Moçambique reúne os ingredientes necessários para se afirmar como um dos principais produtores de minerais críticos em África, desde que continue a criar condições para transformar o seu extraordinário potencial geológico em investimento e desenvolvimento económico. São declarações à E&M do CEO da Altona, empresa que se prepara para implementar o maior projecto de terras raras no País.
O projecto Monte Muambe esta desenvolvido pela Monte Muambe Mining Limitada, uma empresa Moçambicana apoiado pelo investimento da Altona Rare Earths, uma empresa de pesquisa e desenvolvimento de minerais britânica.
O projecto avança rapidamente num momento em que a procura global por terras raras se intensifica. Localizado na província de Tete, o projecto esta na fase dos estudos avançados e representa uma das mais promissoras apostas de Moçambique na exploração de minerais críticos, posicionando o País como um potencial actor relevante neste mercado emergente. Com investimentos já realizados e boas perspectivas de expansão, o projecto Monte Muambe ilustra tanto as oportunidades, quanto as dificuldades enfrentadas por isso tipo de projecto.
Num cenário global marcado por grande competitividade, o sucesso deste projecto e de outros projectos semelhantes poderá servir como indicador da capacidade de Moçambique em transformar o seu potencial mineral em desenvolvimento económico sustentável, segundo o CEO da Altona, Cedric Simonet.
Recentemente, os Estados Unidos anunciaram apoio ao projecto Monte Muambe no valor de 1,9 milhão de dólares (depois de a Altona investir cerca de 4 milhões na prospecção entre 2021 e 2025), que pode ser interpretado como uma necessidade de se afirmarem na exploração das terras raras, dominada pela China. Que resultados pode trazer o apoio dos EUA para a competitividade do vosso projecto?
É preciso compreender que as terras raras são compostas por 15 elementos diferentes, ao contrário dos outros recursos, como o ouro, que se explora de forma exclusiva. O processo de extrair e separar os 15 elementos das rochas é complexo. Un projecto como Monte Muambe requer investimentos altos bem como o desenvolvimento de novas tecnologias. A administração norte-americana pretende apoiar o desenvolvimento destas tecnologias, mas também para permitir o acesso futuro aos recursos.
“O mundo precisa de desenvolver cadeias alternativas de fornecimento de terras raras, que são essenciais para as novas tecnologias… Fora da China, esta é uma indústria completamente nova”
Os chineses começaram a desenvolver a indústria das terras raras há mais de 40 anos e estão muito avançados. Agora, o mundo inteiro deve trabalhar para desenvolver a sua própria indústria. Isso deve envolver cooperação entre países que possuem os recursos naturais e países que têm os mercados para os produtos finais.
A Altona investiu, até agora, quase 4 milhões de dólares no projecto e continua a investir. Os Estados Unidos oferecem um apoio centrado na metodologia e engenharia de separação das terras raras, um aspecto importante na fase actual. Mas o projecto requer mais investimentos e quando entrar em produção estaremos a falar de mais de 200 milhões de dólares.
Num contexto em que a China domina a cadeia de valor das terras raras, em que medida é vantajoso construir uma alternativa fora da esfera chinesa, como parece ser o caso do Monte Muambe?
A China investiu para construir uma indústria de terras raras enquanto o resto do mundo, podemos dizer, dormia. Isso criou uma situação de quási-monopólio. No contexto geopolítico actual, o fornecimento em terras raras e productos de terras raras se tornou uma arma importante nas guerras económicas globais. Ao momento, as cadeias de valor das terras raras são polarizadas e alinhadas a geopolítica mundial. Mas acredito que no futuro veremos mais integração entre as cadeias de valor chineses e as novas cadeias de valor do resto do mundo.
Como é que a Altona olha para o mercado moçambicano das terras raras em termos de competitividade global, a avaliar pelas reservas e, eventualmente, pela qualidade destes minerais?
