A crescente procura por soluções sustentáveis está a abrir novas oportunidades de emprego para jovens em Moçambique. Embora ainda com expressão reduzida, sectores como os das energias renováveis e da gestão de resíduos revelam grande potencial.
Num contexto em que o desemprego juvenil continua a representar um dos maiores desafios socioeconómicos de Moçambique, a economia verde começa a ganhar espaço como uma via para novas oportunidades. Associada à sustentabilidade ambiental e à inovação, esta abordagem surge como resposta às mudanças climáticas, mas também como alternativa para integrar jovens no mercado de trabalho, ainda que o seu impacto permaneça, por agora, limitado.
Um dos exemplos nesta área é a iniciativa Green Poultry Farm, pertencente a uma equipa de estudantes da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), que foi distinguida, em 2023, numa competição internacional de startups designada 928 Challenge, realizada em Macau. O projecto consistiu em desenvolver um sistema de produção de biogás a partir de excrementos de aves, uma solução que alia a redução de custos na avicultura à produção de electricidade limpa.
O projecto foi concebido por um grupo multidisciplinar de cinco jovens moçambicanos, liderados por Vasco Cossa. “Constatámos que o frango produzido em Moçambique é mais caro do que o importado. Ao analisarmos o processo, percebemos que o consumo de energia tem um peso significativo nos custos de produção”, explica o responsável à E&M.
A distinção internacional desta iniciativa evidencia uma tendência emergente: apesar das limitações estruturais da academia nacional, há um interesse que cresce entre os jovens. Para a ambientalista Regina Charumar, trata-se de “um nicho de mercado” ainda em consolidação no País. “Quando falamos de empregabilidade verde, estamos a falar de empregos virados para a preservação ambiental, envolvendo empresas e instituições” de determinados sectores. Entre eles, destaca-se a gestão de resíduos sólidos, que, segundo a especialista, tem vindo a assumir um papel relevante na absorção de jovens. “Não existem estatísticas exactas, mas, olhando para a realidade, podemos considerar que o sector de gestão de resíduos sólidos é o que mais emprega jovens neste momento.”
A cidade de Maputo concentra vários exemplos concretos desta dinâmica. Microempresas de reciclagem têm vindo a criar oportunidades de rendimento. “A Associação Moçambicana de Reciclagem (AMOR), a Recicla e a RLR são exemplos de empresas que geram empregos para as comunidades”, sublinha a ambientalista, acrescentando que este tipo de iniciativas tem um duplo impacto: melhora as condições ambientais e as sociais.
Peso ainda reduzido no mercado de trabalho
Apesar destes sinais positivos, o peso global da economia verde no mercado de trabalho moçambicano continua reduzido. O economista Egas Daniel considera que a sua contribuição é “limitada, mas não negligenciável. Grande parte da população activa está empregada na agricultura, um sector com forte dependência de recursos naturais e de elevado potencial para práticas sustentáveis. No entanto, apenas uma pequena fracção pode ser considerada efectivamente integrada na economia verde”, explica.
A expansão de sistemas solares, sobretudo em zonas rurais, “tem gerado empregos directos e indirectos, especialmente nas áreas de instalação e manutenção”, refere, apontando este segmento como uma das oportunidades mais concretas no curto prazo.
“Os empregos verdes podem contribuir para reduzir o desemprego juvenil, sobretudo em actividades de baixa e média qualificação”
economista Egas Daniel
Ainda assim, os números revelam a dimensão do desafio. Estimativas indicam que os empregos verdes representam menos de 5% do emprego total em economias africanas comparáveis, o que sugere que Moçambique se encontra numa fase ainda mais embrionária. Para Egas Daniel, este cenário demonstra que “o País detém um potencial significativo, mas carece de estrutura produtiva e institucional para o transformar em emprego formal e qualificado.”
Juventude preparada, mas enfrenta barreiras estruturais
No que diz respeito à empregabilidade juvenil, a economia verde surge como uma possibilidade, mas não como solução imediata. “Os empregos verdes podem contribuir para reduzir o desemprego juvenil, sobretudo em actividades de baixa e média qualificação”, reconhece o economista. No entanto, alerta para um entrave estrutural: “Existe um desfasamento claro entre as competências dos jovens e as exigências do mercado, o que limita a absorção de mão-de-obra. Do lado ambiental, há uma leitura mais centrada no potencial humano. Regina Charumar defende que a juventude moçambicana está preparada para responder às oportunidades existentes. “Os jovens moçambicanos estão preparados para qualquer oportunidade que surja, independentemente da área. Têm capacidade e força suficientes para desenvolver este sector.”
Ainda assim, reconhece que o crescimento da empregabilidade verde enfrenta a falta de incentivos ao empreendedorismo, a par de “elevadas taxas de juro, que dificultam o surgimento de novos negócios.” A ambientalista aponta igualmente fragilidades ao nível das políticas públicas: “Não espelham as necessidades reais e não priorizam estas alternativas de emprego para a população.”
Embora a formação específica seja uma mais-valia, Regina Charumar sublinha que não constitui um requisito absoluto. “Não é de todo necessário ter formação na área para começar. O mais importante é o interesse e o envolvimento. No entanto, quem tem formação está mais capacitado para fazer melhor” e alargar a influência dos projectos.
Investimento e políticas determinam o futuro do sector
No plano macroeconómico, a expansão da economia verde depende, em grande medida, do tipo de investimento. Para Egas Daniel, é necessário adoptar uma abordagem integrada. “É fundamental investir em infra-estruturas sustentáveis, na formação técnica e em incentivos institucionais. Sem isso, o crescimento da economia verde será fragmentado e com impacto limitado”, sustenta.
O envolvimento do sector privado, embora crescente, é ainda considerado insuficiente, observa o economista, acrescentando que a falta de acesso a financiamento e o risco regulatório continuam a limitar uma maior adesão.
Num país particularmente vulnerável aos efeitos das mudanças climáticas, a ligação entre crise ambiental e criação de emprego torna-se inevitável. Para Regina Charumar, esta realidade deveria funcionar como um catalisador.
A médio prazo, os especialistas convergem na ideia de que a economia verde pode assumir um papel mais relevante no desenvolvimento do País. Contudo, este cenário dependerá da capacidade de transformar potencial em acções concretas. Como sublinha Egas Daniel, “Moçambique enfrenta uma escolha estratégica: transformar a sustentabilidade num motor de crescimento e emprego, ou manter-se numa trajectória de desenvolvimento limitado.”
Texto Nário Sixpene • Fotografia D.R.




























































