O ambientalista Rui Silva transforma muros degradados de Maputo em arte urbana. Promove educação ambiental: mudança de comportamento, preservação da biodiversidade e dos ecossistemas.
Maputo está a assistir a uma transformação de espaços urbanos onde muros degradados passam a assumir uma nova função: educar, sensibilizar e suscitar reflexão. Através da arte urbana, o ambientalista Rui Silva tem convertido paredes esquecidas em veículos de consciencialização ambiental e social.
“O objectivo é utilizar a arte como instrumento de mudança de mentalidades”, num país onde os problemas ambientais continuam a exigir respostas urgentes. Esta abordagem revela-se particularmente relevante num contexto urbano como o de Maputo, onde o espaço público constitui um ponto de encontro privilegiado. Os murais são o pano de fundo do quotidiano.
O trabalho desenvolvido por Rui Silva remonta a 2018, com um mural dedicado aos oceanos. Desde então, a iniciativa tem vindo a expandir-se, abrangendo diferentes bairros e províncias. Ao longo deste percurso, foram sendo integrados novos temas e abordagens. A continuidade do projecto permitiu também consolidar parcerias e aperfeiçoar metodologias, tornando as intervenções cada vez mais estruturadas
e relevantes.
Segundo o ambientalista, a repetição e a consistência das mensagens são fundamentais para produzir mudanças. “Acredito que este trabalho tem ajudado, ainda que gradualmente, a alterar a forma de pensar e de agir” da população.
Os murais funcionam como lembretes permanentes de acções individuais e colectivas porque “a transformação ambiental não depende apenas de políticas públicas”
Rui Silva
Mudanças climáticas e comportamento humano no centro da mensagem
Entre as obras mais recentes, destaca-se o mural do Instituto Nacional de Meteorologia (INAM), sobre mudanças climáticas. A composição visual divide-se em dois universos contrastantes: um, mais sombrio, ilustra as consequências negativas das alterações climáticas; o outro, vibrante e colorido, apresenta soluções e boas práticas ambientais. A dualidade presente no mural procura criar um impacto visual imediato, levando o observador a confrontar-se com as escolhas colectivas e individuais que determinam o futuro do planeta. Questões como o uso de energias renováveis, a reciclagem e a gestão de resíduos são apresentadas de forma clara e apelativa.
Principal desafio ambiental: mudar comportamentos
Para Rui Silva, o principal desafio ambiental em Moçambique reside precisamente na mudança de comportamento. “Todos nós somos poluidores, e todos nós temos responsabilidade na transformação dessa realidade”, defende, reforçando a necessidade de uma consciência colectiva mais activa.
Outra vertente importante do projecto centra-se na valorização da biodiversidade, com especial atenção à fauna marinha e terrestre. Vários murais retratam espécies emblemáticas de Moçambique, incluindo os chamados “gigantes marinhos”, como a baleia, o golfinho, o tubarão-baleia e a tartaruga-marinha. Estas representações não são meramente ilustrativas. Funcionam como um alerta para os perigos que estas espécies enfrentam, sobretudo devido à poluição dos oceanos. O plástico, em particular, é identificado como uma das principais ameaças, sendo frequentemente ingerido por animais marinhos que o confundem com alimento.
Rui Silva chama a atenção para a necessidade de tornar visíveis estas consequências. Na sua opinião, situações como o encalhe de baleias poderiam ser aproveitadas para sensibilizar a população, mostrando de forma concreta os impactos do lixo no organismo dos animais.

Identidade cultural e valorização da mulher moçambicana
Para além das questões ambientais, os murais também abordam dimensões culturais e sociais do quotidiano. Um exemplo disso é a obra situada na Avenida Julius Nyerere, que presta homenagem à mulher moçambicana. Intitulado “A Nossa Mãe Natureza e a Natureza da Nossa Mãe”, o mural estabelece uma ligação simbólica entre a figura feminina e o meio ambiente. As mulheres representadas são envoltas em capulanas cujos padrões evocam elementos naturais, reforçando a ideia de interdependência entre o ser humano e a natureza. Cada figura incorpora valores como o trabalho, a família, a fé, a alegria e a emancipação, reflectindo a diversidade e a força da mulher no contexto moçambicano. “Esta dimensão cultural alarga o alcance das iniciativas, demonstrando que a arte urbana pode ser um espaço de convergência entre diferentes temáticas, sem perder coerência”, revela o ambientalista.
Impacto nas comunidades e transformação social
A receptividade das comunidades tem sido positiva, com benefícios que vão além do aspecto visual. Um dos casos mais significativos ocorreu na zona do aeroporto, onde o Mural da Biodiversidade contribuiu para transformar o ambiente do bairro: foram realizadas intervenções nas habitações circundantes, incluindo reboco e pintura, o que resultou numa melhoria do bem-estar dos moradores. Segundo Rui Silva, esta transformação teve efeitos directos na auto-estima da população. “Hoje, os espaços estão limpos, cuidados e as pessoas demonstram orgulho do local onde vivem”, relata. O envolvimento da comunidade revelou-se fundamental para o sucesso da iniciativa, criando um sentimento de pertença e responsabilidade partilhada. O ambientalista acredita que este tipo de intervenção “pode contribuir, a médio prazo, para a redução de problemas sociais, incluindo a criminalidade, ao promover ambientes mais organizados e valorizados.”

Um apelo à mudança de comportamento
No centro de todas estas iniciativas está uma mensagem clara: a necessidade urgente de mudar comportamentos. Rui Silva defende que “a transformação ambiental não depende apenas de políticas públicas ou de grandes projectos, mas também de acções individuais e colectivas no quotidiano”. Os murais, nesse sentido, funcionam como lembretes permanentes dessa responsabilidade. Ao integrar a arte no espaço público, o projecto cria oportunidades constantes de reflexão, convidando os cidadãos a repensarem as suas práticas. “Peço apenas que as pessoas olhem para os murais e deixem que os mesmos ajudem a mudar o nosso comportamento, sobretudo no que diz respeito ao descarte inadequado de resíduos”, conclui o ambientalista. Num contexto em que os problemas ambientais se intensificam, Maputo encontra, nos seus próprios muros, uma forma criativa e eficaz de educar para o futuro.
Texto Nário Sixpene • Fotografia D.R
























































