O primeiro grande sinal de reconhecimento surgiu em 2025. Aos 25 anos, Fernando Cavele viu uma pesquisa sua na área da ciência de materiais a ser seleccionada entre vários candidatos internacionais para uma conferência na Índia — uma conquista que não só validou o seu percurso, como abriu portas para um feito inédito: tornar-se o primeiro moçambicano com o título de “astronauta análogo”.
“Acreditaram em mim, convidaram-me e financiaram toda a participação. Fui um dos mais novos naquela bancada”, recorda o jovem arquitecto, na sua residência, em Maputo, que também funciona como oficina criativa.
Foi precisamente nessa jornada internacional que, segundo a agência Lusa, Fernando participou numa missão análoga, vivendo durante sete dias em condições que simulam o ambiente espacial, com isolamento rigoroso e exigência científica. A experiência valeu-lhe o título de astronauta análogo, um marco pessoal e nacional.
Um astronauta análogo realiza simulações em terra que reproduzem os desafios de missões espaciais reais, como as que poderiam ocorrer em Marte ou na Lua. Estas missões servem para testar tecnologias, procedimentos e o comportamento humano em ambientes extremos.
“Foi um bocadinho difícil”, admite Fernando, referindo as barreiras linguísticas, os fusos horários e a necessidade de gerir recursos de forma equilibrada. Ainda assim, destaca o espírito de equipa como fundamental: “As pessoas que estavam comigo colaboraram bastante para que eu pudesse sentir-me quase em casa.”
“Acreditaram em mim, convidaram-me e financiaram toda a participação. Fui um dos mais novos naquela bancada”
Fernando Cavele
Depois da missão, a conquista levou-o a investigar a dimensão do feito. “Tive de fazer muitas pesquisas para ver se antes de mim ninguém chegou lá e constatei que fui o primeiro”, afirma.
Do interesse pela astronomia ao cruzamento com a arquitectura
De acordo com a Lusa, o percurso de Fernando começou em 2019, quando, ainda no início do curso de arquitectura, despertou para a astronomia. A descoberta surgiu tanto da curiosidade pessoal como da influência de um professor de Física que abordava a relação entre o universo e os espaços habitáveis.
“A partir daí, comecei a aprofundar os conhecimentos sobre astronomia, mas tentando ligá-los à arquitectura”, explica.
No seu quarto, esboços de projectos arquitectónicos convivem com plantas e partituras musicais, reflectindo uma abordagem multidisciplinar onde ciência, arte e imaginação se cruzam.
Inspirado por referências internacionais como Elon Musk e instituições como a NASA (Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço, na sigla inglesa), Fernando também destaca o papel de mentores locais, como Edson Jackson, fundador do primeiro clube de astronomia de Moçambique.

“Almejo chegar à NASA como arquitecto espacial”, diz.
No entanto, o caminho não tem sido fácil. O jovem relata ter enfrentado recusas, entraves institucionais e dificuldades no acesso à informação. “Passei por muitas turbulências e negações ao longo do caminho”, conta.
Entre os maiores obstáculos está a limitação financeira, que continua a condicionar o desenvolvimento dos seus projectos.
Determinado a transformar o sonho em realidade, Fernando está actualmente a angariar fundos para frequentar um mestrado em Arquitectura Avançada no Instituto de Arquitectura Avançada da Catalunha, em Espanha.
Paralelamente, criou uma startup focada no desenvolvimento de tecnologias ligadas à exploração espacial em Moçambique.
“Estamos a trabalhar em soluções capazes de responder às exigências da exploração espacial e de integrar o País nesse ecossistema global”, explica.
Para Fernando, a origem não deve ser vista como um limite. A sua mensagem dirige-se à juventude moçambicana: “É preciso ultrapassar as dificuldades e acreditar que, com visão e esforço, os sonhos podem tornar-se realidade. Não há garantias de nada, mas é possível”, conclui.






















































