As fábricas de vestuário na África do Sul enfrentam dificuldades para manter a produção após a fuga de milhares de trabalhadores migrantes, desencadeada por uma vaga de protestos xenófobos, deixando postos de trabalho por preencher e agravando os desafios de um sector já pressionado por baixos salários, redução de encomendas e dificuldades financeiras.
Em Newcastle, um dos principais centros da indústria têxtil da província de KwaZulu-Natal, proprietários de fábricas disseram à Reuters ter perdido entre 12% e 19% da sua força de trabalho durante os protestos, depois de muitos trabalhadores estrangeiros terem abandonado o país na sequência de uma campanha promovida pelo grupo anti-imigração March and March.
O movimento defendia a expulsão de migrantes em situação irregular, alegando que estes ocupavam postos de trabalho que deveriam ser destinados a cidadãos sul-africanos, num país onde cerca de um terço da população activa está desempregada. Os empresários, porém, afirmam ter dificuldade em recrutar trabalhadores locais para substituir a mão-de-obra estrangeira.
Segundo os fabricantes, muitos dos migrantes possuíam competências especializadas em costura, escassas no mercado de trabalho local, e poucos sul-africanos aceitam desempenhar funções marcadas por baixos salários e condições exigentes.
O Sindicato dos Trabalhadores do Vestuário e dos Têxteis da África Austral estima que cerca de 15% dos 15 mil trabalhadores do sector em Newcastle abandonaram os seus postos durante os protestos. Contudo, rejeita a existência de escassez de competências, defendendo que o país dispõe de operadores qualificados, mas que os salários oferecidos são pouco atractivos.
Perante este cenário, alguns empregadores apostam na formação. Um dos proprietários iniciou um programa para sete sul-africanos, depois de perder cerca de 40 trabalhadores estrangeiros, embora admita que as limitações financeiras impedem a sua expansão.
Analistas consideram que os migrantes tendem a ocupar empregos pouco procurados pela população local e defendem que a recuperação da indústria transformadora dependerá não apenas de melhores salários, mas também de condições de trabalho mais atractivas e de perspectivas de progressão profissional.
A situação é agravada pelo facto de muitos trabalhadores serem remunerados à peça, o que faz com que apenas os mais produtivos consigam atingir o salário mínimo nacional de 1,83 dólares por hora. Os fabricantes afirmam não conseguir aumentar os salários porque os retalhistas pagam valores reduzidos pelas peças produzidas e porque perderam encomendas após inspecções governamentais que detectaram práticas laborais ilegais em algumas fábricas.
Perante este contexto, empresários alertam que a combinação entre a perda de trabalhadores, a redução das encomendas e as dificuldades financeiras poderá levar ao encerramento de mais fábricas, destruindo mais empregos sul-africanos do que aqueles que a campanha anti-imigração pretendia criar.


























































