A completar 80 anos, a Mota-Engil prepara uma nova fase da sua presença em Moçambique. Paulo Pereira, CEO da operação no País, explica como o Grupo pretende contribuir para o desenvolvimento da energia, dos corredores logísticos, da indústria e das competências nacionais.
Fundada em 1946, a Mota-Engil evoluiu de uma empresa familiar portuguesa de construção para um grupo internacional presente na Europa, em África e na América Latina. Em Moçambique desde 1991, acompanhou a reconstrução do País, o crescimento da mineração, o surgimento dos grandes projectos energéticos e os sucessivos ciclos da economia nacional.
Paulo Pereira, CEO da Mota-Engil em Moçambique, considera que a próxima década será decisiva para converter os recursos nacionais em energia, infra-estruturas, industrialização e emprego qualificado. Para o responsável, o futuro da empresa passa por deixar de ser vista apenas como construtora e assumir-se como parceira na concepção, financiamento, execução, operação e manutenção das infra-estruturas de que Moçambique vai precisar.
A Mota-Engil celebra 80 anos de actividade. O que representa este marco para o Grupo e para a operação em Moçambique?
Os 80 anos representam uma enorme responsabilidade. Poucas empresas conseguem atravessar diferentes gerações, crises económicas e transformações tecnológicas, mantendo a sua identidade e a capacidade de se adaptar.
Nascemos como uma empresa de construção e tornámo-nos num grupo internacional com actividade na engenharia, ambiente, energia, serviços industriais e gestão de infra-estruturas. Esta evolução foi possível porque nunca ficámos presos a modelos de negócio do passado.
Em Moçambique, onde estamos desde 1991, acompanhámos a reconstrução do País, a expansão das infra-estruturas, o crescimento da mineração e o surgimento dos grandes projectos energéticos. Não chegámos apenas para executar uma obra e sair. Criámos uma organização, formámos equipas e desenvolvemos capacidade operacional dentro e fora de Maputo.
O passado dá-nos credibilidade, mas não garante o futuro. A nossa ambição é continuar a aprofundar a integração na economia nacional, afirmando-nos como uma empresa moçambicana do Grupo Mota-Engil, com quadros nacionais, fornecedores locais e responsabilidades de longo prazo no desenvolvimento do País.
Quais foram os principais marcos da presença da Mota-Engil em Moçambique?
O primeiro marco foi a entrada no mercado, em 1991, num período ainda muito exigente da história moçambicana. Apostámos numa presença de longo prazo e fomos construindo capacidade para trabalhar num território extenso e com enormes desafios logísticos. Outro marco foi a descentralização da operação. Percebemos cedo que não seria possível gerir adequadamente Moçambique apenas a partir de Maputo. Criámos bases, oficinas, armazéns e equipas técnicas nas províncias, o que nos permitiu acompanhar o desenvolvimento da mineração, das estradas, das ferrovias e, posteriormente, dos projectos de gás.
“Deixámos de ser uma empresa portuguesa em Moçambique para sermos uma empresa moçambicana do Grupo Mota-Engil”
A participação em infra-estruturas como a Linha de Sena, o eixo Tete-Nacala, a Ponte Armando Emílio Guebuza e os projectos associados ao Mozambique LNG demonstrou a capacidade da empresa para executar obras de elevada complexidade. Mas talvez o marco mais importante tenha sido a evolução da nossa estrutura humana. Hoje temos directores de obra, gestores de contrato, engenheiros e responsáveis operacionais moçambicanos. A sustentabilidade da operação depende da existência de competências nacionais e de uma verdadeira capacidade instalada no País.
Ao longo das últimas décadas, quais foram os maiores desafios e que lições ficaram desse percurso?
Um dos maiores desafios foi a dimensão e a complexidade logística de Moçambique. Transportar equipamentos pesados para Tete ou Cabo Delgado pode transformar-se numa operação extremamente exigente, sobretudo durante a época chuvosa. Essa realidade ensinou-nos que não se pode gerir Moçambique apenas a partir de Maputo. Foi necessário descentralizar, criar capacidade técnica no terreno e investir em equipas locais. Hoje, uma parte importante da nossa competitividade resulta precisamente dessa capilaridade.
Também tivemos de aprender a gerir os ciclos económicos. Durante o crescimento dos sectores do carvão e do gás, faltavam trabalhadores qualificados, fornecedores e capacidade instalada. Depois, com a crise da dívida, vários projectos pararam e tivemos de preservar equipas e conhecimento mesmo em períodos com menos actividade.
Gerir ciclos em África é gerir cuidadosamente a tesouraria e as pessoas. Aprendemos a não contratar apenas para um projecto, a diversificar clientes e sectores e a proteger os contratos contra variações de custos e riscos difíceis de antecipar.
