Depois de quase 700 candidaturas, Paulo Safrão trocou Maputo por Estugarda e construiu uma carreira numa multinacional alemã de semicondutores. Mas a mudança implicou regras rígidas, saudades de casa e… frio! Houve uma altura em que acordava todos os dias com a mesma rotina: abrir o LinkedIn, rever o currículo e enviar candidaturas para empresas europeias. Muitas candidaturas. Em média, entre 20 a 30 por dia. A resposta era quase sempre o silêncio ou um novo “não”. Ainda assim, persistiu.
Ao todo, o engenheiro estima ter enviado perto de 700 candidaturas antes de conseguir uma oportunidade de trabalho na Alemanha. “Enquanto não desistirmos, nunca fracassamos. Aprendemos alguma coisa. O fracasso só existe quando desistimos”, afirma à E&M.
Hoje, na casa dos 30 anos, o engenheiro trabalha na Renesas Electronics, multinacional do sector dos semicondutores, como arquitecto sénior de aplicações. Mas a viagem até lá começou muito antes e nem sequer passava pela programação. “O meu primeiro sonho profissional era ser astronauta”, recorda, entre risos. Mais tarde, influenciado por familiares, chegou a pensar em seguir contabilidade. A tecnologia ainda parecia distante, embora os computadores e videojogos já despertassem a sua curiosidade.
Foi no ensino secundário, durante competições de matemática e programação em Pascal (linguagem de programação estruturada de alto nível), que teve o primeiro contacto com código. “Comecei a programar sem me aperceber de que o estava a fazer”. Sem vaga na Universidade Eduardo Mondlane (UEM) decidiu procurar alternativas. Seguiu o conselho de um primo e entrou no Instituto Superior de Transportes e Comunicações (ISUTC), onde descobriu definitivamente a paixão pela informática.
O curso intensivo, que incluía aulas aos sábados, acabou por marcar o início da sua ascensão. Destacou-se como melhor estudante da instituição e conseguiu um estágio no ISUTC, onde trabalhou enquanto concluía a licenciatura em Engenharia Informática e Telecomunicações com bolsa integral.
Da inovação em Maputo até à carreira na Europa
Nos anos seguintes, mergulhou no ecossistema tecnológico moçambicano. Participou em hackathons, integrou comunidades de programadores, como a MozDevs e o Google Developer Group Maputo, e criou, com um amigo, a startup The Ability Team. A equipa ganhou notoriedade com a plataforma More Life, dedicada à gestão de doações de sangue, vencedora de um concurso de inovação em Moçambique. Mais tarde, representou o País numa competição da União Internacional das Telecomunicações, na Hungria, onde recebeu um Prémio de Excelência pela aplicação Melty, uma solução de banca digital.
“Enquanto não desistimos, nunca fracassamos. Aprendemos alguma coisa. O fracasso só existe quando desistimos”
Ao mesmo tempo, Paulo consolidava a experiência profissional em empresas moçambicanas, trabalhando em desenvolvimento de software, liderança técnica e gestão de equipas. Passou pela 2Business e mais tarde assumiu funções de IT Manager no Compass Group. A ideia de emigrar surgiu graças a um amigo que já vivia na Alemanha. Durante algum tempo resistiu. Gostava da vida em Moçambique, da proximidade familiar e do ambiente social. Mas o nascimento do primeiro filho mudou a forma como via o futuro. “Percebemos que fazia sentido tentar, pelas oportunidades que poderíamos dar ao nosso filho.”
Em 2023, começou a preparar-se seriamente para o mercado internacional. Obteve certificações em computação remota (cloud computing), reorganizou o currículo e lançou-se numa verdadeira maratona de candidaturas. Vieram entrevistas com empresas ligadas ao Grupo Volkswagen, plataformas de mobilidade, comércio electrónico e tecnologia. Vieram também dezenas de rejeições. “Houve momentos frustrantes. Actualizava o e-mail e encontrava mais uma rejeição. Mas cada entrevista ajudava-me a perceber onde podia melhorar”, lembra Safrão.
O frio, as regras e a saudade de casa
A oportunidade surgiu no início de 2024. Em Janeiro, mudou-se para a Alemanha com a mulher e o filho. Um mês depois, começou a trabalhar na Renesas Electronics. Se a integração profissional foi relativamente tranquila, a adaptação pessoal trouxe choques inesperados.
O primeiro foi a ausência da rede familiar. “Em Moçambique estamos habituados à comunidade, aos vizinhos, à família por perto. Aqui éramos só nós os três”. Depois veio o frio. Paulo chegou no Inverno alemão, enfrentando temperaturas negativas pela primeira vez na vida. Mas talvez o maior impacto tenha sido cultural. “Na Alemanha, as pessoas são muito directas. Dizem exactamente o que pensam. Para eles, é sinceridade. Para nós, às vezes, parece frieza.”

Também teve de se habituar às regras rígidas do quotidiano: reciclagem obrigatória, silêncio após as 22 horas, lojas fechadas aos domingos e um sistema em que tudo tem regras. Um dos episódios que mais o marcaram aconteceu pouco depois da chegada, quando colocou o lixo no contentor errado. O responsável do condomínio retirou os sacos e devolveu-os à sua porta, explicando detalhadamente como deveria separar plástico, papel e resíduos biodegradáveis. “Foi um choque enorme”, admite.
Apesar disso, reconhece que as condições de trabalho compensam muitos dos desafios. Na Alemanha, tem 30 dias úteis de férias, maior protecção laboral e mais tempo para acompanhar o crescimento do filho. “Hoje consigo passar mais tempo com ele do que conseguia em Moçambique.”
Um mundo para abraçar
Ao contrário do que muitos imaginam, Paulo acredita que a sua história não é um caso isolado. Diz que o mercado tecnológico internacional está cada vez mais acessível para profissionais moçambicanos preparados. “Tenho amigos na Alemanha, em Portugal, em Espanha e até em grandes empresas internacionais. O moçambicano trabalha muito e adapta-se facilmente”, afirma o especialista. Na sua opinião, a maior vantagem é a versatilidade. “Nós fazemos um pouco de tudo, o que acaba por nos preparar para vários desafios.”

Ainda assim, defende que os jovens devem apostar em competências específicas, dominar ferramentas usadas internacionalmente e aprender a organizar melhor os seus currículos e perfis profissionais.
Fora do trabalho, há saudades que persistem. Paulo sente falta da comida moçambicana, da espontaneidade social e do calor humano. “Em Moçambique, as pessoas conversam, brincam, aproximam-se facilmente. Aqui cada um vive muito no seu espaço”, afirma. E há também as curiosidades culturais. Uma delas confirma o famoso estereótipo alemão: a cerveja ocupa quase um lugar de património nacional. “A Alemanha é realmente o país da cerveja”, diz, entre risos. “Há cervejas de todo o tipo, até sem álcool. Algumas são leves, outras muito fortes.”
Desde que saiu de Moçambique, em Janeiro de 2024, Paulo Safrão ainda não regressou ao País. A visita já está planeada para o próximo ano.
Texto Germano Ndlovo • Fotografia D.R



























































