Nos seus primeiros 100 dias como Country Managing Partner da Deloitte em Moçambique, Nuno Saraiva Pinto, defende uma agenda assente em proximidade, robustez técnica, talento local e inovação.
Nesta conversa com a revista E&M, traça uma leitura pragmática do momento económico do País, fala do papel dos grandes projectos na reconfiguração do ambiente de negócios e explica por que razão a tecnologia só cria verdadeiro valor quando assente em processos bem desenhados, procedimentos claros e dados de qualidade.
Como olha para o momento que Moçambique atravessa e para os caminhos de desenvolvimento que se estão a desenhar para os próximos anos?
Moçambique é um País extraordinário, com um potencial muito significativo. Tem escala, recursos naturais, uma longa costa, capacidade de crescimento e uma população que pode constituir uma base importante de mão-de-obra para sustentar a economia. Mas esse potencial só se converte verdadeiramente em desenvolvimento se o País conseguir atrair capital de forma consistente e em escala.
A atracção de investimento depende muito da percepção de estabilidade e de previsibilidade. O investidor valoriza contextos claros, confiança institucional e um enquadramento que reduza incertezas. Naturalmente, Moçambique enfrenta hoje constrangimentos macroeconómicos relevantes, desde a escassez de divisas à pressão sobre a balança de pagamentos, passando pelo desafio de criar empregos para uma população jovem que entra todos os anos no mercado de trabalho. Mas, ao mesmo tempo, há razões muito fortes para olhar para o futuro com optimismo.
Os grandes projectos, em particular na área do gás, podem representar um ponto de viragem. Não apenas pelo impacto directo que terão mais à frente, mas sobretudo pelo efeito de arrastamento que podem gerar no emprego, nas cadeias de valor, na confiança dos agentes económicos e no ambiente geral de negócios. Esse impulso pode estender-se a sectores como energia, agricultura, turismo, logística e infra-estruturas.
Um dos temas centrais em Moçambique continua a ser o da atracção de investimento. Onde identifica hoje os maiores bloqueios e as maiores oportunidades?
Há sectores com potencial muito evidente. A agricultura é um deles. Emprega uma parcela muito significativa da população, mas continua a apresentar níveis de produtividade relativamente baixos. Com mais investimento, mais mecanização, melhor uso de fertilizantes e maior organização, pode ter um impacto muito mais expressivo na economia.
“A tecnologia tem de ser uma alavanca de eficiência. Não substitui a necessidade de processos optimizados, dados de qualidade e arquitectura bem estruturada”
O turismo é outro exemplo claro. O País tem activos naturais únicos, desde a costa às praias, passando pelo enquadramento Paísagístico. Mas precisa de melhorar factores como a percepção de segurança, a conectividade aérea, a qualidade das estradas e a capacitação da mão-de-obra. Em muitos casos, o potencial existe; o que falta é criar as condições para que esse potencial se transforme em negócio.
E depois há um aspecto muito importante: muitos investidores não abandonam a ideia de entrar em Moçambique. O que fazem, frequentemente, é esperar pelo momento certo. Quando grandes grupos avançam com investimentos de grande escala, isso funciona como um sinal ao mercado. É quase uma validação externa da oportunidade. E isso pode dar confiança adicional a outros investidores para tomarem as suas decisões.
Como é que a Deloitte se posiciona perante esse novo ciclo de investimento que o País procura construir?
Temos procurado posicionar a Deloitte como um parceiro capaz de acompanhar o investidor em todas as fases do ciclo de investimento. Desde a análise inicial da oportunidade até à implementação, passando por auditoria, fiscalidade, contabilidade, risco, estratégia, estruturação e tecnologia. Essa visão integrada é importante porque muitos investidores precisam, mais do que nunca, de um parceiro que os ajude a navegar o contexto local com clareza e confiança.
A nossa ambição é funcionar como um verdadeiro one stop shop, no sentido de conseguirmos apoiar os clientes de forma transversal, ajudando-os a perceber o mercado, a enquadrar o investimento e a executar com segurança. Essa capacidade torna-se ainda mais relevante num contexto em que Moçambique pode estar à entrada de um novo ciclo económico e de investimento.
A tecnologia está a mudar profundamente o sector da consultoria. Como é que essa transformação já se reflecte hoje na operação da Deloitte em Moçambique?
A tecnologia já está incorporada em praticamente todas as áreas da nossa actividade. Na auditoria, por exemplo, tem um peso crescente na execução dos projectos.
