O economista-chefe do Millennium bim, Oldemiro Belchior, defendeu esta terça-feira (3) a criação de um Fundo de Capitalização de Empresas como solução para ultrapassar um dos principais obstáculos enfrentados pelas micro, pequenas e médias empresas (PME) moçambicanas: a insuficiência de capital próprio para aceder ao financiamento.
A proposta foi apresentada durante a 3.ª edição do Coffee Break Liderança B2B, no âmbito do painel “Da Estratégia à Acção: Como Líderes Transformam Ecossistemas em Oportunidades de Negócio”, onde o economista analisou os desafios do financiamento empresarial e apontou caminhos para dinamizar o investimento privado no País.
Segundo Belchior, o debate sobre o acesso ao crédito não deve limitar-se à relação entre empresários e banca, uma vez que existem outros mecanismos de financiamento ainda pouco explorados pelo sector privado. “A banca não é a única fonte de financiamento da economia. Existem outros mecanismos e outros provedores de recursos financeiros que as empresas devem conhecer e utilizar”, afirmou.
Entre as alternativas apontadas, o economista destacou a Bolsa de Valores de Moçambique, os fundos de investimento, os fundos de pensões e as linhas de financiamento disponibilizadas por instituições multilaterais. “Precisamos de mudar. Precisamos de explorar outros mecanismos de financiamento além da banca”, defendeu.
Belchior considerou que muitas empresas continuam excessivamente dependentes do crédito bancário devido ao desconhecimento dos instrumentos financeiros existentes no mercado. “Há pouco conhecimento em relação aos produtos e serviços financeiros disponíveis. Programas de educação financeira e empresarial são uma peça-chave para viabilizar o acesso ao financiamento”, observou.
O responsável destacou igualmente a importância de os empresários compreenderem os requisitos exigidos pelas instituições financeiras antes de submeterem pedidos de crédito. “Quando vou a um banco, tenho de saber quais são os requisitos, que tipo de informação é solicitada e assegurar transparência na disponibilização dessa informação”, explicou.
Durante a sua intervenção, o economista-chefe do Millennium bim sublinhou que muitas candidaturas a financiamento são recusadas não apenas por falta de garantias, mas também devido à reduzida capacidade financeira das próprias empresas. “A maioria das pequenas e médias empresas tem baixa autonomia financeira. Isto significa que não têm capital próprio suficiente para participar nos investimentos que pretendem realizar”, afirmou.
Segundo Belchior, esta realidade limita a capacidade das empresas para cumprir uma das exigências mais comuns da banca: a participação financeira do promotor no projecto. “A banca não financia 100% do investimento. Quando analisa um projecto pergunta sempre qual é a contribuição do empresário. E é precisamente aí que muitas empresas enfrentam dificuldades”, explicou.
Na sua visão, mesmo quando um projecto apresenta viabilidade económica, contratos garantidos e acesso a instrumentos de mitigação de risco, a falta de capital próprio continua a ser um factor determinante para a rejeição de operações de crédito. “Pode existir um plano de negócios rentável, viável e bancável. Pode existir um contrato garantido e até cobertura do Fundo de Garantia Mútua. Mas se não houver capital próprio, a operação pode não avançar”, alertou.
Perante este cenário, Belchior considera que a criação de um Fundo de Capitalização de Empresas permitiria suprir uma das maiores fragilidades do tecido empresarial nacional. “Sem um Fundo de Capitalização de Empresas dificilmente vamos resolver o problema do acesso ao financiamento”, defendeu.
“O futuro Banco de Desenvolvimento e outras instituições que estão a ser pensadas para o mercado devem incorporar instrumentos de financiamento de capital próprio para existir uma partilha de risco com os bancos”
Oldemiro Belchior – economista-chefe do Millennium bim
O economista explicou que este mecanismo poderia funcionar como uma fonte de financiamento de capital próprio para empresas com projectos sustentáveis, permitindo uma partilha de risco mais equilibrada entre promotores, investidores e instituições financeiras. “O futuro Banco de Desenvolvimento e outras instituições que estão a ser pensadas para o mercado devem incorporar instrumentos de financiamento de capital próprio para existir uma partilha de risco com os bancos”, afirmou.
Além da criação deste fundo, Belchior apelou a uma maior aproximação das empresas ao mercado de capitais e aos fundos de pensões, argumentando que existem elevados níveis de liquidez disponíveis que poderiam ser canalizados para o financiamento do sector produtivo. “Há vários fundos de pensões com muita liquidez disponível, mas não existem projectos suficientemente preparados para absorver esses recursos”, observou.
O responsável sublinhou ainda que os empresários devem desenvolver uma cultura de criação de valor e preparar melhor os seus projectos para atrair investidores. “Uma empresa deve ser criadora de valor. Não apenas para os seus proprietários, mas também para a economia e para a sociedade”, afirmou.
Para Belchior, o fortalecimento da capitalização empresarial será fundamental para aumentar a competitividade das PME, estimular o investimento privado e criar condições para um crescimento económico mais sustentável e inclusivo.
As declarações foram feitas durante o painel “Da Estratégia à Acção: Como Líderes Transformam Ecossistemas em Oportunidades de Negócio”, que contou com as participações de Sandra Cuiamba, consultora em Gestão de Projectos, e Alves Lampeão Júnior, CEO da GASEPCS. Integrado na 3.ª edição do Coffee Break Liderança B2B, o debate reuniu empresários, gestores, empreendedores e representantes de instituições públicas e privadas para discutir soluções destinadas a fortalecer o ambiente de negócios, melhorar o acesso ao financiamento e criar novas oportunidades para o desenvolvimento do sector privado moçambicano.
Texto: Felisberto Ruco



















































