A decisão da consultora Oxford Economics de colocar Moçambique no topo do índice de risco africano resulta de uma conjugação de factores macroeconómicos, financeiros e políticos que se agravaram de forma simultânea nos últimos dois anos.
No mais recente relatório da consultora, Moçambique surge como a economia mais arriscada entre cerca de 25 países africanos analisados, com uma pontuação superior a 75 pontos no índice de risco.
A classificação reflecte um conjunto de vulnerabilidades que se tornaram mais evidentes: desaceleração do crescimento económico, pressão sobre a moeda, riscos associados à dívida pública e um ambiente político ainda marcado por incerteza.
Mais do que um choque isolado, a avaliação resulta da acumulação de vários factores que, combinados, aumentam a percepção de fragilidade macroeconómica.
Crescimento próximo da estagnação
Um dos factores centrais identificados pela Oxford Economics é a forte revisão em baixa das previsões de crescimento económico.
A consultora estima agora que a economia moçambicana cresça apenas cerca de 0,3% em 2026, um valor significativamente inferior às estimativas anteriores, que apontavam para uma expansão próxima de 2,5%.
Esta desaceleração está associada a perturbações em sectores-chave da economia.
Entre os factores identificados estão interrupções temporárias na actividade de projectos estratégicos do sector extractivo — nomeadamente na produção de gás natural e na indústria do alumínio — que têm peso relevante nas exportações e nas receitas fiscais do País.
Ao mesmo tempo, o contexto de consolidação fiscal e de menor dinamismo do investimento limita o crescimento económico no curto prazo.
A combinação destes factores reduz a capacidade de geração de receitas públicas e aumenta a percepção de vulnerabilidade da economia.

Pressão cambial crescente
Outro elemento central na avaliação da consultora é a fragilidade cambial.
Segundo a Oxford Economics, o metical encontra-se sobrevalorizado num contexto de escassez de reservas internacionais, o que aumenta a probabilidade de um ajustamento cambial.
A consultora antecipa que a moeda nacional possa sofrer uma desvalorização entre 20% e 25% ao longo de 2026, num processo de correcção macroeconómica destinado a reduzir desequilíbrios externos.
A pressão sobre a moeda resulta de um problema estrutural: a economia moçambicana continua fortemente dependente da entrada de divisas provenientes de exportações de recursos naturais, investimento externo e apoio financeiro internacional.
Quando estes fluxos diminuem ou se tornam mais incertos, a procura por moeda estrangeira aumenta, pressionando o mercado cambial.
Neste contexto, analistas consideram provável que um eventual novo programa com o Fundo Monetário Internacional inclua medidas de ajustamento cambial e fiscal.

Dívida pública aumenta percepção de risco
A sustentabilidade da dívida pública constitui outro factor determinante na avaliação da consultora.
Moçambique surge entre os países africanos com maior probabilidade de enfrentar uma reestruturação da dívida ou dificuldades de pagamento, devido ao peso do endividamento e à fragilidade das contas externas.
O risco torna-se mais evidente num cenário de crescimento económico reduzido e de pressão cambial.
Quando a moeda desvaloriza, o serviço da dívida externa — normalmente denominada em dólares ou euros — torna-se automaticamente mais oneroso.
Ao mesmo tempo, o aumento do prémio de risco exigido pelos mercados financeiros pode encarecer o acesso a financiamento internacional.
Incerteza política mantém pressão sobre o risco-país
Para além dos factores económicos, a consultora destaca também riscos associados ao ambiente político e institucional.
O período posterior às eleições de 2024 foi marcado por episódios de tensão social e contestação política que afectaram o sentimento dos investidores e a actividade económica em vários sectores.
Embora a situação tenha estabilizado parcialmente, analistas consideram que as causas estruturais dessas tensões continuam presentes, mantendo um nível elevado de incerteza.
A implementação de medidas económicas exigentes — como consolidação fiscal ou desvalorização cambial — poderá também ter impacto social, aumentando a sensibilidade política do processo de ajustamento económico.

A boa notícia: potencial de longo prazo mantém-se
Apesar do agravamento da percepção de risco no curto prazo, vários analistas sublinham que Moçambique continua a dispor de um potencial de crescimento significativo a médio e longo prazo.
Os grandes projectos de gás natural, em particular, poderão transformar o perfil económico do País ao longo da próxima década.
A questão central, segundo economistas, será a capacidade de atravessar o actual período de ajustamento macroeconómico sem comprometer a estabilidade financeira e institucional necessária para atrair investimento de longo prazo.




























































