O Prémio Nobel de Economia de 2025 foi atribuído a três nomes que há décadas estudam o crescimento económico: Joel Mokyr, Philippe Aghion e Peter Howitt. Quais seriam os resultados se as suas conclusões fossem aplicadas em Moçambique?
O mais recente Prémio Nobel de Economia reconhece os contributos decisivos de três economistas para explicar como a inovação (e não apenas a acumulação de capital) se tornou no motor essencial do desenvolvimento. Mais do que uma homenagem académica, o galardão abre uma oportunidade de reflexão para países como Moçambique, onde o crescimento económico ainda depende, em grande medida, de recursos naturais, da ajuda externa e de um tecido produtivo limitado.
Joel Mokyr recebeu metade do prémio “pelas suas análises sobre as condições culturais e institucionais que tornaram possível o progresso tecnológico sustentado.” Aghion e Howitt partilharam a outra metade “pela formulação da teoria do crescimento impulsionado pela destruição criativa”, que mostra como a concorrência e o avanço tecnológico, ao substituírem velhas indústrias e métodos, geram novos ciclos de prosperidade.
Em conjunto, as ideias ajudam a perceber como sociedades abertas ao conhecimento, à ciência e ao empreendedorismo constroem riqueza duradoura, ao contrário das que se fecham ao risco e à mudança.

O poder da inovação
No caso de Joel Mokyr, o foco recai sobre a dimensão cultural da inovação. O economista israelita-americano argumenta que o crescimento da Europa após a Revolução Industrial não se deveu apenas a invenções isoladas, mas a uma verdadeira “república do saber”, onde cientistas, artesãos e comerciantes partilhavam ideias e aprendiam uns com os outros. A curiosidade científica e a confiança na razão criaram um ambiente propício à descoberta e ao aperfeiçoamento contínuo das técnicas.
Moçambique precisa de um sistema de investigação capaz de gerar soluções locais na agricultura, energias renováveis, gestão ambiental e tecnologias digitais
Para Mokyr, o desenvolvimento depende de uma cultura que valorize o conhecimento e que permita contestar o estabelecido. Esta é uma lição crucial para Moçambique, onde a produção científica e tecnológica ainda ocupa um espaço reduzido na economia e na formulação de políticas públicas. Reforçar o ensino científico, promover a pesquisa aplicada e criar pontes entre universidades, empresas e Governo seriam passos decisivos para transformar o conhecimento em crescimento sustentável.
A força da “destruição criativa”
Já Philippe Aghion e Peter Howitt, cujas obras se tornaram referências desde a década de 1990, explicam que o crescimento moderno resulta de um processo dinâmico de “destruição criativa”, conceito inicialmente proposto por Joseph Schumpeter. Em cada ciclo económico, novas empresas ou tecnologias substituem as antigas, aumentando a produtividade global. A inovação destrói empregos e modelos de negócio obsoletos, mas cria outros, mais eficientes e competitivos. A chave, para ambos, está em garantir que os incentivos à inovação (como protecção de patentes, acesso ao crédito, regulação justa e educação de qualidade) sejam suficientemente fortes para superar as forças de inércia e resistência dos grupos estabelecidos.
Em Moçambique, o modelo de Aghion e Howitt pode ajudar a compreender porque é que o País cresce sem, necessariamente, transformar a estrutura produtiva. Apesar de haver sectores dinâmicos, como a energia, mineração ou telecomunicações, grande parte da economia continua dependente de pequenas actividades informais e de baixa produtividade. A ausência de um ecossistema competitivo e de políticas de inovação coerentes impede a renovação tecnológica e a criação de valor. A “destruição criativa”, neste contexto, é limitada, porque há pouca criação e porque a destruição sem alternativas sustentáveis apenas acentua a exclusão social. O desafio é encontrar o equilíbrio que consiste em promover a concorrência e a inovação sem deixar para trás os que não têm meios de adaptação.
Que posição Moçambique deve(ria) assumir?
A aplicação dos estudos destes laureados exige políticas de longo prazo. À luz das suas lições, Moçambique precisa de um sistema robusto de investigação e desenvolvimento, capaz de gerar soluções locais na agricultura, energias renováveis, gestão ambiental e tecnologias digitais. É fundamental criar condições institucionais que encorajem a experimentação e a liberdade académica. Também se exige um ambiente regulatório previsível e justo, que premeie o mérito e desincentive monopólios ou favoritismos. No plano social, o País deve investir em capital humano, desde a educação básica até à formação técnica e científica, para preparar uma força de trabalho capaz de inovar e adaptar-se às mudanças do mercado.
A teoria da destruição criativa também alerta para os riscos de uma modernização desequilibrada. A inovação pode gerar desigualdade se concentrar oportunidades nas zonas urbanas ou entre elites com acesso à tecnologia. Por isso, as políticas de crescimento devem incluir mecanismos de protecção profissional, programas de requalificação e apoio a micro e pequenas empresas, de modo a facilitar a transição para uma economia inovadora. O legado intelectual de Mokyr, Aghion e Howitt oferece, assim, um guião claro: o progresso não é apenas uma questão de capital ou recursos, mas de ideias e instituições. As economias que valorizam o conhecimento, estimulam a concorrência e apostam na criatividade dos seus cidadãos são as que mais prosperam a longo prazo.

Texto: Celso Chambisso • Fotografia: D.R





























































