O investigador do Observatório do Meio Rural (OMR) João Feijó alertou que o projecto Mozambique LNG, liderado pela TotalEnergies, tem um impacto económico reduzido em Cabo Delgado, apesar das expectativas criadas em torno do investimento de 24 mil milhões de dólares.
Segundo a Lusa, o investigador considera que a decisão de realizar, na Matola, província de Maputo, a fase inicial da Academia Mozambique LNG constitui um sinal de “desconsideração” do Governo central em relação às populações do norte do País e poderá aprofundar o descontentamento social em Cabo Delgado.
“Este é um pequeno indicador da desconsideração do Governo central para com as populações do norte do País”, afirmou João Feijó.
A posição do investigador surge depois de o Fórum das Organizações da Sociedade Civil de Cabo Delgado (Focade) e o Conselho Empresarial Provincial (CEP) terem criticado a realização, na Matola, da formação inicial de 260 jovens seleccionados para a indústria do gás natural.
As duas organizações defendem que a formação deveria decorrer em Cabo Delgado, província onde está localizado o projecto liderado pela multinacional francesa TotalEnergies. A iniciativa decorreu a cerca de 2300 quilómetros da zona de produção de gás.
Para João Feijó, a polémica deve ser analisada no contexto das expectativas criadas em torno do projecto Mozambique LNG, localizado em Afungi, no distrito de Palma, e dos reduzidos efeitos económicos sentidos pelas populações e pelos empresários locais.
“Os empresários locais estavam já bastante frustrados nas suas expectativas e, quando sabem desta notícia da abertura do centro de formação em Maputo, ficam naturalmente muito descontentes”, afirmou.
De acordo com o investigador, a forma como o projecto está estruturado limita a circulação de pessoas e de rendimentos na economia de Cabo Delgado, devido ao modelo adoptado para o transporte de trabalhadores e para o abastecimento das operações.
“O que estamos a verificar é que, em Afungi, a decisão tomada foi assegurar o abastecimento exclusivamente por via marítima e a chegada dos trabalhadores por via aérea. Isto limita muito o impacto económico do projecto a nível local”, explicou.
“Eles chegam a Afungi, ficam no projecto e não saem. Não vêm aqui à vila-sede para nada”, acrescentou.

Segundo João Feijó, esta realidade contrasta com as expectativas de crescimento económico que levaram vários residentes de Palma a investir na construção de dependências, alojamentos e outros negócios para responder ao movimento esperado com a implementação do projecto.
“Aquilo que se nota é que há muitas casas onde foram construídas dependências que hoje estão completamente vazias. O movimento aqui na vila-sede distrital é muito reduzido. Nem parece que exista um projecto de 24 mil milhões de dólares a ser executado a 10 ou 15 quilómetros daqui”, afirmou.
O investigador reconheceu que a formação de algumas dezenas ou centenas de jovens não será suficiente para transformar a economia da província, sublinhando a reduzida capacidade da indústria extractiva para criar emprego.
Contudo, considera que a transferência da formação para o sul do País tem um forte peso simbólico e “não deixa de ser mais um motivo para alimentar o descontentamento no norte”.
João Feijó alertou que a insatisfação social em Cabo Delgado não se limita à insurgência armada, existindo outros focos de tensão ligados ao desemprego juvenil, ao garimpo e a grupos comunitários, que poderão transformar-se em movimentos de contestação.
Apesar das críticas, o investigador considera que os promotores do Mozambique LNG têm como prioridade proteger os interesses dos investidores. “O pacto social deles não é com a população, é com os investidores. Têm como objectivo produzir, exportar e gerar lucros”, afirmou.
Defendeu, por isso, que cabe ao Estado moçambicano, também parceiro do projecto, criar mecanismos que assegurem uma distribuição mais equilibrada dos benefícios resultantes da exploração do gás.
O Focade manifestou “preocupação e repúdio” pela decisão de realizar na Matola a primeira fase da Academia Mozambique LNG, defendendo que a formação deveria decorrer em Cabo Delgado.
O presidente do Conselho Empresarial Provincial de Cabo Delgado, Mamudo Irache, classificou a situação como uma “exclusão absoluta económica” da província, defendendo que instituições locais, como a Escola Industrial de Pemba, ou novas infra-estruturas a instalar em Palma, deveriam beneficiar dos investimentos destinados à formação profissional nos sectores do petróleo e do gás.



























































