A Biofund leva-nos numa viagem até à Escola Primária de Chingonguene, Inhambane. É um exemplo de como financiar grandes mudanças sociais, instalando painéis solares para garantir electricidade e água, promovendo a conservação da natureza.
Cada pequena iniciativa pode ser a chave para alcançar grandes objectivos, sobretudo quando se olha para a replicação desses projectos locais. A parceria entre a Fundação para Conservação da Biodiversidade (Biofund) e o Banco Comercial e de Investimentos (BCI) financia vários projectos pelo País. Um exemplo: a instalação de um sistema de energia solar e de purificação de água na Escola Primária de Chingonguene, em Vilanculos (Inhambane). Esta acção veio melhorar o acesso a serviços básicos, reforçando a educação, a saúde e a conservação ambiental numa comunidade rural com acesso limitado a electricidade e água potável. Uma rede de iniciativas como esta pode ter um grande impacto nacional.
Em entrevista à E&M, a Biofund explica como funciona a parceria com o BCI para financiar projectos como este, espalhados pelo País e que têm como objectivo responder simultaneamente a desafios ambientais, sociais e económicos. “Do ponto de vista ambiental, procurámos reduzir a pressão sobre os recursos naturais, nomeadamente o uso de lenha e de geradores a combustível”, fonte de poluição, explicou uma fonte oficial da organização. A solução utiliza exclusivamente energia renovável, contribuindo para reduzir a dependência de fontes fósseis e, consequentemente, para diminuir o impacto ambiental das actividades humanas na região. As limitações que ali persistem não podem ser desculpa para ignorar a adesão aos princípios ESG (Environmental, Social and Governance; Ambiente, Social e Governação).
Comunidade com acesso limitado a serviços básicos
A comunidade de Chingonguene é composta maioritariamente por famílias que dependem da pesca artesanal e da agricultura de subsistência em solos pobres, condicionadas pela escassez de acesso a energia eléctrica e água potável. O que poderá mudar com o novo sistema instalado? De acordo com a Biofund, o impacto do projecto será avaliado através de vários indicadores ambientais, sociais e financeiros. Entre os principais parâmetros a analisar estão o número de beneficiários com acesso a energia e água potável, a melhoria das condições de ensino e as oportunidades de criação de rendimento associadas ao sistema.
“Estamos igualmente atentos à redução dos custos energéticos para a comunidade e ao impacto positivo que o acesso a estes serviços pode ter na saúde, educação e bem-estar da população”, indicou a organização. Este tipo de iniciativas tende a produzir efeitos em cascata e em diferentes áreas.
Educação e tecnologia ao serviço da conservação
Um dos principais benefícios da introdução de energia eléctrica é a melhoria das condições de aprendizagem. A electricidade permite prolongar o horário escolar e possibilita o uso de equipamentos como computadores e projectores, alargando as ferramentas pedagógicas disponíveis. Além disso, a introdução de ferramentas digitais poderá facilitar o acesso a conteúdos educativos relacionados com a conservação da biodiversidade e a gestão sustentável dos recursos naturais – temáticas que estão no centro da acção da Biofund. Segundo a fundação, esta componente educativa é considerada essencial, uma vez que a comunidade vive nas proximidades do Santuário Bravio de Vilanculos, uma área de conservação que exige uma relação equilibrada entre a protecção dos ecossistemas e o desenvolvimento das comunidades.
Um dos instrumentos utilizados é o cartão bancário “Bio”: uma percentagem do valor da anuidade e das transacções realizadas é destinada à Biofund
“As ferramentas digitais ajudam a integrar materiais pedagógicos actualizados e reforçam a sensibilização sobre a importância da conservação da biodiversidade”, referiu a organização.
O acesso à energia poderá também permitir a realização de aulas nocturnas para adultos, reforçando os níveis de alfabetização e promovendo maior participação comunitária nas actividades de conservação.
Parceria para financiamento sustentável
A implementação do projecto foi possível graças ao apoio financeiro do BCI, no âmbito das suas iniciativas de responsabilidade social corporativa. De acordo com a Biofund, a parceria entre as duas instituições pretende fortalecer os mecanismos de apoio sustentável para projectos de conservação em Moçambique.
Um dos instrumentos utilizados é o cartão bancário “Bio”: uma percentagem do valor da anuidade e das transacções realizadas é destinada à Biofund, sem custos adicionais para os clientes do banco. Segundo a organização, os fundos arrecadados através deste mecanismo são utilizados para financiar projectos seleccionados com base em critérios transparentes e alinhados com metas globais de conservação da biodiversidade.
Esta abordagem procura promover a integração das questões ambientais nas práticas financeiras e incentivar uma maior participação da sociedade na protecção dos ecossistemas naturais.
Desafios logísticos e potencial de replicação
Apesar dos benefícios, a implementação de soluções tecnológicas em áreas remotas enfrenta desafios significativos. A aquisição de equipamento, por exemplo, envolve processos de importação, enquanto o transporte até comunidades isoladas pode exigir operações logísticas, comuns e fáceis noutras paragens do planeta, mas que ainda são complexas em Moçambique.
No caso da instalação em Vilanculos, foi necessário recorrer a transporte marítimo e à mobilização de equipamentos pesados para assegurar a chegada e montagem do sistema.
Mesmo assim, a Biofund considera que o modelo apresenta um forte potencial de replicação noutras áreas de conservação do País. “O sistema é modular, autónomo e adaptável a diferentes contextos, o que facilita a sua implementação em zonas remotas”, sublinhou a organização. Para que a expansão seja possível, será necessário garantir financiamento adequado e investir na capacitação das comunidades locais para assegurar a manutenção e operação dos sistemas a longo prazo.
Modelo comunitário para garantir sustentabilidade
Outro elemento considerado essencial para o sucesso do projecto é a sustentabilidade financeira. Para isso, está prevista a implementação de um sistema de cobrança, para que os utilizadores paguem pelo consumo de energia e água. A receita será reinvestida na manutenção do sistema, incluindo a substituição de filtros e de lâmpadas ultravioleta utilizadas no processo de purificação da água. A gestão financeira será apoiada por um sistema digital de registo de transacções, que permitirá documentar os pagamentos efectuados pelos utilizadores, preferencialmente através de serviços de dinheiro electrónico e carteiras móveis. De acordo com a Biofund, este mecanismo permitirá assegurar maior transparência na gestão dos recursos e garantir que os fundos sejam utilizados exclusivamente para o funcionamento e manutenção do sistema. Além disso, a gestão do projecto contará com a participação directa da comunidade local, através de uma cooperativa comunitária.
Novas oportunidades para a comunidade
O projecto poderá gerar novas oportunidades económicas e educativas para a comunidade. Entre as iniciativas previstas estão a criação de uma horta e o cultivo de moringa, que poderão ser integradas em programas de alimentação escolar e também gerar rendimento. Segundo a Biofund, estas actividades complementares poderão reforçar a segurança alimentar, promover práticas agrícolas sustentáveis e contribuir para o desenvolvimento local.
Texto Nário Sixpene • Fotografia D.R.





















































