A presidente da Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade (FDC), Graça Machel, defendeu que o verdadeiro motor da sustentabilidade está no conhecimento e nas dinâmicas internas das comunidades, e não apenas no financiamento externo, durante um evento dedicado à inovação comunitária e acções filantrópicas para o desenvolvimento local, que teve lugar na Universidade Politécnica, em Maputo.
Falando perante representantes de organizações da sociedade civil, parceiros internacionais e jovens estudantes, a antiga ministra da Educação (1975) sublinhou que muitas intervenções continuam a partir de uma lógica assistencialista, ignorando que as comunidades já possuem sistemas próprios de organização, saberes e mecanismos de sobrevivência.
“As comunidades existiam antes de nós e continuarão a existir depois de nós”, afirmou, defendendo uma mudança de paradigma: “É necessário trabalhar com as comunidades e não para as comunidades.”
Segundo a responsável, a sustentabilidade deve ser entendida como a capacidade das próprias comunidades de definirem o seu futuro, com base nos seus valores, estruturas sociais e conhecimentos acumulados. Neste sentido, alertou para a necessidade de estudar profundamente os contextos locais antes de qualquer intervenção, reconhecendo tanto os saberes existentes como a diversidade de lideranças — desde líderes tradicionais até mulheres e jovens, muitas vezes excluídos dos processos de decisão.
A activista social destacou ainda a importância de reforçar a participação das mulheres e dos jovens nas lideranças comunitárias, considerando-os actores essenciais para soluções inclusivas e duradouras.
O evento contou com a apresentação de duas iniciativas que ilustram abordagens práticas de inovação comunitária: a plataforma JUNTOS!MZ e o programa Work4Progress Moçambique
Outro ponto central da sua intervenção foi a desmistificação da filantropia como sinónimo de financiamento. Para a presidente da FDC, o foco deve deslocar-se para a valorização do conhecimento produzido pelas pessoas.
“O dinheiro facilita, mas pode faltar. O saber fica sempre”, sublinhou.
A responsável defendeu igualmente uma maior articulação entre organizações, evitando intervenções fragmentadas e promovendo a complementaridade de esforços como forma de garantir impacto sustentável.
Plataformas reforçam inovação social e emprego
O evento contou também com a apresentação de duas iniciativas que ilustram abordagens práticas de inovação comunitária: a plataforma JUNTOS!MZ e o programa Work4Progress Moçambique.
Apresentada por Lina Inglês, a plataforma JUNTOS!MZ reúne actualmente 26 organizações da sociedade civil e surgiu com o objectivo de fortalecer a capacidade destas instituições para intervirem de forma mais eficaz nas comunidades.

Entre as soluções desenvolvidas, destaca-se o modelo Planet Learning, que combina formação digital e sessões presenciais, permitindo reduzir custos e aumentar o alcance. A metodologia já beneficiou mais de um milhão de pessoas em várias províncias do País.
A plataforma aposta também na abordagem Human-Centered Design, promovendo a co-criação de soluções com as comunidades. Desta estratégia resultaram várias iniciativas de inovação comunitária, com impacto directo em milhares de beneficiários.
Já a plataforma Work4Progress, apresentada por Rosânia da Silva, é uma iniciativa promovida pela Fundação “la Caixa” e implementada em vários países, incluindo Moçambique.
Focada na criação de emprego sustentável para mulheres e jovens, a iniciativa baseia-se em quatro etapas: escuta, co-criação, prototipagem e aceleração. Em Moçambique, o programa é implementado através de quatro redes que actuam em diferentes regiões, promovendo inovação social em áreas como energias renováveis, empreendedorismo e cadeias de valor agrícola.
Globalmente, o programa já beneficiou mais de 250 mil pessoas, gerou dezenas de milhares de empregos e apoiou milhares de negócios, com destaque para projectos com impacto positivo no clima.
Texto: Ana Mangana





















































