A necessidade de reforçar a soberania digital e acelerar a adopção de soluções de computação em nuvem com residência de dados no País marcou as discussões do terceiro dia da sétima edição do Mozambique Fintech Week, esta quarta-feira (25), em Maputo, onde especialistas do sector tecnológico e financeiro defenderam que, apesar dos avanços, Moçambique ainda enfrenta desafios estruturais para consolidar um ecossistema digital robusto e menos dependente do exterior.
Em representação do Instituto Nacional de Tecnologias de Informação e Comunicação (INTIC), Laice Mucavele destacou que a criação de uma cloud nacional deve ser vista como uma necessidade estratégica, e não apenas uma opção política. Segundo explicou, esta abordagem permitirá maior controlo sobre os dados, reforço da segurança e redução da dependência de infra-estruturas estrangeiras. Ainda assim, reconheceu que existem limitações, como a escassez de recursos técnicos especializados, fragilidades na capacidade institucional e desafios no fornecimento estável de energia para suportar centros de dados.
Mucavele acrescentou que o Governo está a trabalhar para alinhar a legislação com as exigências do mercado, envolvendo o sector privado e o Banco de Moçambique, com o objectivo de criar um ambiente mais favorável ao desenvolvimento de startups e serviços inovadores.
Na mesma linha, Rui Guimarães, representante do sector bancário, considerou que, embora a cloud nacional seja importante, a dependência de provedores internacionais ainda é inevitável, sobretudo para tecnologias avançadas como a Inteligência Artificial e big data. Segundo explicou, este tipo de soluções exige infra-estruturas altamente especializadas, como GPUs de elevado custo, que podem atingir entre 20 mil e 50 mil dólares por unidade, tornando inviável a sua implementação local em larga escala.
Já Yasser Nazir, em representação do ecossistema de startups, destacou que o crescimento das empresas digitais traz consigo um aumento significativo dos custos de infra-estrutura. “Numa fase inicial, os custos são baixos, mas à medida que o número de utilizadores cresce, há necessidade de mais servidores, energia e capacidade técnica”, explicou, defendendo a computação em nuvem como a alternativa mais eficiente.
O interveniente sublinhou ainda que plataformas como a Amazon Web Services oferecem serviços essenciais, como segurança, gestão de identidade e balanceamento de carga, além de melhorarem o desempenho das aplicações através da redução da latência.
O Governo está a trabalhar para alinhar a legislação com as exigências do mercado, envolvendo o sector privado e o Banco de Moçambique, com o objectivo de criar um ambiente mais favorável ao desenvolvimento de startups e serviços inovadores.
Por seu turno, o engenheiro Cameron Smith, director da Bubble Cloud Mozambique, explicou que muitas organizações ainda operam com infra-estruturas próprias, mas acabam por enfrentar desafios relacionados com custos operacionais, segurança física e manutenção. Neste contexto, a migração para a cloud surge como solução natural, permitindo maior escalabilidade e eficiência.
No entanto, alertou que o uso de serviços internacionais levanta preocupações legais, sobretudo no que diz respeito à jurisdição dos dados. Como muitos desses provedores estão sediados nos Estados Unidos, podem estar sujeitos a leis que obrigam à partilha de informação com autoridades, mesmo quando os dados estão armazenados fora daquele país.
O debate ocorre num momento em que o quadro regulatório nacional está em evolução. Novas leis aprovadas pelo INTIC passaram a abranger todas as entidades que operam ou utilizam serviços de centros de dados e cloud, reforçando a necessidade de conformidade e criando novas oportunidades para o desenvolvimento do sector.
O Mozambique Fintech Week’26 decorre entre 23 e 26 de Março, com os dois primeiros dias realizados online e os dois últimos de forma presencial, sob o tema “Do Digital ao Inteligente: Inovação, IA e Novos Ecossistemas Financeiros”. Organizado pela Associação das Fintechs de Moçambique, o evento reúne, pela sétima vez, especialistas do sector financeiro para debater o futuro dos pagamentos digitais.























