Uma questão muito importante para os países africanos ricos em recursos minerais de qualidade, como Moçambique, é acrescentar valor para alargar os benefícios económicos que podem reflectir-se na qualidade de vida. Por isso, pretendemos adicionar o máximo de valor possível aqui, em Moçambique. Os estudos iniciais do projecto Monte Muambe prevem um processo em três etapas: a extracção do minério, uma primeira fase de tratamento para produzir um concentrado de minerais de terras raras e uma segunda fase chamada hidro metalurgia para extrair as terras raras do concentrado e produzir um outro produto mais purificado que se chama carbonato misto de terras raras. No âmbito dos estudos avançados estamos a avaliar também a viabilidade potencial de fazer uma separação parcial do neodímio e do praseodímio em Moçambique.

Mas além disso, outras fases de transformação são improváveis de acontecer em Moçambique, simplesmente porque essas fases devem acontecer perto dos mercados de consumo. Por exemplo, produzir ímanes permanentes em Moçambique seria muito difícil porque está muito longe dos mercados que os consomem. Uma fábrica de carros elétricos que utilize ímanes não vai querer armazenar o produto: vai querer receber ímanes semanalmente a partir da fábrica.
Todas as etapas da cadeia de valor que citou e que a Altona prevê para Moçambique têm um prazo de concretização?
Ainda estamos a avaliar as melhores opções para o desenvolvimento do projecto. Queremos entrar em produção o mais cedo possível, mas também queremos acrescentar o máximo de valor ao produto no País, e isso requer mais tempo para estudos.
Que factores podem acelerar ou travar a dinâmica do projecto?
Moçambique tem um enquadramento jurídico adequado para desenvolver a indústria mineira, mas como em muitos mercados emergentes, existem oportunidades para continuar a simplificar procedimentos administrativos e aumentar a eficiência do processo. A aceleração de determinados processos administrativos poderia beneficiar simultaneamente o Governo, os investidores e as comunidades. Empresas mineiras já enfrentem muitos desafios – os aspectos técnicos dos projectos, as flutuações dos preços das mercadorias e dos custos de produção, as flutuações dos mercados de financiamento. O Governo, na sua parte, deve descomplicar os processos administrativos. O papel principal do Governo, na minha opinião deve ser de facilitar investimento e de fiscalizar.
Pode dar exemplos?
Uma exemplo típico é a dificuldade de conseguir uma quitação fiscal. O processo é muito demorado, frequentemente chega a levar semanas. E essa quitação fiscal nunca é geral: vem com uma menção que diz que só pode ser utilizada para uma determinada questão isolada. Vou fazer uma comparação: no Quénia quem precisa de uma quitação fiscal obtém-na na Internet. Não precisa de se deslocar a nenhuma instituição, nem de falar com ninguém. Faz se o pedido online no sistema da autoridade tributária do país e, se o contribuinte estiver em conformidade, uma hora depois recebe a quitação. Naquele país, qualquer pessoa pode verificar a autenticidade do documento da autoridade tributária através de um código QR e tem uma validade de seis meses. O Quénia é um exemplo interessante de digitalização administrativa e acredito que existem oportunidades para implementar soluções semelhantes em Moçambique à medida que os serviços públicos continuam a modernizar-se.
Porque é que só agora é que o projecto Monte Muambe está a ganhar tracção, após mais de uma década de conhecimento geológico?
Monte Muambe era, anteriormente, conhecido como um jazigo de fluorite. A fluorite é também um mineral crítico, mas com um mercado muito maduro e muitas aplicações. Em 2010, uma empresa que estava a fazer pesquisa de fluorite no Monte Muambe descobriu terras raras. Só que, naquela altura, o tema da transição energética ainda não era tão importante quanto hoje e o mercado das terras raras estava muito limitado.

O mercado começou a desenvolver-se entre 2019 e 2020, na altura da covid-19, quando muitos projectos de terras raras apareceram em todo o mundo.
Quando começámos a trabalhar no Monte Muambe, em 2021, eu tinha uma lista de outros 15 a 20 projectos de terras raras para comparar. Agora, em todo o mundo, existem mais de 400 projectos e todos apareceram porque as políticas ambientais mudaram globalmente na direcção da transição energética, que defende a adopção de energia verde, que por sua vez requer terras raras.
