatiza que a descoberta não justifica o abandono da terapia antirretroviral.
“Apesar da existência de compostos promissores na batata africana, ainda não há estudos científicos suficientes que permitam determinar doses seguras, possíveis efeitos adversos, interacções medicamentosas ou a sua eficácia clínica em seres humanos. Por isso, se um paciente perguntasse se poderia abandonar os medicamentos antirretrovirais para utilizar apenas a batata africana, a resposta seria não, uma vez que os tratamentos actualmente disponíveis resultam de décadas de investigação científica, testes laboratoriais e ensaios clínicos rigorosos que comprovam a sua segurança e eficácia”, afirmou a investigadora.
“A análise realizada demonstrou que a batata-africana contém moléculas com potencial actividade antirretroviral, incluindo a capacidade de inibir o co-receptor CCR5, um mecanismo de acção já conhecido no tratamento do VIH.”
Hamza Age Daúdo, investigador auxiliar e estudante da Faculdade de Ciências de Saúde da UniLúrio
Para os cientistas, o principal contributo do estudo é demonstrar que o conhecimento da medicina tradicional africana pode servir de inspiração para o desenvolvimento de novos medicamentos, reforçando a importância de investigar cientificamente as plantas medicinais utilizadas pelas comunidades.
“A análise realizada demonstrou que a batata africana contém moléculas com potencial actividade antirretroviral, incluindo a capacidade de inibir o co-receptor CCR5, um mecanismo de acção já conhecido no tratamento do VIH. A contribuição da IA foi identificar e confirmar a presença desse mecanismo na planta, algo que ainda não tinha sido comprovado cientificamente”, acrescentou o investigador auxiliar Hamza Age Daúdo.
Daúdo considera que a IA poderá acelerar futuras descobertas na área farmacêutica, permitindo identificar moléculas promissoras que, após estudos laboratoriais e clínicos, poderão dar origem a novos tratamentos.
Os investigadores concluem, contudo, que o estudo contribui para validar cientificamente parte do conhecimento tradicional associado à batata africana. No entanto, não recomendam a sua utilização como substituto da terapia antirretroviral, uma vez que ainda são necessários mais estudos para avaliar a sua segurança, eficácia e eventual aplicação clínica.
Sobre a universidade
A UniLúrio é uma instituição pública de ensino superior criada em 2006, com sede na cidade de Nampula. Iniciou oficialmente as suas actividades em 2007 e foi concebida para expandir o acesso ao ensino superior nas províncias do Norte de Moçambique, nomeadamente Nampula, Cabo Delgado e Niassa.
Actualmente, a UniLúrio oferece 23 cursos de graduação e 12 cursos de pós-graduação, abrangendo áreas como Ciências da Saúde, Engenharia, Ciências Naturais, Arquitectura e Planeamento Físico, Ciências Agrárias e Ciências Sociais e Humanas, entre outras. A instituição dispõe ainda de laboratórios, bibliotecas, programas de investigação científica e iniciativas de extensão comunitária.
Texto: Soares Comé




























































