Na antevisão de 2026, quisemos dar voz a um dos parceiros internacionais de relevo para Moçambique, a Noruega. O embaixador Egil Thorsås aborda prioridades económicas, o sector energético, fundos soberanos e emprego, reflectindo sobre os desafios e oportunidades no novo ano.
No contexto de preparação para 2026, a Noruega mantém-se como um parceiro estratégico de Moçambique, sobretudo nas áreas de energia, fundos soberanos e governança. Com uma visão cautelosa, mas pragmática, o embaixador Egil Thorsås partilha uma análise sobre os factores que podem sustentar a criação de emprego, a recuperação e diversificação económica. A sua abordagem reflecte a experiência norueguesa na gestão de recursos naturais e na promoção de transparência, sublinhando a importância de apoiar iniciativas lideradas pelo próprio Governo moçambicano.
Que factores considera mais determinantes para a recuperação económica e estabilidade financeira em 2026?
É sempre difícil identificar um único factor determinante, porque a recuperação económica depende de vários elementos que precisam de avançar em conjunto. Mas, olhando para Moçambique, diria que a estabilidade macroeconómica continuará a ser fundamental, sobretudo a disciplina fiscal, a gestão cuidadosa da dívida e a previsibilidade das políticas económicas. Outro elemento importante é a continuidade do trabalho com as instituições financeiras internacionais, que tem ajudado a reforçar a confiança dos investidores.
Ao mesmo tempo, o ambiente global continuará a influenciar o País, seja através dos preços internacionais das matérias-primas, seja através da disponibilidade de financiamento externo. Não podemos também esquecer o papel do sector privado: quanto mais estabilidade houver, mais fácil será atrair investimentos e criar emprego. Portanto, a combinação entre gestão interna prudente e um ambiente externo relativamente favorável será, na minha opinião, o que mais poderá contribuir para um 2026 mais estável.
“Consideramos muito acertado que Moçambique esteja a criar o Fundo Soberano agora; quando os grandes fluxos de receita chegarem, já é tarde e torna-se muito difícil gerir interesses divergentes”
Um dos pilares de desenvolvimento e que faz parte das áreas de apoio norueguês em Moçambique é a energia. Quais deverão ser as prioridades do País nesta área, em 2026?
O mais importante é que as prioridades sejam definidas pelo próprio Governo de Moçambique. A Noruega apenas apoia quando há uma decisão clara do Governo sobre o rumo que quer tomar. Mas observando o sector, posso dizer que existem alguns elementos que parecem essenciais para 2026: em primeiro lugar, a expansão e modernização da rede de transmissão continua a ser crítica, porque sem uma rede estável e com capacidade suficiente, tanto a produção existente como os novos investimentos ficam limitados. Em segundo lugar, reforçar a capacidade institucional do sector, incluindo da empresa Electricidade de Moçambique (EDM) e as entidades reguladoras, é absolutamente essencial para garantir uma gestão sustentável e previsível da energia, a longo prazo. Outra prioridade é a aceleração do uso de energias renováveis, sobretudo solar, que já está em curso, mas ainda tem muito espaço para crescer. E, naturalmente, o processo relacionado com o Fundo Soberano ligado aos recursos naturais. É um processo que deve desenvolver-se porque a forma como Moçambique gere a receita do gás terá impacto directo no futuro do sector energético. Da nossa parte, não prevemos mudanças drásticas: continuaremos a apoiar estas áreas onde já existe cooperação, sobretudo capacidade institucional, boa governança no sector e o desenvolvimento de infra-estruturas essenciais. O foco é continuar a construir sobre o que já foi iniciado.
A Noruega é o melhor exemplo no mundo em termos de gestão de um fundo soberano. Que experiência tem vindo a transmitir para conduzir Moçambique a resultados como os da Noruega?
Podemos partilhar o que fizemos correctamente, mas também erros que cometemos e que outros países podem evitar. O Fundo Soberano moçambicano não terá a mesma estrutura, nem o mesmo modelo do norueguês, porque Moçambique deve encontrar o seu próprio caminho. Mas consideramos muito acertado que Moçambique esteja a criar o Fundo agora, porque, quando os grandes fluxos de receita começarem a chegar, já é tarde e torna-se muito difícil gerir interesses divergentes dentro do Governo, sobretudo quando há grandes necessidades sociais.
Um fundo soberano existe precisamente para que a maior parte do dinheiro não seja gasta de imediato: uma parte é guardada para o futuro e outra parte é usada de forma transparente, de acordo com a decisão do Governo. Na Noruega, demorámos cerca de 20 anos, desde o início da produção de petróleo até ao estabelecimento do Fundo, e mais cinco anos até ao primeiro depósito, em 1996. A nossa experiência diz-nos que teria sido melhor criá-lo ainda antes. O nosso conselho para Moçambique e para qualquer país é: fazer este trabalho o mais cedo possível, porque quanto mais dinheiro entra, mais difícil se torna gerir a pressão. O mais importante é a transparência. Uma parte terá de ser guardada, outra terá de ser investida, porque as necessidades do País são grandes. Em relação ao Fundo Soberano, temos cooperado há vários anos com o Banco de Moçambique e com o Ministério das Finanças.
Considerando o desenvolvimento da indústria de petróleo e gás, que impacto directo se poderá esperar no emprego e na economia local de Moçambique em 2026?
A experiência da Noruega ilustra bem esta questão: nos primeiros anos da nossa indústria petrolífera, grande parte dos trabalhadores das plataformas eram estrangeiros oriundos dos EUA, Holanda ou Canadá, que levavam experiência acumulada. É razoável assumir que algo semelhante poderá ocorrer em Moçambique, em 2026. Assim, embora o fluxo de receitas possa transformar a posição macroeconómica do País, o impacto directo no emprego local continuará, provavelmente, limitado. E isto sem ainda considerar o factor adicional da insegurança na região, que também poderá condicionar o envolvimento da mão-de-obra local.