Que papel é que Moçambique poderá desempenhar dentro de dez anos na cadeia global de minerais críticos?
Primeiro: Moçambique já é um produtor muito relevante de minerais críticos, principalmente de grafite: a mina de Balama contém um dos maiores recursos de grafite natural do mundo. Acredito que Moçambique tem um potencial geológico enorme, mas esse potencial, até agora, não está desenvolvido ao nível que merece.
Vou dar o exemplo do lítio, utilizado na produção de todo o tipo de baterias, para automóveis, telemóveis, computadores e sistemas de armazenamento de energia solar. Moçambique tem muito potencial, mas este potencial ainda não foi desenvolvido porque a pesquisa não foi feita. Zimbabué, em comparação, está muito avançado no desenvolvimento dos seus recursos de lítio, até um ponto que agora está a considerar acrescentar valor ao lítio internamente. Na minha opinião, o Governo Moçambicano devia facilitar o trabalho das empresas de pesquisa e desenvolvimento mineral, sejam empresas grandes ou pequenas, internacionais ou moçambicanas, para promover uma indústria forte.
Se foram devidamente exploradas e a partir da experiência de outros países que exploram estes recursos, até onde podem as terras raras projectar a economia moçambicana?
Se existir uma indústria mineira forte, muitas outras actividades económicas tenderão a desenvolver-se à sua volta para a apoiar. Surgirão sectores ligados aos serviços, fornecimento de equipamentos, logística, entre outros. Todo este ecossistema contribui para sustentar e dinamizar o Produto Interno Bruto (PIB). Isso aconteceu em países com Zimbabué ou a África do Sul, está a acontecer na Tanzânia e pode acontecer em Moçambique.
“Moçambique tem um potencial geológico e mineiro extraordinário. A continuação dos esforços de modernização administrativa poderá acelerar o desenvolvimento deste potencial”
O projecto Monte Muambe localiza-se em Tete. Há sinais de terras raras noutras regiões do País?
Sim. O tipo de rocha que temos no Monte Muambe chama-se carbonatite e existem outras ocorrências semelhantes em Moçambique. Cada ocorrência é diferente, tem as suas próprias características, os seus próprios desafios. Vale a pena outras empresas fazerem pesquisas, procurarem novos jazigos, avaliá-los e fazer os estudos necessários.
Que passos deveriam ser dados, a curto prazo, para reduzir os entraves administrativos e, ao mesmo tempo, promover uma cooperação regional eficaz na valorização dos recursos minerais?
Há uma forma de nacionalismo de recursos que está a aparecer em todo o mundo, especialmente em África, e isso e muito compreensível. Mas creio que os governos devem considerar dois aspectos importantes da nova realidade da indústria mineira.
Primeiro, a rentabilidade de uma mina depende dos seus custos de produção e do preço de venda dos seus produtos. Não importa se se produzem terras raras ou pedra de construção. O facto de uma mercadoria ser mencionada nas notícias não garante viabilidade. Ignorar esta realidade e sobrecarregar projetos minerais críticos com custos adicionais não promoverá o desenvolvimento, pelo contrário. É importante que as políticas públicas encontrem um equilíbrio entre a captura de valor para o país e a manutenção da competitividade necessária para atrair investimento.
Segundo, mas eu creio que a chave do desenvolvimento sustentável dos minerais críticos na África não é o nacionalismo, mas sim regionalismo. Governos africanos devem cooperar. Por exemplo, o Zimbabué tem lítio, mas para adicionar valor a este lítio, deve utilizar um outro mineral chamado de fluorite. Moçambique tem fluorite. Aqui há espaço para uma cooperação regional que ajudaria ambos os países a adicionarem valor com ganhos mútuos.
Texto Celso Chambisso • Fotografia D.R




























































