Radicado em Portugal desde a Guerra Civil, Delmar Maia Gonçalves construiu uma vida entre dois mundos, mantendo sempre a sua forte ligação a Moçambique. Escritor, poeta e activista cultural, tornou-se uma referência para Moçambicanos, tanto dentro como fora do País. Delmar nasceu em Quelimane, na província da Zambézia, no centro de Moçambique, a 5 de Julho de 1969.
A infância na cidade costeira teve um impacto profundo na sua identidade. “Quelimane é o centro crucial da minha identidade moçambicana. Foi lá que tudo começou, onde fiz grandes amigos e companheiros para a vida”, recorda.
O escritor frequentou a escola 25 de Setembro e jogou futebol em clubes locais, como o Palmeiras de Quelimane. “Essas experiências, os meus amigos, a família com quem morei, tudo isso me moldou e ainda guardo essas memórias com carinho”, revela à E&M.
A Guerra Civil entre 1977-92 também deixou marcas profundas na família de Delmar. Vários tios, primos e o seu próprio irmão foram recrutados à força: “O meu irmão acabou por morrer depois de voltar de lá.”
Muitos membros da família não receberam cuidados de saúde adequados”, lamenta Gonçalves. Mesmo quando jovem, Delmar acompanhava a vida política da época. “Eu ia aos comícios de Samora Machel. Era tudo muito novo para nós, mas isso começou a moldar a minha visão sobre democracia e justiça”, diz o escritor.

A mudança para Portugal e a adaptação à diáspora
A decisão de se mudar para Portugal teve como objectivo evitar o serviço militar obrigatório. “O meu pai decidiu mandar-nos para longe de Moçambique para que pudéssemos estudar. A África do Sul não era uma opção por causa do apartheid”, explica.
Nos primeiros anos, a adaptação foi difícil. “Eu queria voltar para Moçambique a qualquer custo. Foram precisos pelo menos três ou quatro anos de persistência até que a minha juventude e a minha vida em Portugal criassem raízes”, admite Gonçalves.
Em Portugal, Delmar continuou a sua carreira como líder estudantil e professor, além de se envolver com o Movimento de Encontro de Jovens da comunidade Shalom, uma iniciativa católica de evangelização da juventude.
“Quero construir pontes entre aqueles que estão em Moçambique e aqueles que vivem no estrangeiro. Somos todos Moçambicanos”
Recentemente, fundou o Movimento Juvenil Moçambicano para a Intervenção Cultural, que envolve jovens de Moçambique comprometidos com a promoção, resgate e fortalecimento da identidade cultural.
O escritor também se tornou presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora, com o objectivo de unir os autores nacionais, dentro e fora do País.
“Quero construir pontes entre aqueles que estão em Moçambique e aqueles que vivem no estrangeiro. Somos todos Moçambicanos”, declara Delmar Maia Gonçalves.
Reconhecimento, projectos e legado literário
A obra literária de Delmar inclui títulos como “Moçambique Novo, o Enigma”, “Moçambiquizando” e “Entre Dois Rios, com Margens”. Os temas giram em torno da identidade, diáspora, miscigenação e utopia.
Apesar de já ter recebido reconhecimento em eventos como a Feira Internacional do Livro de Quelimane (2024) e pela Associação de Escritores de Moçambique (AEMO, 2021), Delmar acredita que muitos escritores moçambicanos continuam na sombra. O autor acredita que muitos escritores moçambicanos continuam na sombra. “O livro precisa de circular, não só em Moçambique, mas também no estrangeiro”, argumenta. Para o mesmo, a circulação deve incluir traduções para outras línguas: “Não é só em português. Precisamos que os autores moçambicanos sejam conhecidos para além do mundo lusófono”, acrescenta.

Entre os seus projectos actuais, Delmar está a trabalhar em três obras individuais – ensaio, teatro e poesia – e numa trilogia colectiva sob o título “Constellatio” que reúne autores de Moçambique, Portugal, Brasil, Angola e Guiné-Bissau.
O chamamento das raízes
O escritor começou a visitar Moçambique com mais frequência para se manter a par da realidade do País e manter contacto com a família espalhada por todo o território. “É importante manter-me informado e próximo da minha terra natal, das minhas raízes.”
E este aspecto está ligado à obra escrita. O autor acredita que a literatura é uma ferramenta para unir e valorizar a identidade moçambicana. “Todos os Moçambicanos devem ser conhecidos e reconhecidos, não só em Moçambique, mas em todo o mundo”, enfatiza.
O legado de Delmar é também um exemplo de perseverança. Apesar das dificuldades na diáspora, conseguiu criar redes de escritores e projectos literários que fortalecem a cultura moçambicana no estrangeiro.
Ao longo da sua carreira, já foi distinguido com o Prémio de Literatura Juvenil Ferreira de Castro (1987), o Prémio de Literatura África Hoje, o Prémio Kanimambo da Casa de Moçambique (2008) e o Prémio Lusofonia (2017). Mais do que títulos e reconhecimento, o escritor vê a literatura como uma missão: aproximar os Moçambicanos, dignificar o País e fortalecer a identidade daqueles que vivem no estrangeiro. “Acreditem nos vossos sonhos e lutem por eles. Ninguém vai fazê-lo por vocês. Não desistam, porque desistir agora é proibido”, apela Delmar aos jovens escritores.
Texto Germano Ndlovo • Fotografia D.R.

























































