O País dispõe da maior carteira de projectos de gás natural liquefeito em África, com cerca de 45 milhões de toneladas de capacidade anual proposta. A concretização deste potencial dependerá, contudo, da retoma dos grandes projectos terrestres, do financiamento e da estabilidade em Cabo Delgado.
O mercado mundial de gás natural liquefeito (GNL) entrou numa nova fase de expansão, marcada por níveis recorde de comércio, pelo aumento do investimento em novas unidades de produção e pela crescente importância do combustível para a segurança energética. Neste cenário, Moçambique aparece entre as geografias com maior potencial para integrar a próxima vaga de oferta global.
O Relatório Mundial do GNL 2026, publicado esta terça-feira, 7 de Julho, pela International Gas Union (IGU), atribui a Moçambique uma carteira de projectos com uma capacidade combinada próxima de 45 milhões de toneladas por ano, a maior entre os países africanos.
Este potencial está concentrado na bacia do Rovuma e resulta principalmente dos projectos Mozambique LNG, na Área 1, Coral Sul, Coral Norte e Rovuma LNG, na Área 4, além de possíveis expansões futuras através de novas unidades flutuantes ou terrestres.
A posição de Moçambique ganha relevância num mercado em que o GNL deixou de ser apenas uma fonte adicional de energia para assumir um papel estratégico na segurança do abastecimento, na reorganização das rotas comerciais e na redução da dependência de fornecedores individuais.
Para o País, porém, a questão central já não é apenas a dimensão das reservas existentes. O desafio consiste em transformar os recursos da bacia do Rovuma em produção regular, receitas públicas sustentáveis, emprego, competências nacionais e oportunidades para as empresas moçambicanas.

Comércio mundial de GNL atinge novo recorde
De acordo com a IGU, o comércio mundial de GNL atingiu 436,98 milhões de toneladas em 2025, mais 25,74 milhões de toneladas do que no ano anterior. O crescimento anual foi de 6,3%, o ritmo mais elevado registado desde 2022.
Durante o ano, o mercado internacional ligou 24 países exportadores a 50 mercados importadores, evidenciando a expansão geográfica e a crescente flexibilidade do comércio mundial de gás.
Os Estados Unidos da América mantiveram-se como o maior exportador mundial, com 110,7 milhões de toneladas, enquanto o Canadá e o projecto transfronteiriço da Mauritânia e Senegal passaram a integrar, pela primeira vez, o grupo de produtores de GNL.
A Europa registou o maior aumento das importações, adquirindo mais 26,1 milhões de toneladas do que em 2024. Esta evolução reflectiu a necessidade de diversificar fontes de abastecimento, compensar menores volumes fornecidos por gasoduto e reforçar a segurança energética da região.
O crescimento da oferta foi igualmente apoiado pelo aumento da produção nos Estados Unidos, Qatar, Canadá, Malásia, Angola e Nigéria.
Capacidade de produção ultrapassa 524 milhões de toneladas
A capacidade mundial de liquefacção alcançou 524,5 milhões de toneladas por ano no final de 2025, depois da entrada em funcionamento de aproximadamente 30,1 milhões de toneladas de nova capacidade nos Estados Unidos, Canadá, Mauritânia, Senegal e Rússia.
A capacidade global de regaseificação — processo através do qual o GNL transportado por navio volta ao estado gasoso — aumentou para cerca de 1.113,5 milhões de toneladas por ano, distribuídas por 50 mercados importadores.
O relatório identifica, adicionalmente, mais de 1.100 milhões de toneladas por ano de capacidade de liquefacção proposta em diferentes fases de desenvolvimento. Apenas uma parte destes projectos chegará efectivamente à produção, uma vez que a sua concretização depende de financiamento, contratos comerciais, licenciamento, competitividade dos custos e decisões finais de investimento.
Um dos indicadores mais relevantes foi a recuperação do investimento. Em 2025, projectos correspondentes a 68,4 milhões de toneladas por ano alcançaram a decisão final de investimento, o maior volume de aprovações desde 2019.
Nos últimos cinco anos, foram aprovados projectos com uma capacidade agregada de 206 milhões de toneladas anuais, antecipando uma forte expansão da oferta mundial até ao final da presente década.
Para Moçambique, esta vaga representa simultaneamente uma oportunidade e um factor de pressão. A procura por novas fontes de gás mantém-se elevada, mas os projectos moçambicanos terão de competir por financiamento, compradores e equipamentos com empreendimentos nos Estados Unidos, Qatar, Canadá, México e outros mercados emergentes.

Moçambique lidera carteira africana de novos projectos
África dispõe de cerca de 121 milhões de toneladas por ano de capacidade de GNL proposta, distribuída por projectos em países como Moçambique, Nigéria, Mauritânia, Senegal, República do Congo, Tanzânia e Guiné Equatorial.
Dentro deste conjunto, Moçambique apresenta a maior carteira, com aproximadamente 45 milhões de toneladas por ano. O volume inclui projectos operacionais, aprovados e ainda em desenvolvimento na bacia do Rovuma.
Esta capacidade não deve, contudo, ser interpretada como produção garantida. Uma parte significativa continua dependente de decisões finais de investimento, contratos de compra e venda de longo prazo, disponibilidade de financiamento, condições internacionais de mercado e segurança operacional.

