A Geórgia não está onde se espera. No mapa, fica entre o Mar Negro e o Cáucaso, a fazer fronteira com a Turquia, a Arménia, o Azerbaijão e a Rússia, numa posição geográfica que, durante séculos, a colocou no cruzamento de todos os impérios e que hoje se lê como uma síntese cultural sem paralelo.
Tbilisi, a capital, é o resultado visível dessa acumulação: igrejas ortodoxas do século V partilham a silhueta da cidade com mesquitas otomanas, sinagogas, uma catedral católica e um museu de arte moderna que ficaria bem em Berlim. A contradição não incomoda. Faz parte do carácter de um lugar que aprendeu a conter multidões.
A arquitectura da cidade velha é o primeiro argumento. As casas do bairro de Abanotubani, com as suas varandas de madeira esculpida que se inclinam sobre ruas empedradas com séculos de uso, têm uma fotogenia que não precisa de ser arranjada. A iluminação ao fim do dia, quando o sol bate nas pedras escuras e nas madeiras pintadas, faz o que a iluminação de fim do dia faz nas cidades antigas com carácter suficiente para a suportar. O rio Mtkvari divide a cidade com uma clareza que facilita a orientação, e as duas margens têm personalidades distintas que vale a pena percorrer separadamente.
O vinho é o argumento mais antigo do país, literalmente. Arqueólogos confirmaram evidências de produção vínica na Geórgia com 8000 anos, datadas de cerca de 6000 a.C., descobertas nos sítios de Gadachrili Gora e Shulaveris Gora e publicadas nas PNAS em 2017 por uma equipa internacional liderada pelo antropólogo Patrick McGovern da Universidade da Pensilvânia. Tal coloca a Geórgia na origem de uma das práticas culturais mais determinantes da civilização mediterrânica. As ânforas de barro enterradas no solo, chamadas qvevri, são o método de fermentação que o movimento mundial dos vinhos naturais redescobriu com um entusiasmo que os georgianos recebem com alguma paciência: para eles, este sempre foi o método correcto. Um copo de Rkatsiteli laranja, produzido numa adega familiar na região de Kakheti, a leste de Tbilisi, não tem paralelo em qualquer vocabulário convencional de prova.


A gastronomia segue a mesma lógica de excesso generoso. O khinkali, empanadilha de caldo e carne que se come com as mãos segundo uma técnica específica que os georgianos explicam com a paciência de quem já explicou muitas vezes a estrangeiros, é o teste de integração informal que todos os visitantes passam mal na primeira tentativa.
O khachapuri adjaruli, pão de barco aberto com queijo, ovo e manteiga derretidos no centro, é o pequeno-almoço que não se esquece e que o resto do dia trata de justificar. A hospitalidade é estrutural, antiga, e não é performance turística: o tamada, mestre de cerimónias que dirige os brindes numa refeição formal, existe há séculos e a mesa é o lugar onde a Geórgia mais se revela.
Kazbegi, a menos de três horas de carro de Tbilisi, oferece montanhas com a Igreja da Santíssima Trindade no topo de um outeiro rodeado por picos com neve permanente.
A estrada Militar Georgiana que liga a capital ao norte atravessa paisagens que mudam a cada quilómetro com uma velocidade que desorienta: planícies, gargantas, florestas e glaciares, num percurso que vale a viagem por si mesmo independentemente do destino. As torres medievais dos Svans, no noroeste, são uma das construções defensivas mais singulares da Europa e ficam numa região que em época baixa recebe poucos visitantes e mantém uma vida local que não foi reorganizada para consumo externo.


Fonte: Sapo























































