O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) alertou esta sexta-feira (17) para a gravidade da crise humanitária resultante das cheias que afectaram o País nos últimos meses, sublinhando a necessidade urgente de mobilizar 34 milhões de dólares nos próximos seis meses para assegurar assistência essencial a 450 000 pessoas, das quais cerca de metade são crianças.
De acordo com a Lusa, Omar Khan, responsável do projecto de Água, Saneamento e Higiene da Unicef em Moçambique, descreveu um cenário de forte degradação das condições básicas de vida nas zonas afectadas. “As cheias tiveram um impacto devastador no acesso à água potável, saneamento e higiene. Sistemas de abastecimento de água foram submersos e contaminados, com equipamentos eléctricos danificados, poços foram contaminados por águas superficiais que transportam matéria fecal e outros contaminantes, latrinas colapsaram ou transbordaram, e infra-estruturas de saneamento básico foram destruídas”, afirmou.
De acordo com o responsável, a destruição destas infra-estruturas obrigou muitas famílias a recorrer a fontes de água inseguras, aumentando significativamente o risco de propagação de doenças, sobretudo entre as crianças, que apresentam maior vulnerabilidade biológica. Entre as principais ameaças sanitárias destacam-se a diarreia, ainda uma das principais causas de mortalidade infantil, a cólera, a malária, infecções cutâneas e doenças respiratórias associadas às precárias condições de abrigo.
A situação é particularmente crítica nos centros de acomodação, onde milhares de deslocados enfrentam forte pressão sobre os sistemas de água e saneamento. “Nos centros de acomodação, onde se concentram milhares de pessoas, a pressão sobre as infra-estruturas de água e saneamento é enorme, e qualquer falha transforma-se rapidamente num risco sanitário colectivo”, advertiu Omar Khan, enfatizando a importância da prevenção através do acesso a água segura, saneamento adequado e práticas de higiene.
A resposta humanitária, segundo a Unicef, permanece insuficiente face à dimensão das necessidades, sobretudo nas províncias de Gaza, Maputo, Sofala, Zambézia e Inhambane. Ainda assim, a organização tem vindo a apoiar as comunidades afectadas através da distribuição de produtos para tratamento de água, fornecimento de água potável e instalação de latrinas de emergência, com o objectivo de travar a contaminação ambiental.
Sem o financiamento solicitado, a agência das Nações Unidas admite que será forçada a estabelecer prioridades na assistência, num contexto em que as necessidades são generalizadas. “Sem esses recursos, teremos de fazer escolhas difíceis sobre quem é prioritário, quando todos são prioritários”, alertou Omar Khan.
Por seu turno, Cláudio Julaia, especialista em emergências da Unicef, destacou que a crise afecta mais de um milhão de pessoas, sendo metade crianças, configurando uma situação humanitária de grande escala com impactos profundos no tecido social. “Moçambique atravessa agora uma crise humanitária de grande escala com um rosto profundamente infantil”, afirmou, acrescentando que, num país cuja idade média é de 17 anos, “uma crise desta magnitude compromete o futuro de uma geração inteira”.
Os efeitos prolongados da crise poderão traduzir-se em perdas significativas ao nível da educação, agravamento da subnutrição e retrocessos nos indicadores de sobrevivência infantil. Antes mesmo das cheias, mais de uma em cada três crianças com menos de 5 anos já sofria de atraso de crescimento, enquanto cerca de uma em cada seis enfrentava desnutrição aguda, um quadro que tende a agravar-se com a actual emergência.
Paralelamente, a Unicef Portugal lançou um apelo à mobilização de fundos para apoiar as crianças e famílias afectadas pelas cheias em Moçambique, numa tentativa de reforçar a resposta internacional.
Segundo dados do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres, desde o início da época chuvosa, em Outubro, foram registadas 311 mortes e cerca de 1,07 milhões de pessoas afectadas. O balanço inclui ainda 24 229 casas parcialmente destruídas, 11 996 totalmente destruídas e 209 219 inundadas, além de danos em 304 unidades sanitárias, 109 locais de culto e 764 escolas.
























