Coral Norte consolida estratégia offshore
O desenvolvimento mais concreto registado recentemente foi a aprovação do Coral Norte FLNG, na Área 4 da bacia do Rovuma.
Com uma capacidade prevista de 3,6 milhões de toneladas por ano, a unidade será instalada a cerca de 55 quilómetros da costa de Cabo Delgado e deverá replicar o modelo tecnológico utilizado no Coral Sul.
Os poços submarinos estarão ligados directamente à plataforma flutuante, onde o gás será tratado, liquefeito, armazenado e transferido para navios transportadores.
O modelo offshore reduz a dependência de infra-estruturas terrestres e limita a exposição directa a alguns dos riscos de segurança existentes em Cabo Delgado. Permite igualmente aproveitar a experiência operacional acumulada pelo consórcio liderado pela Eni com o Coral Sul.
Em funcionamento desde Outubro de 2022, o Coral Sul possui uma capacidade nominal de 3,4 milhões de toneladas por ano e operou próximo da sua capacidade máxima durante 2024 e 2025.
Quando o Coral Norte iniciar a produção, a capacidade combinada das duas unidades flutuantes deverá ultrapassar sete milhões de toneladas anuais.
Grandes projectos terrestres continuam decisivos
Apesar dos avanços offshore, a transformação de Moçambique num dos principais exportadores mundiais dependerá sobretudo dos projectos terrestres Mozambique LNG e Rovuma LNG.
O Mozambique LNG, liderado pela TotalEnergies na Área 1, foi suspenso em 2021, depois do agravamento da insegurança em Cabo Delgado. O projecto prevê duas unidades de liquefacção com uma capacidade combinada próxima de 13 milhões de toneladas por ano.
O Rovuma LNG, promovido na Área 4, poderá alcançar entre 15,2 milhões e 18 milhões de toneladas anuais, dependendo da configuração final seleccionada pelos investidores. A versão actualmente em preparação deverá incorporar unidades de maior eficiência e uma estrutura de desenvolvimento diferente da proposta inicial.
A concretização destes empreendimentos aumentaria substancialmente a capacidade de exportação do País e colocaria Moçambique entre os principais produtores mundiais de GNL.
Contudo, os calendários continuam dependentes da segurança em Cabo Delgado, da confiança das instituições financeiras, da estabilidade regulatória, da aprovação dos planos de desenvolvimento e da capacidade dos promotores para controlar os custos de construção.
Mercado mais resiliente, mas sujeito a riscos geopolíticos
A IGU considera que o mercado internacional de GNL demonstrou maior capacidade de adaptação às crises do que em períodos anteriores.
O crescimento do mercado à vista, a possibilidade de redireccionar navios entre diferentes destinos e o aumento do número de países produtores permitiram responder com maior rapidez a perturbações no abastecimento.
Ainda assim, o relatório alerta para os riscos resultantes dos conflitos no Médio Oriente, das ameaças às infra-estruturas energéticas e da vulnerabilidade das principais rotas marítimas.
A procura mundial deverá permanecer robusta até pelo menos 2035, apoiada pelo crescimento populacional, urbanização, industrialização, aumento do consumo de electricidade e expansão dos centros de dados e das infra-estruturas de inteligência artificial.
O secretário-geral da IGU, Menelaos Ydreos, defende que a continuidade do investimento, a existência de políticas favoráveis e a segurança das rotas comerciais serão essenciais para assegurar a estabilidade do mercado e a disponibilidade de energia.

Converter recursos em desenvolvimento nacional
O Relatório Mundial do GNL 2026 confirma que Moçambique possui uma das mais importantes carteiras de crescimento da indústria mundial.
Mas a posição projectada no relatório permanece, em grande medida, potencial. A consolidação do País como exportador relevante dependerá da combinação entre a experiência adquirida com o Coral Sul, a execução do Coral Norte e a retoma dos grandes projectos terrestres.
Dependerá igualmente da capacidade de assegurar que a expansão da indústria se traduza em receitas públicas transparentes, fornecimento de gás ao mercado interno, formação de trabalhadores, oportunidades para fornecedores nacionais e desenvolvimento económico nas regiões afectadas pelos projectos.
Num mercado mundial cada vez mais competitivo, possuir reservas abundantes constitui apenas o ponto de partida. A diferença será determinada pela capacidade de executar os investimentos, cumprir calendários, garantir estabilidade e integrar a economia nacional na cadeia de valor do GNL.
Consulte o Relatório Mundial do GNL 2026 e a respectiva página oficial da International Gas Union:
https://www.igu.org/press-releases/world-lng-report-2026



























