Nas áreas de compliance fiscal e contabilístico, também permite tornar processos mais eficientes, mais robustos e mais rigorosos. E, naturalmente, na consultoria, assume um papel ainda mais central. Mas há um ponto que considero essencial: a tecnologia não é uma solução mágica.
Há sectores, como a Banca, que, pelo grau de maturidade tecnológica, estão mais preparados para incorporar IA nos seus processos
Antes de introduzir tecnologia, é preciso garantir que os processos fazem sentido e que os dados têm qualidade. Só a partir daí é que a tecnologia funciona verdadeiramente como alavanca de produtividade, eficiência e rigor. É essa a lógica que também levamos aos clientes: primeiro optimizar, depois escalar com tecnologia.
A Deloitte em Moçambique beneficia ainda da sua integração no cluster lusófono da Deloitte, que é uma plataforma muito robusta em matéria de tecnologia. Isso permite-nos trazer para o mercado local competências, oferta e capacidade de execução que reforçam muito o que conseguimos disponibilizar aos clientes em Moçambique.
Quando se fala de IA, que é hoje um tema incontornável, que leitura faz do grau de maturidade do mercado moçambicano?
Moçambique tem apetência por tecnologia. As organizações têm, os profissionais têm e os quadros jovens que recrutamos também demonstram essa abertura. Mas a conversa sobre inteligência artificial precisa de ser feita com realismo e com método.
Para se tirar partido de tecnologias como a IA, por exemplo, é indispensável ter dados fiáveis, processos consistentes e uma arquitectura que faça sentido face aos objectivos do negócio.

Por isso, mais do que perguntar que sector está mais avançado, importa perceber em que fase de maturidade está cada organização. Há sectores, como a Banca, que já têm uma base tecnológica muito sólida e podem usar IA em áreas como fraude ou controlo de risco, ainda que isso nem sempre seja visível para o cliente final.
Mas também há áreas como a saúde, onde determinadas soluções podem ter um impacto transformador, mesmo partindo de bases diferentes.
No fim, a tecnologia vai impactar todos os sectores. Em alguns casos, esse impacto será muito visível; noutros, será mais silencioso, mas não menos importante. O essencial é garantir que a sua introdução responde a necessidades concretas e gera valor efectivo.
Está a completar os primeiros 100 dias à frente da Deloitte em Moçambique. Que balanço faz deste arranque e quais são as prioridades estratégicas para os próximos anos?

Se tivesse de resumir estes primeiros 100 dias numa palavra, escolheria “proximidade”. Proximidade às equipas, para alinhar visão, mobilizar pessoas e construir uma estratégia comum. E proximidade aos clientes, para lhes transmitir com clareza a nossa visão para o futuro da Deloitte em Moçambique.
Essa visão assenta em quatro áreas fortes. A primeira é a auditoria, com foco em rigor e credibilização das organizações. A segunda é a fiscalidade, combinando compliance com uma componente de advisory capaz de apoiar novos investimentos. A terceira está ligada a investimentos, finanças empresariais, risco e estratégia. E a quarta é a consultoria, onde a tecnologia assume um peso muito relevante.
Queremos ter uma Deloitte robusta e equilibrada nestas quatro frentes. Isso é decisivo porque os projectos de hoje são cada vez menos estanques. Muitos exigem equipas multidisciplinares, em que diferentes competências trabalham em conjunto para entregar uma solução integrada, desenhada à medida da necessidade do cliente.
Essa estratégia passa também por uma aposta clara no talento local?
Sem dúvida. Essa é uma prioridade estratégica. Queremos continuar a recrutar localmente, formar quadros moçambicanos e construir uma base de talento cada vez mais forte dentro da firma. Temos vindo a implementar programas de formação que não se limitam à componente técnica. Incluem também ética — que, para nós, é absolutamente inegociável — e soft skills, como liderança, comunicação e gestão de reuniões.
Além disso, quando os profissionais atingem determinados marcos na carreira, passam a ter acesso a plataformas internacionais de formação da Deloitte, nomeadamente à Deloitte University EMEA, em França. Isso reforça competências, acelera percursos e cria uma exposição muito valiosa.
A combinação entre aposta local e ligação internacional será uma parte essencial do nosso crescimento em
Moçambique.
Texto Pedro Cativelos • Fotografia Mariano Silva


















































