Num ambiente global caracterizado por níveis crescentes de incerteza, a consideração de cenários improváveis, porém plausíveis, revela-se fundamental para investidores. Byron Wien e Joe Zidle, da Blackstone, lançaram as “10 Surpresas”, eventos que consideram ter mais de 50% de probabilidade de acontecer, apesar de serem vistos como improváveis pelo consenso. É neste espírito que apresento dez possíveis surpresas que podem influenciar a economia mundial e de Moçambique em 2026.
1. O conflito entre Rússia e Ucrânia avança para uma dimensão europeia, caracterizada por ataques a infra-estruturas energéticas e interrupções nas cadeias de distribuição. Esta nova etapa do conflito afecta directamente a oferta global de diversos produtos, elevando o preço do petróleo para patamares superiores a USD 100. A inflação global volta a ganhar força, resultando numa busca por activos de refúgio, como o dólar, que retorna aos níveis observados no início de 2025. Este cenário impõe desafios adicionais às economias mais vulneráveis, como a nossa, que passam a enfrentar renovadas pressões externas.
2. Em 2026, o mundo enfrenta um aumento significativo da inflação devido à combinação de diversos factores, como a subida dos preços das ‘commodities’ energéticas (petróleo e gás natural) e a desvalorização das moedas em diversas economias emergentes. A continuação de políticas proteccionistas, com mais barreiras comerciais e menos cooperação internacional, leva à escassez de produtos e ao aumento dos custos de produção, potenciando ainda mais a espiral inflacionária. Estes factores combinados criam um cenário desafiador para os principais bancos centrais.
3. Uma correcção abrupta nos ‘valuations’ das acções de empresas de tecnologia de IA provoca uma crise financeira global, gerando aversão ao risco entre os investidores. A crise resulta num aperto da liquidez internacional, atrasando o financiamento de projectos estratégicos, incluindo o gás natural liquefeito (GNL). Este adiamento leva a que os projectos de GNL no norte de Moçambique avancem a um ritmo mais lento, originando riscos fiscais e sociais acrescidos para a economia moçambicana, que fica com espaço limitado de manobra para mitigar os impactos negativos.
4. Uma inesperada trégua comercial entre os EUA e a China reduz tarifas recíprocas e acalma os mercados, criando um ambiente mais estável para o comércio internacional. Embora as tarifas e medidas que afectam terceiros não sejam eliminadas, a redução das tensões comerciais entre as duas maiores economias traz benefícios significativos. A taxa de 16% que incide sobre certos minérios moçambicanos permanece sujeita a decisões administrativas e regimes específicos (AGOA), mas a trégua proporciona um ganho indirecto de competitividade global, favorecendo a recuperação económica e a previsibilidade nos negócios.
“Antecipar o inesperado não elimina riscos, mas reduz a vulnerabilidade. Num mundo onde choques externos se propagam rapidamente para economias frágeis, incorporar cenários fora do consenso torna-se um exercício indispensável de prudência”
5. Para conter a inflação gerada pela desvalorização cambial exigida pelo FMI, o Banco de Moçambique (BdM) eleva a MIMO a níveis sem precedentes, atingindo mais de 25%. Esta subida das taxas de referência aumenta o custo do financiamento e reduz o crédito disponível para a economia. Mesmo com estes desafios, a economia moçambicana mostra elevada resiliência e começa a beneficiar de um crescimento acentuado do Investimento Directo Estrangeiro (IDE), ajudando a estabilizar o metical e a canalizar fundos para a desejada industrialização de Moçambique.
6. Após anos sem um evento climático drástico, Moçambique volta a ser assolado por um severo desastre natural que destrói estradas, portos e depósitos logísticos, interrompendo o transporte de alimentos e combustíveis, o que provoca subida nos preços e pressão fiscal. O défice orçamental dispara para 15%, reflectindo o impacto devastador na economia e atrasando projectos privados e públicos. As comunidades costeiras enfrentam insegurança alimentar, exigindo uma resposta urgente da comunidade internacional, com os EUA a canalizarem ajudas para o País no rescaldo deste evento.
7. Pressionados por défices e custos insustentáveis no serviço da dívida de longo prazo, países africanos, incluindo Moçambique, aderem a um mecanismo coordenado de alongamento de maturidades. Este alívio imediato fortalece a liquidez e estabiliza os ‘spreads’, reduzindo o risco de ‘defaults’ desordenados. Contudo, após a reestruturação, os mercados financeiros enfrentam um período de disfunção com acesso limitado ao financiamento. O Governo de Moçambique reage avançando para um programa massivo de investimento através de parcerias público-privadas e privatização de empresas públicas, criando um dinamismo económico inédito na região.
8. O acelerado crescimento populacional subsaaariano resulta em milhares de novos adultos a chegar à idade de trabalhar sem acesso a empregos e em situação precária. O potencial “dividendo demográfico” transforma-se num “fardo demográfico”, agravando a paz social na região. A falta de oportunidades económicas gera insatisfação e instabilidade social, criando terreno fértil para tentativas de golpes de Estado em países fronteiriços como a Tanzânia, o Maláui e o Zimbabué, exigindo uma resposta coordenada para promover a estabilidade regional.

9. Com o avanço dos projectos de GNL, chega a Moçambique uma nova vaga de profissionais e investimento estrangeiro. Este influxo de capitais tem impacto directo na procura por habitação e escritórios, estimulando a construção civil. O mercado imobiliário ganha força e, dada a fraca oferta disponível, assiste-se a uma forte subida nos preços e a uma euforia semelhante ao pico vivido com a chegada da Vale S.A. Esta procura acentuada acompanha um interesse inesperado por edifícios na baixa de Maputo, que se torna o novo hotspot da cidade, revitalizando a área como um centro dinâmico de negócios.
10. Num ambiente de volatilidade global, os investidores procuram rendimentos mais estáveis. Com sinais positivos da reestruturação da dívida africana e retoma da disciplina fiscal, as Eurobonds da dívida soberana de Moçambique atraem a atenção dos investidores. A reestruturação bem recebida e a melhoria na gestão das finanças públicas levam as principais agências de ‘rating’ a elevar o risco soberano para um nível superior a ‘junk’. Esta procura abre uma nova porta para o financiamento externo do País, diversificando fontes e reduzindo a dependência do oneroso financiamento local.
Antecipar o inesperado não elimina riscos, mas reduz a vulnerabilidade. Num mundo onde choques externos se propagam rapidamente para economias frágeis, incorporar cenários fora do consenso torna-se um exercício indispensável de prudência. As surpresas apresentadas não pretendem prever 2026, mas incentivar uma reflexão mais ampla e realista sobre desafios e oportunidades que podem emergir sem aviso. Preparar-se para o improvável é, no contexto actual de incerteza, parte integrante de uma gestão económica responsável.





















