A transferência de competências foi outro grande desafio. Para nós, o verdadeiro legado não é apenas a obra construída, mas as pessoas que ficam preparadas para a operar, manter e desenvolver. Foi essa evolução que nos permitiu deixar de ser apenas uma empresa portuguesa a operar em Moçambique para nos assumirmos como uma empresa moçambicana integrada no Grupo Mota-Engil.
A principal lição é que o projecto técnico representa apenas uma parte do sucesso. A outra parte é a confiança do Governo, do cliente, das comunidades, dos bancos e das equipas. Essa confiança ganha-se lentamente e pode perder-se num dia. Moçambique “temperou” a Mota-Engil. Quem aprende a construir e a operar aqui fica preparado para trabalhar em praticamente qualquer mercado do mundo.

O desenvolvimento de infra-estruturas exige novos modelos de financiamento, maior sustentabilidade e mais conteúdo local. Como se posiciona a empresa face a esta evolução do mercado e do próprio País?
O sector mudou profundamente. Já não é suficiente saber construir uma estrada, uma central ou uma ferrovia. Os países procuram parceiros capazes de compreender todo o ciclo de vida de uma infra-estrutura: estruturação, financiamento, construção, operação e manutenção. Queremos ser cada vez menos vistos apenas como empreiteiros e cada vez mais como parceiros de infra-estruturas.
Moçambique tem grandes necessidades de investimento, mas o Estado não poderá financiar sozinho todos os projectos. Será necessário combinar recursos públicos, capital privado, bancos comerciais, instituições financeiras de desenvolvimento e parcerias público-privadas. A experiência internacional do Grupo permite-nos contribuir para a estruturação de projectos tecnicamente viáveis, financeiramente sustentáveis e suficientemente robustos para atrair investimento.
A sustentabilidade ambiental é igualmente uma condição central. Mas existe também uma dimensão económica e social: uma obra não é verdadeiramente sustentável se terminar sem deixar competências, fornecedores nacionais ou capacidade de manutenção no País. Por isso, o conteúdo local deve deixar de ser medido apenas através de percentagens. O importante é perceber que empregos foram criados, que competências ficaram no mercado e quantas empresas moçambicanas melhoraram os seus processos e padrões de qualidade. O verdadeiro sucesso será permitir que empresas nacionais que trabalhem connosco em Moçambique possam, no futuro, acompanhar o Grupo noutros mercados.
Qual é a visão da Mota-Engil para Moçambique nos próximos anos?
Queremos evoluir de construtores das infra-estruturas de que Moçambique precisa hoje para parceiros das soluções de que o País vai precisar amanhã. Os próximos dez anos serão decisivos. Moçambique tem recursos extraordinários, mas o salto económico dependerá da capacidade de os transformar em energia, infra-estruturas, indústria e capital humano. Moçambique tem gás, sol, vento e recursos hídricos. O desafio é transformar esse potencial em energia estável, competitiva e acessível às famílias e à indústria. Podemos contribuir através da construção e operação de centrais, linhas de transporte, subestações e soluções renováveis ou híbridas. Sem energia fiável não há indústria, centros de dados, cadeias de frio ou transformação agrícola.
O gás do Rovuma, os recursos de Tete e a produção agrícola das regiões Centro e Norte precisam de chegar aos mercados com maior rapidez e menor custo. Queremos contribuir para uma visão integrada dos corredores económicos, combinando estradas, ferrovias, portos secos, terminais logísticos e manutenção. Moçambique tem condições únicas para ligar o interior do País e os mercados da região ao oceano Índico. Os recursos naturais não devem ser apenas exportados em bruto. O País precisa de fábricas de fertilizantes, de materiais de construção e outras indústrias que acrescentem valor, substituam importações e criem emprego qualificado. A Mota-Engil pode apoiar esse processo através da construção de parques industriais, zonas económicas especiais e unidades fabris, integrando engenharia, trabalhadores e pequenas e médias empresas moçambicanas.
Nenhum destes projectos será sustentável sem pessoas qualificadas. Queremos reforçar a formação e desenvolver parcerias com institutos técnicos, para que cada grande obra deixe centenas de profissionais certificados no mercado. A infra-estrutura física, por si só, não transforma um país. É necessário combiná-la com competências, empresas nacionais e oportunidades.
Nos próximos anos, queremos ser a engenharia que ajuda Moçambique a transformar os seus recursos em riqueza que permanece no País.
Texto Pedro Cativelos • Fotografia Mariano Silva



























































