A província de Gaza continua a receber moçambicanos que fogem da vaga de violência xenófoba na África do Sul, num fluxo que tem sobrecarregado as estruturas de acolhimento e exposto as fragilidades dos mecanismos oficiais de registo e assistência, informou esta quarta-feira, 15 de Julho, o jornal O País.
Segundo o órgão, enquanto a Direcção Provincial da Migração em Gaza admite não dispor de números oficiais sobre os repatriados, a Associação dos Transportadores de Gaza (ASTROGAZA) contabiliza mais de 10 mil regressados só nas últimas duas semanas, a maioria em situação de extrema vulnerabilidade.
Migração admite ausência de dados oficiais
Questionado sobre o número de cidadãos que têm chegado à província, o porta-voz dos Serviços de Migração em Gaza, Abeldo Nhanombe, reconheceu que o acompanhamento do fenómeno tem sido feito essencialmente nos postos fronteiriços, mas sem a produção de estatísticas consolidadas.
“A província de Gaza não tem nenhum dado registado de cidadãos moçambicanos repatriados. O movimento tem sido acompanhado ao nível das fronteiras de Ressano Garcia e Ponta do Ouro. Aqui, registamos apenas o movimento migratório normal, embora estejamos preparados para responder a qualquer demanda nos postos de travessia da província”, afirmou.
O jornal conta que a ausência de dados oficiais contrasta com a realidade observada no terreno, onde dezenas de famílias têm chegado diariamente, muitas vezes sem bens, sem documentos e em condições de saúde precárias.
ASTROGAZA regista mais de 10 mil chegadas
Em sentido oposto, os números avançados pela ASTROGAZA apontam para um cenário de regresso em massa. Segundo Adenaldo Mabote, representante da associação, o ritmo de entradas mantém-se elevado e as condições de chegada são preocupantes.
“O número de chegadas continua elevado. Só nestas duas últimas semanas registámos mais de 10 mil pessoas. Muitos chegam debilitados e são deixados à deriva”, relatou.
A província de Gaza não tem nenhum dado registado de cidadãos moçambicanos repatriados. O movimento tem sido acompanhado ao nível das fronteiras de Ressano Garcia e Ponta do Ouro. Aqui, registamos apenas o movimento migratório normal, embora estejamos preparados para responder a qualquer demanda nos postos de travessia da província
Abeldo Nhanombe
De acordo com a associação, a maioria dos regressados chega sem recursos financeiros, sem alimentos e sem apoio familiar, sendo frequentemente abandonados após serem transportados para o território nacional. Muitos apresentam sinais de doença e desnutrição, agravados pela falta de agasalhos para enfrentar o Inverno.
“Transportadores que operam na rota Gaza-África do Sul denunciam igualmente alegados casos de abandono de moçambicanos em território sul-africano. Algumas estão doentes, outras não têm sequer cobertores. Todas as semanas chegam mais de 20 pessoas em condições de saúde preocupantes”, relatou um operador de transporte, sob anonimato, citado pelo jornal.
“Recomeçar do zero”: o drama dos que chegam na província
Por trás dos números, há histórias de vidas desfeitas. Alberto é um dos muitos moçambicanos que regressaram recentemente a Gaza depois de 26 anos a viver na África do Sul. Chegou sem património e sem perspectivas imediatas, trazendo consigo apenas as recordações da vida que construiu naquele país.
Para trás ficaram os filhos, a esposa de nacionalidade sul-africana e um projecto de vida que julgava consolidado. “É como recomeçar do zero”, confessou, num relato que se repete entre dezenas de outros regressados.
As estatísticas apontam para uma tendência crescente de regresso de moçambicanos provenientes da África do Sul. Para muitos, porém, o retorno ao País não representa o fim do sofrimento, mas o início de uma nova batalha: reconstruir a vida do zero depois de perder quase tudo além-fronteiras.




























































