Com a Ásia a liderar o consumo, a Europa a reconstruir a sua segurança energética e África a consolidar-se na exportação, o GNL tornou-se a espinha dorsal da energia global. As próximas décadas serão decisivas para definir preços, oferta e geopolítica.
O gás natural liquefeito (GNL) transformou-se, ao longo das duas últimas décadas, de uma mercadoria relativamente especializada num pilar central da energia global. A combinação entre o crescimento demográfico e industrial da Ásia, a procura europeia por segurança energética após a eclosão da guerra com a invasão russa da Ucrânia, o reforço da flexibilidade logística permitida por navios metaneiros e a necessidade de fontes de energia mais limpas do que o carvão e outros combustíveis fósseis têm sustentado um dinamismo sem precedentes deste mercado.
Segundo a Shell, no seu relatório “LNG Outlook 2025”, a procura global poderá aumentar cerca de 60% até 2040, impulsionada, sobretudo, pela expansão económica da China, Índia e de várias economias asiáticas emergentes. Esta ascensão não é apenas quantitativa. É também estratégica, já que o GNL tornou-se uma “ponte energética” fundamental numa fase em que as energias renováveis ainda não garantem estabilidade em sistemas altamente dependentes de electricidade.
Crise energética e expansão da procura
A centralidade do GNL numa economia global cada vez mais volátil também se explica pela sua flexibilidade. Ao contrário do gás transportado por gasoduto, o GNL pode ser desviado, vendido e recontratado conforme a necessidade dos mercados, factor que se tornou particularmente decisivo durante a crise energética de 2022, quando a Europa viu o abastecimento russo colapsar. Com este choque, a procura por GNL intensificou-se, provocando mudanças profundas na geografia do comércio, na política energética europeia e na estratégia de longo prazo de grandes exportadores e importadores. De acordo com o relatório “2025 World LNG Report” da International Gas Union (IGU), o comércio global atingiu 411,24 milhões de toneladas em 2024, um crescimento de 2,4% relativamente a 2023 (401,4 milhões de toneladas) a ligar 22 países exportadores a 48 mercados importadores. Apesar de 2024 ter sido o ano com o menor aumento da oferta em vários anos, a expansão manteve-se, o que demonstra que a resiliência do mercado de GNL supera conjunturas temporárias.
O mundo deverá assistir a um aumento expressivo da capacidade de liquefacção, liderado pelos Estados Unidos, Qatar, Nigéria, Moçambique e Tanzânia
Ásia: motor da procura mundial
A Ásia continua a ser a força motriz da procura internacional. A Shell destaca que a China planeia expandir significativamente as ligações de gás canalizado para cerca de 150 milhões de pessoas até 2030 (não há dados do consumo actual para comparar), substituindo o carvão por gás em sectores residenciais e industriais. Em termos de consumo e comércio, os dados recentes confirmam um crescimento claro. Segundo as estatísticas alfandegárias chinesas, as importações de GNL do país aumentaram de 71,19 milhões de toneladas em 2023 para 76,65 milhões de toneladas em 2024 (7,7%). Estes dados ilustram a aceleração da procura e maior penetração do GNL no mix energético chinês.
A Índia segue uma estratégia semelhante à da China, procurando estimular gasodutos urbanos e investimentos em terminais costeiros de regaseificação. A importação indiana de gás subiu de cerca de 22,14 milhões de toneladas em 2023 para 27,79 milhões de toneladas em 2024 (25,6%). Países como o Vietname, Filipinas e Bangladesh também emergem como novos importadores, ampliando a base geográfica e reforçando a perspectiva de mercados diversificados.
Estes dados confirmam que a região da Ásia e Pacífico continua a liderar o consumo global e deverá manter protagonismo até 2030 impulsionada, sobretudo, pelo crescimento populacional, pela industrialização acelerada e pelo esforço de descarbonização da indústria pesada. Com efeito, segundo dados da IGU, esta região importou 165,09 milhões de toneladas de GNL em 2024, contra 155,32 milhões de toneladas em 2023 (crescimento de aproximadamente 6,3%), que fez com que representasse cerca de 40% do comércio global
de GNL em 2024.

Um recurso ‘vital’ para o Japão
Enquanto isso, o Japão, historicamente um dos maiores importadores mundiais de GNL, permanece dependente desta fonte energética para manter a estabilidade do seu sistema eléctrico. O Ministério da Economia, Comércio e Indústria japonês, num relatório de 2025, reitera que o país ainda considera o GNL um “pilar insubstituível” do seu mix energético, mesmo tendo metas de neutralidade de carbono para 2050.
Segundo uma reportagem da Energy Tracker Asia (Fevereiro de 2025), o Japão comprometeu-se a comprar ‘quantidades recorde’ de GNL dos EUA. Estima-se que em 2023 cerca de 5,8 milhões de toneladas (cerca de 9% das importações totais do país) foram adquiridos nos EUA.
A vulnerabilidade a desastres naturais, a lenta recuperação da confiança na energia nuclear e a necessidade de garantir estabilidade para a indústria e para os centros urbanos justificam a contínua aposta nipónica no GNL, embora se preveja alguma desaceleração de longo prazo com o reforço das energias renováveis e do hidrogénio.
Incerteza de longo prazo na Europa
Na Europa, a dinâmica energética é distinta, mas igualmente determinante para o mercado global de GNL. Após o corte abrupto do gás russo, a região tornou-se o maior destino de cargas spot de GNL em 2023 e 2024, sinalizando a importância estratégica desta fonte flexível. Para dimensionar a dependência do continente, a União Europeia consumiu entre 350 e 360 biliões de metros cúbicos de gás natural em 2022, abrangendo os sectores residencial, industrial e de geração eléctrica. Este volume evidencia a escala do mercado e o peso estrutural do gás na matriz energética europeia, mesmo diante da crescente penetração de fontes renováveis.
Segundo o relatório “Gas 2025” da Agência Internacional de Energia (AIE), o papel do GNL na Europa não se limita ao curto prazo. Embora o continente esteja a acelerar a transição verde, a intermitência das renováveis exige fontes estáveis de apoio. Neste contexto, o gás natural continua a ser a principal fonte “ponte”, garantindo a segurança do abastecimento e permitindo a flexibilidade necessária para responder a flutuações climáticas ou geopolíticas.

