A evolução recente da economia moçambicana revela um paradoxo macroeconómico que exige uma análise cuidadosa: apesar da queda consistente da inflação e da adopção explícita de uma política monetária expansionista por parte do banco central, a actividade económica permanece estagnada. Esta situação revela um quadro em que a estabilidade nominal, longe de reflectir dinamismo produtivo, apresenta-se antes como o sintoma visível de um enfraquecimento da procura interna, da fraca capacidade de transmissão da política monetária e de limitações estruturais profundas na economia real.
Os dados revelam uma divergência entre a evolução dos indicadores nominais e o desempenho real da economia. Embora a inflação média trimestral tenha diminuído de 3,74% para 3,22% em 2024, mantendo-se moderada em 2025 com a média anual a atingir 4,37%, e voltando aos níveis de 3,04% em Janeiro de 2026 (em harmonia com reduções na taxa MIMO, de 16,50% para 12,75% em 2024, e de 12,25% para 9,50% em 2025, e mais recentemente para 9,25% no início de 2026, igualmente por reduções na prime rate de 23,50% em 2024 para 15,70% em 2026), o Produto Interno Bruto (PIB) não respondeu de forma correspondente.
Após um crescimento notável de +5,53% no III Trimestre de 2024, a economia contraiu -5,73% no trimestre seguinte e manteve valores negativos ao longo de 2025 (-3,92%, -0,94% e -0,85%, no primeiro, segundo e terceiro trimestres, respectivamente). Esta dinâmica indica que a queda da inflação não reflecte ganho produtivo, mas sim uma redução da procura agregada, associada à retracção do consumo e do investimento.
A análise das razões subjacentes a esta aparente ineficácia da política monetária encontra eco nos argumentos desenvolvidos pelo economista Carlos Nuno Castel-Branco, na publicação IDeIAS (166P): “Porque é que as intervenções de política monetária com sinais expansionistas não têm sido eficazes?”
“A política monetária, isoladamente, não consegue superar constrangimentos estruturais nem alterar incentivos profundamente enraizados no modelo de acumulação”
Existem várias razões técnicas para este fenómeno: por um lado, o sistema financeiro, altamente concentrado e conservador, direcciona a maior parte dos recursos para os títulos do Estado, limitando o crédito produtivo e impedindo que a redução das taxas de juro financie efectivamente as empresas, sobretudo as PME, que constituem o núcleo do tecido económico nacional. Por outro lado, a forte dependência de importações restringe a capacidade de resposta da oferta interna, fazendo com que incrementos de liquidez se convertam em maior procura externa em vez de dinamização produtiva.
O que aconteceu nos EUA e Ruanda
A experiência internacional demonstra que a eficácia da política monetária depende da sua articulação com medidas fiscais e estruturais. Nos Estados Unidos, após a crise de 2008, a Reserva Federal (Fed) reduziu drasticamente as taxas de juro e recorreu a instrumentos não convencionais, como a expansão do seu balanço através de programas de compra de activos. Contudo, a retoma só ganhou tracção devido à coordenação com políticas fiscais expansionistas, recapitalização do sistema financeiro e apoio directo ao rendimento das famílias. De modo semelhante, o caso do Ruanda, no início dos anos 2000, evidenciou que a superação da estagnação exige mais do que estímulos monetários: combina-se prudência macroeconómica com diversificação produtiva, investimento público estratégico e melhorias no ambiente de negócios.
Em ambos os contextos, a estabilização nominal foi acompanhada por reformas estruturais, permitindo que a política monetária actuasse como suporte e não como motor isolado da recuperação económica.
Em Moçambique, pelo contrário, a estabilização nominal parece ocorrer num contexto de estagnação real. Se a inflação baixa resulta essencialmente de compressão da procura, então estamos perante um equilíbrio de baixa actividade económica. A manutenção de défices financiados por dívida interna, a preferência dos bancos por activos financeiros de menor risco e a fragilidade da base produtiva limitam a eficácia das medidas expansionistas.
A política monetária, isoladamente, não consegue superar constrangimentos estruturais nem alterar incentivos profundamente enraizados no modelo de acumulação. Pelo contrário, pode reflectir a ausência de dinamismo na economia real. Como tal, sem uma coordenação efectiva entre política fiscal e monetária, sem reformas estruturais que diversifiquem a base produtiva e sem uma reorientação do sistema para o financiamento do investimento produtivo, a economia poderá continuar presa a um cenário de estabilidade nominal com estagnação real. A inflação em queda pode ser uma boa notícia; mas, quando acompanhada de crescimento negativo, é também um alerta de que a economia permanece, essencialmente, inerte.




















































