Os jovens africanos mostram-se mais optimistas em relação ao futuro do continente, mas exigem uma democracia adaptada à realidade local, que garanta emprego e combata a corrupção, mostra um estudo da Fundação da Família Ichikowitz (FFI), divulgado nesta terça-feira (28) e citado pela Lusa.
Os jovens africanos estão mais optimistas quanto ao futuro do continente do que há dois anos, apesar de continuarem preocupados com o aumento do custo de vida e a falta de oportunidades económicas. A conclusão é do Inquérito à Juventude Africana 2026, realizado junto de 4.901 jovens, entre os 18 e os 24 anos, em 16 países, incluindo Moçambique.
Segundo o relatório, a percentagem de jovens que considera que África segue na direcção certa aumentou de 37% em 2024 para 43% este ano, com o chamado “Afro-optimismo” a ultrapassar os níveis registados antes da pandemia de covid-19.
O Quénia e a África do Sul contrariam esta tendência: sete em cada dez jovens, em ambos os países, consideram que o continente “está a seguir na direcção errada”. Em sentido inverso, o optimismo é mais elevado no Ruanda (68%), na Somália (66%) e no Burquina Faso e Gana (60%).
Apesar desta evolução, o aumento do custo de vida continua a ser a principal preocupação dos jovens africanos, superando as doenças infecciosas e a instabilidade política como o factor que mais afectou as suas vidas nos últimos cinco anos.
Pela primeira vez desde o lançamento do estudo, em 2020, os jovens apontam a criação de empregos bem remunerados e o combate à corrupção governamental como as principais prioridades para os próximos anos.
O relatório identifica também uma alteração na percepção dos jovens africanos em relação aos Estados Unidos da América (EUA).
Em 2024, 42% dos inquiridos consideravam que uma administração liderada por Joe Biden seria mais favorável aos interesses do seu país, contra 23% que preferiam Donald Trump. Hoje, porém, entre 58% e 60% afirmam estar muito ou razoavelmente optimistas quanto ao impacto da actual administração Trump, sobretudo nas áreas da capacitação da juventude, da segurança e do combate ao terrorismo.
“O relatório mostra também que existe uma forte vontade de ver reformas nas organizações multilaterais, apesar de a União Africana e as Nações Unidas (ONU) serem vistas como ‘os organismos internacionais mais influentes’ e terem ‘um impacto amplamente positivo no continente'”
Segundo o fundador e comissário do Inquérito à Juventude Africana, Ivor Ichikowitz, esta mudança “reflecte menos uma alteração na ideologia política e mais uma mudança na forma como os jovens africanos acreditam que a política global funciona actualmente”.
Numa resposta enviada à agência Lusa, Ichikowitz explicou que muitos jovens reconhecem que Trump encara as relações internacionais “sob o prisma das transacções, da influência e do interesse mútuo”, estando dispostos a aceitar essa abordagem desde que África obtenha benefícios concretos.
Ainda assim, o relatório alerta que este optimismo convive com uma crescente desconfiança em relação aos EUA.
Pouco mais de metade dos jovens (58%) acredita que os Estados Unidos poderão desrespeitar o direito internacional para garantir acesso aos recursos naturais dos seus países, sendo esta percepção mais forte na África do Sul e na Libéria (70%).
Também o encerramento da USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional), decidido por Donald Trump, divide opiniões. Quase metade dos inquiridos (46%) considera que a medida terá um impacto negativo no seu país, preocupação particularmente expressiva em Moçambique (76%), no Ruanda e no Quénia (ambos com 63%).
O relatório mostra também que existe uma forte vontade de ver reformas nas organizações multilaterais, apesar de a União Africana e as Nações Unidas (ONU) serem vistas como “os organismos internacionais mais influentes” e terem “um impacto amplamente positivo no continente”. A ONU, dizem 80% dos inquiridos, “precisa de reformas para incluir uma representação africana permanente” no Conselho de Segurança.
“Em 2024, os jovens esperavam que uma administração de Joe Biden (entre 2021 e 2025) fosse “melhor para o seu país” do que uma administração de Donald Trump (que presidiu entre 2017-21 e 2025-presente), por 42% a 23%, respectivamente”
Sobre sistemas políticos, a juventude africana expressa “uma convicção generalizada de que a liderança jovem é, neste momento, insuficiente” e mantém-se “firmemente comprometida com a democracia”, referiu. No entanto, a “democracia de estilo ocidental (…) não é bem aceite no contexto africano”, alertou.
Segundo explicou Ivor Ichikowitz, a “democracia à moda africana” que resulta da investigação atribui maior importância tanto aos resultados como aos procedimentos. “Os inquiridos associam consistentemente a boa governação à unidade nacional, à estabilidade política, a líderes que criem emprego e melhorem os serviços públicos, a par de eleições verdadeiramente livres e transparentes”, acrescentou.
Em matéria de segurança, sete em cada dez jovens dizem sentir-se seguros no seu país, mas esta questão é “tanto uma preocupação económica como física, com o desemprego e a pobreza a serem vistos como a maior ameaça à segurança da comunidade”, indicou o documento.


























