No entanto, a AIE adverte que a Europa poderá assistir a uma redução gradual do consumo de gás a partir da próxima década, à medida que metas de descarbonização forem cumpridas e se consolide a substituição de gás por soluções como baterias de grande escala, hidrogénio verde e sistemas eléctricos mais integrados e inteligentes.
Actualmente, alguns países europeus mostram trajectórias distintas: enquanto Alemanha e Itália investem fortemente em terminais de regaseificação (instalações industriais que recebem GNL, armazenam e o convertem de volta em gás natural para distribuição) para diversificar fornecedores, países como Espanha e França concentram-se em optimizar o uso de capacidade instalada e integração com redes de gás natural existentes. Este cenário evidencia que, mesmo dentro da Europa, o papel do GNL é heterogéneo, mas sempre central para assegurar a resiliência energética num contexto de transformação acelerada do sector.
Expansão da oferta global e riscos de excesso
A expansão global não se explica apenas pela procura. Decorre também da transformação profunda do lado da oferta. Entre 2024 e 2028, segundo o Global LNG Outlook do Institute for Energy Economics and Financial Analysis (IEEFA), o mundo deverá assistir a um aumento expressivo da capacidade de liquefacção, liderado sobretudo pelos Estados Unidos, Qatar e segmentos crescentes de África, incluindo Nigéria, Moçambique e Tanzânia. A IEEFA alerta, contudo, que esta expansão poderá resultar num cenário de excesso de oferta até 2030, pressionando os preços globais.
A JP Morgan, em várias análises publicadas ao longo de 2024 e 2025, também chama a atenção para o risco de preços estruturalmente mais baixos e voláteis, sobretudo se os projectos em construção forem concluídos num período de desaceleração económica global. A volatilidade actual é um indicador claro dessa vulnerabilidade.
Tecnologia e utilidade cada vez mais diversificada
A perspectiva de mercado é igualmente influenciada pela diversificação do uso do GNL. A consultora Mordor Intelligence detalha que o mercado global poderá alcançar 763 milhões de toneladas por ano até 2030, impulsionado por sectores como geração de electricidade, indústria transformadora, petroquímica e, mais recentemente, o transporte marítimo. O segmento de navios movidos a GNL, impulsionado pelas normas internacionais de baixo teor de enxofre e por exigências de redução de emissões, cresce a um ritmo particularmente acelerado. Este movimento reforça a diversificação industrial do GNL, ampliando a sua competitividade.
Do ponto de vista tecnológico, há uma mudança com soluções de pequena e média escala, incluindo mini-liquefacções e terminais flutuantes de regaseificação (FSRU)
Do ponto de vista tecnológico, há uma mudança visível: soluções de pequena e média escala, incluindo mini-liquefacções e terminais flutuantes de regaseificação (FSRU), têm permitido que mercados emergentes entrem no sector sem necessidade de investimentos massivos.
Esta tendência favorece os países africanos, onde a combinação de recursos naturais e o défice de infra-estrutura cria espaço para abordagens modulares e gradualmente expansíveis. Um exemplo concreto é o terminal FSRU de Maputo, que começou a operar parcialmente em 2019 e permite regaseificação de GNL importado com capacidade inicial relativamente pequena, atendendo tanto o mercado doméstico quanto projectos industriais locais.

Oportunidades e riscos para África e Moçambique
Os exportadores africanos, incluindo Moçambique, enfrentam um cenário de grandes oportunidades mas, igualmente, de riscos significativos. A procura asiática e europeia, principais destinos potenciais do GNL moçambicano, permanece firme numa perspectiva de médio prazo, o que cria espaço para a inserção consistente do País no comércio mundial. O continente africano, segundo a Mordor Intelligence, representou cerca de 28% da oferta global de GNL em 2024, sugerindo que existe espaço para o reforço da participação africana, especialmente se acompanhada de estratégias de competitividade, sustentabilidade e integração logística.
No entanto, a volatilidade dos mercados e o risco de excesso de oferta exigem prudência, planeamento e políticas claras que garantam estabilidade aos investidores. O desafio maior será alinhar a entrada no mercado global com uma visão de longo prazo que inclua diversificação económica, criação de valor interno, industrialização e protecção ambiental.
Texto Celso Chambisso • Fotografia D.R.


























































