Seja através de moeda electrónica (mobile money) ou carteiras móveis (digital wallets), as ferramentas digitais das finanças pessoais deixaram de ser uma tendência emergente para se tornarem num dos principais motores da economia digital. Eis o retrato global.
Segundo o relatório da GSMA (State of the Industry Report on Mobile Money 2025, relativo a dados do último ano), existem hoje mais de 2,1 mil milhões de contas registadas em mobile money no mundo, das quais aproximadamente 1,1 mil milhões em África — ou seja cerca de 53% do total global. Em termos de valor das transacções, o mercado mundial ultrapassou os US$ 1,68 biliões em 2024, com África a responder por cerca de US$ 1,105 biliões, o que equivale a aproximadamente 65% do valor global. Em volume de transacções, registaram-se cerca de 108 biliões de operações, em 2024, no mundo inteiro, das quais 81,8 biliões em África — ou seja, aproximadamente 74% das transacções globais.
A nível global, estudos do sector de carteiras digitais (digital wallets, ou seja, vai além do mobile money tradicional) estimam que o número de utilizadores poderá atingir 4,8 mil milhões até 2025, ou seja, mais de metade da população mundial. Em termos regionais, a região da Ásia-Pacífico lidera com cerca de 20% do total de contas registadas, seguida de África e América Latina — regiões com taxas de crescimento mais aceleradas. A Europa e a América do Norte apresentam níveis de penetração elevados (50% a 65%), mas crescimento mais moderado.
Mobile money permite enviar, receber e guardar dinheiro através do telemóvel, mesmo sem conta bancária, usando redes de agentes físicos — é a realidade mais conhecida e comum em Moçambique, com os serviços M-Pesa, e-Mola e mKesh, associados às operadoras móveis. Já as carteiras digitais (digital wallets) estão ligadas a bancos ou cartões e servem para pagamentos online ou por aproximação. O mobile money é mais comum em países com baixa bancarização, como os africanos. As carteiras digitais predominam em economias desenvolvidas e no comércio electrónico.
De uma forma ou de outra, o mapa mundial mostra contrastes claros: enquanto a China já consolidou um duopólio (há apenas duas empresas que dominam a oferta) através da Alipay e WeChat Pay, com mais de 90% dos pagamentos móveis, a Índia criou um modelo estatal interoperável, o UPI, que em poucos anos passou a movimentar mais de 15% do PIB nacional.

Os diferentes modelos de negócio
As carteiras móveis, mais do que meros instrumentos de pagamento, apresentam-se como portas de entrada em ecossistemas digitais que cruzam finanças, consumo e outros serviços. Os bancos, por exemplo, utilizam-nas não apenas para facilitar transacções, mas sobretudo como ferramentas de fidelização e integração de produtos como crédito, seguros e investimento. De acordo com o World Payments Report 2023, da Capgemini (empresa multinacional francesa de consultoria, tecnologia e transformação de negócios), mais de 70% das instituições bancárias consideram este canal uma prioridade estratégica para inovação. Nas regiões com baixa penetração bancária, o protagonismo pertence às operadoras de telecomunicações e ao mobile money. O caso mais emblemático é o do M-Pesa, no Quénia, que revolucionou o conceito de conta financeira ao transformá-la num simples número de telemóvel. Esta lógica expandiu-se a todo o continente africano e a quase todas as operadoras móveis.
Em África, mais de 400 milhões de pessoas utilizam serviços como o M-pesa, movimentando 1,1 bilião de dólares por ano, segundo a Global System for Mobile
Já as Big Techs – como Apple, Google, Amazon, Alipay e WeChat Pay – seguem uma lógica diferente: o foco não está apenas em taxas de transacção, mas sim nas carteiras digitais, com a criação de super-apps multifuncionais capazes de agregar serviços de e-commerce, transportes, saúde ou seguros. A ambição central é capturar dados de consumo e, a partir deles, estruturar novos modelos de negócio.
As fintechs, por sua vez, exploram nichos com grande agilidade. Empresas como PayPal, Nubank, Mercado Pago ou Revolut oferecem soluções que vão desde o microcrédito até às criptomoedas e investimentos digitais. Só em 2022, estas empresas atraíram mais de 22 mil milhões de dólares em capital de risco, de acordo com o Global Payments Report 2023 da McKinsey, confirmando o seu papel como laboratórios de inovação dentro do sector.
Economia e impacto
As carteiras móveis e o mobile money têm tido efeitos profundos na economia real, transformando a forma como indivíduos, Governos e empresas lidam com dinheiro. No campo da inclusão financeira, o efeito é notório. De acordo com o Global Findex 2021 do Banco Mundial, centenas de milhões de pessoas tiveram no telemóvel a sua primeira porta de acesso ao sistema financeiro formal. Mulheres e populações rurais estão entre as maiores beneficiadas, quebrando barreiras históricas de exclusão. Outro vector de impacto está nas remessas. Nos últimos dez anos, o custo médio das transferências internacionais caiu de 9% para 6%, embora ainda esteja acima da meta de 3% estabelecida pelo G20. Neste contexto, os serviços móveis afirmam-se como canais cada vez mais utilizados para o envio de pequenas quantias, sobretudo em África, onde desempenham um papel vital no sustento das famílias.
Também os Governos têm encontrado nos formatos digitais uma ferramenta eficaz para os seus programas de transferências sociais, conhecidos como G2P (government-to-person). A digitalização destes pagamentos não só aumenta a eficiência da distribuição como reduz significativamente o risco de fraudes. Em países como Gana e Nigéria, a expansão dos pagamentos digitais já começa a representar uma contribuição relevante para a arrecadação fiscal.
Os Governos têm encontrado nos formatos digitais uma ferramenta eficaz para os seus programas de transferências sociais. A digitalização destes pagamentos não só aumenta a eficiência da distribuição como reduz significativamente o risco de fraudes
Do lado da economia dos comerciantes, os benefícios são igualmente tangíveis. Ao reduzir a dependência do numerário, os pequenos negócios diminuem custos operacionais, evitam perdas associadas a roubos e melhoram os processos de reconciliação contabilística. Em muitos mercados emergentes, esta eficiência adicional tem-se traduzido numa maior formalização da actividade produtiva e num aumento da competitividade no sector do comércio.

Regulação e políticas públicas
O Banco Mundial destaca que licenças de e-money tornaram-se numa norma em vários países africanos e asiáticos, permitindo que os operadores de telecomunicações trabalhem sob supervisão. Já a União Europeia avança com a PSD2 e a futura PSD3 (segunda e terceira directivas de Serviços de Pagamento, respectivamente), que obrigam bancos a abrir API (mecanismos que permitem que dois componentes de software se comuniquem usando um conjunto de definições e protocolos) e estimulam a competição no open banking.
No caso da Índia, o UPI regulado pelo Banco Central tornou-se referência global: interoperabilidade, baixo custo para comerciantes e inovação rápida. Já no Brasil, o Pix mostra como sistemas de pagamentos instantâneos podem ser integrados com carteiras digitais, acelerando a formalização da economia. A governança de dados também surge como preocupação: enquanto a China restringe o uso de dados financeiros pelas big techs, a Europa aposta na privacidade (General Data Protection Regulation GDPR) e em consentimento explícito do consumidor.

Texto: Celso Chambisso • Fotografia: D.R.
























































