Mais de 12 mil pessoas foram obrigadas a abandonar as suas casas em Cabo Delgado durante o mês de Junho devido à violência armada, elevando para 26 184 o número total de deslocados registados na província desde o início de 2026, segundo dados do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA).
De acordo com o relatório divulgado pela agência das Nações Unidas citado pela Lusa, 12 174 pessoas foram deslocadas em Junho, na sequência do conflito que continua a afectar o norte de Moçambique. Do total de pessoas forçadas a deixar as suas zonas de origem, 79% são mulheres e crianças, situação que aumenta as preocupações humanitárias relacionadas com separação familiar, violência baseada no género, perda de documentação e sofrimento psicossocial.
O OCHA refere que, embora os números mensais de deslocados permaneçam abaixo dos níveis registados em grande parte de 2025, o aumento verificado nos últimos dois meses demonstra a fragilidade da situação de segurança em Cabo Delgado.
Segundo a organização, os movimentos populacionais continuam a ocorrer principalmente dentro dos próprios distritos afectados pelo conflito ou para distritos vizinhos, sendo frequentes os casos de famílias obrigadas a deslocarem-se novamente após regressarem às suas zonas de origem.
O relatório indica ainda que uma parte significativa das deslocações registadas em 2026 corresponde a movimentos repetidos. Entre os casos contabilizados, 2562 pessoas foram deslocadas pela primeira vez, 7922 pela segunda vez, 657 pela terceira vez, 2769 pela quarta vez e 12 274 pessoas deslocaram-se cinco ou mais vezes, reflectindo a instabilidade prolongada vivida pelas comunidades afectadas.
A resposta humanitária em Cabo Delgado continua, entretanto, condicionada pela insuficiência de recursos financeiros. O Plano de Necessidades e Resposta Humanitária para 2026, avaliado em 534 milhões de dólares, recebeu até Junho apenas 29% do financiamento necessário, com 152 milhões de dólares mobilizados para responder às consequências do conflito e das cheias no País. A falta de financiamento está a afectar áreas consideradas prioritárias, nomeadamente educação, logística e nutrição, aumentando o risco de milhares de famílias vulneráveis ficarem sem apoio adequado para responder às necessidades básicas.
Cabo Delgado, província rica em gás natural, enfrenta uma insurgência armada desde Outubro de 2017, quando ocorreu o primeiro ataque no distrito de Mocímboa da Praia. Desde então, o conflito provocou deslocações massivas e uma crise humanitária prolongada. Dados da organização de monitoria de conflitos ACLED indicam que, entre 1 e 14 de Junho, foram registados 11 eventos violentos em Cabo Delgado, todos envolvendo grupos extremistas associados ao Estado Islâmico, causando oito mortes. Desde o início da insurgência, em 2017, a ACLED contabiliza 6632 mortos relacionados com a violência na província.



























