“Para 2026, a recomendação permanece: continuar a diversificação com prudência, garantindo que os fluxos de receita de recursos naturais não comprometam outros sectores”
A Noruega e outros parceiros têm alguma leitura sobre as prioridades de Moçambique em matéria de emprego? Como têm apoiado o País nessa área?
Infelizmente não temos muitas empresas norueguesas presentes em Moçambique. Digo infelizmente porque, como embaixador, gostaria de ver um sector privado norueguês com mais investimentos aqui, mas o Governo norueguês não pode instruir empresas privadas. Pode apenas encorajá-las.
No que diz respeito à criação de emprego, estamos envolvidos em vários projectos, alguns ligados à agricultura. Recentemente, estive em Nampula, a visitar um projecto de produção de castanha de caju e amendoim, envolvendo uma empresa norueguesa que compra caju moçambicano.
Também temos investimentos através do Norfund – um fundo financiado pelo Governo da Noruega, mas que investe exclusivamente em empresas privadas – e que funciona como qualquer investidor privado: compra participações, apoia empresas para que cresçam e depois vende, reinvestindo continuamente, e o dinheiro nunca pode ser retirado do fundo.
O Norfund tem, actualmente, cerca de 21 investimentos em Moçambique. O Governo norueguês quer que este fundo cresça para investir ainda mais, não apenas em Moçambique, mas globalmente.
Como antevê que evolua o clima de governação em Moçambiqueao longo de 2026, tendo em conta o actual contexto político e institucional?
A Noruega valoriza a estabilidade institucional de Moçambique e, olhando para 2026, espera que o País continue a aprofundar os progressos já visíveis na previsibilidade e na transparência da gestão pública. Naturalmente, persistirão desafios, como acontece em muitos países, sobretudo num contexto de restrições fiscais e expectativas sociais elevadas. Mas o essencial, do nosso ponto de vista, é que se mantenham abertos os canais de diálogo com as autoridades, porque têm sido estes mecanismos que permitem uma cooperação construtiva nas áreas prioritárias para Moçambique. Continuaremos a privilegiar processos liderados pelo Governo e a partilhar experiências sempre que for solicitado, acompanhando os avanços que, embora graduais, esperamos que se consolidem ao longo de 2026.
Quais são, na sua perspectiva, os principais desafios e prioridades de Moçambique em 2026 no que toca à capacidade de arrecadação de receitas fiscais e à diversificação da economia, especialmente no contexto de recursos naturais e receitas crescentes?
Em relação à Autoridade Tributária, não prevemos, neste momento, nenhum apoio específico para 2026. Talvez tenha existido no passado, mas, actualmente, o foco da cooperação continua a ser com o Ministério das Finanças e com o Banco de Moçambique. Quanto à diversificação económica, também não temos projectos concretos planeados para o próximo ano, mas existem lições gerais que podem ser consideradas. Qualquer país com grande receita de recursos naturais (petróleo, gás e mineração) precisa de diversificar a sua economia, para evitar a chamada “doença holandesa”, quando o ‘boom’ de recursos naturais enfraquece outros sectores. Na Noruega, aprendemos com a experiência da Holanda e tentámos evitar cair neste erro. Não fomos 100% bem-sucedidos, talvez 70% ou 80%, mas a experiência mostra que um fundo soberano ajuda a suavizar as receitas ao longo do tempo e reduz a vulnerabilidade económica. Portanto, para 2026, a recomendação permanece: continuar a diversificação com prudência, garantindo que os fluxos de receita de recursos naturais não comprometam outros sectores da economia.
Vários parceiros internacionais estão a reduzir os pacotes de ajuda ao desenvolvimento de Moçambique. De que forma este fenómeno vai manifestar-se no desempenho do País em 2026?
É difícil antecipar com precisão o impacto, porque depende muito das decisões políticas internas e da capacidade de mobilizar recursos domésticos. O que posso dizer é que a tendência global de redução da ajuda não está relacionada especificamente com Moçambique, mas com factores externos: pressões orçamentais nos países doadores, conflitos como a guerra da Ucrânia e a situação em Gaza e prioridades internas em vários Governos. Para Moçambique, isso significa que poderá haver menos margem para financiar certos programas, sobretudo os que dependem fortemente de apoio externo. Mas também acredito que o País tem vindo a reforçar gradualmente os seus mecanismos de gestão macroeconómica, o que ajuda a lidar melhor com estas flutuações. Da nossa parte, continuaremos empenhados em manter uma cooperação estável dentro das possibilidades existentes.
Que mensagem gostaria de deixar aos parceiros de desenvolvimento no contexto de uma economia sustentável, inclusiva e resiliente?
A mensagem é simples: é preciso ter um plano de despesa de longo prazo e garantir que o País não se torna dependente apenas da indústria extractiva. E, se me permite, acrescento algo de carácter pessoal: estando há pouco tempo em Moçambique, fico triste quando vou às lojas e vejo que grande parte do que compro vem da África do Sul. Não tenho nada contra a África do Sul, mas é triste ver tão pouca produção local, quando Moçambique tem terra, clima e água semelhantes, especialmente nas zonas de fronteira.
Faltam investimentos, conhecimento e infra-estrutura, como irrigação, mas o potencial existe. É algo que menciono frequentemente em reuniões de coordenação. Pessoalmente, lamento ver tão pouco desta capacidade explorada.

Texto Celso Chambisso & Cleusia Chirindza • Fotografia D.R.

























































