A Universidade Eduardo Mondlane (UEM) considera que a criação de históricos digitais sobre as actividades económicas pode facilitar o acesso ao crédito e contribuir para tornar visíveis agentes que continuam fora dos registos formais da economia.
A posição foi apresentada por Jamo Macanze, director-adjunto do Centro de Informática da Universidade Eduardo Mondlane (CIU-UEM), durante o Painel 4 – “Made in Africa: Soluções Africanas para Estruturar a Economia Real”, realizado no âmbito do BFSI – Banking, Financial Services and Insurance Mozambique 2026.
Na sua intervenção, Jamo Macanze afirmou que um dos principais desafios da economia moçambicana não é a ausência de produção ou de trabalho, mas a falta de registos capazes de comprovar o percurso de produtores, comerciantes, transportadores e outros agentes económicos, sobretudo os que operam na economia informal. “O que nós vemos não é um problema de falta de produção, não é um problema de ausência de trabalho, mas é uma necessidade de digitalizar essa economia para que possa participar do próprio desenvolvimento”, afirmou.
Segundo o responsável, muitos produtores e pequenos operadores económicos exercem a sua actividade durante vários anos sem que exista informação organizada sobre o que produzem, comercializam ou movimentam financeiramente. Essa ausência de registos, explicou, torna-os invisíveis para o sistema financeiro, apesar do contributo que dão para o desenvolvimento económico.
Jamo Macanze apontou as carteiras móveis como uma das principais fontes de dados susceptíveis de serem utilizadas para construir um histórico das transacções realizadas por agricultores, comerciantes e outros agentes económicos. Referiu igualmente o caso dos transportadores, muitos dos quais exercem a actividade sem estarem registados como empresas e sem disporem de um historial que demonstre o volume de serviços prestados ao longo do tempo.
Na sua perspectiva, a implementação de sistemas de rastreamento de mercadorias pode aumentar a confiança dos clientes, permitir o acompanhamento das encomendas e, simultaneamente, criar um historial operacional dos transportadores. Esse registo poderá comprovar a actividade desenvolvida e facilitar a apresentação de informação quando estes operadores procurarem financiamento para adquirir novos meios de transporte ou expandir os seus negócios.

No sector agrícola, Jamo Macanze destacou o potencial da utilização de drones, sensores e outras tecnologias para monitorizar as plantações, recolher informação sobre a humidade do solo, optimizar os sistemas de irrigação e acompanhar as diferentes fases de crescimento das culturas. O responsável apresentou exemplos de empresas incubadas no CIU-UEM que desenvolveram soluções tecnológicas para o agro-negócio. Uma dessas empresas implementou sensores em campos de irrigação para recolher dados sobre a humidade do solo e calcular a quantidade de água necessária, cruzando essa informação com indicadores meteorológicos, como a temperatura e as condições atmosféricas.
Outra empresa recorreu a drones para monitorizar culturas, identificar sinais de stress nas plantas e apoiar a previsão de possíveis ataques de pragas. Jamo Macanze explicou que o Centro de Informática da UEM dispõe de um espaço de inovação e de uma incubadora de negócios destinados a aproximar a academia do sector produtivo. Desde 2020, passaram pela incubadora 82 startups, através de diferentes ciclos de incubação, aceleração e desenvolvimento de ideias. O director-adjunto do CIU-UEM acrescentou que a instituição está a estudar novas soluções nas áreas da logística inteligente, dos sistemas financeiros e da integração de informação proveniente de diferentes plataformas.
Entre as possibilidades apresentadas figura a utilização do histórico de pagamentos efectuados através de plataformas digitais, bem como das despesas com água, electricidade, compras e vendas, para construir um retrato mais completo da actividade financeira de cada pessoa. Segundo explicou, mesmo quando uma instituição financeira não conhece directamente o indivíduo que solicita crédito, a conjugação destes elementos pode ajudar a torná-lo visível e a reforçar a confiança no sistema financeiro.
A combinação de informação proveniente de diferentes plataformas, com recurso à inteligência artificial, poderá também permitir a criação de um score de crédito e ajudar a determinar o nível de risco associado a cada indivíduo. Jamo Macanze apontou igualmente o potencial da digitalização dos grupos de poupança informal, conhecidos como “xitique”. Na sua perspectiva, plataformas digitais poderiam permitir o registo dos membros, das contribuições e do historial de participação em diferentes grupos, criando um perfil da relação de cada participante com a poupança e a gestão do dinheiro. Advertiu, contudo, que o uso crescente de dados deve ser acompanhado por medidas de protecção, literacia digital, certificação das plataformas e auditorias regulares.
Segundo afirmou, é necessário garantir que os cidadãos compreendam que dados podem partilhar, de que forma essa informação pode ser utilizada e como os dados pessoais serão protegidos. Alertou ainda para o crescimento das fraudes cibernéticas, sobretudo nas plataformas de pagamento móvel, defendendo o reforço das medidas de segurança para aumentar a confiança dos utilizadores.
Na conclusão da sua intervenção, considerou que o futuro da economia depende da capacidade de tornar visível o cidadão do distrito ou do bairro que actualmente participa na actividade económica sem deixar um registo formal. Para esse processo, apontou tecnologias como a inteligência artificial, os centros de dados, a Internet das Coisas, os sistemas de rastreamento e a blockchain como instrumentos capazes de apoiar a digitalização e a transformação da economia real.
Sobre o evento
O Banking, Financial Services and Insurance Mozambique (BFSI) 2026 termina esta quinta-feira (23), após dois dias de debates que reuniram membros do Governo, reguladores, representantes de instituições financeiras, bancos, seguradoras, fintechs, investidores, parceiros de cooperação, empresários e especialistas. O encontro tem como objectivo a procura de soluções para acelerar a transformação digital, reforçar a inclusão financeira e promover o desenvolvimento do sistema financeiro nacional.
Texto: Felisberto Ruco



























































