O crescimento dos serviços financeiros móveis em África tem transformado a vida de milhões de pessoas, especialmente em áreas rurais com difícil acesso aos bancos tradicionais. Um estudo feito no sul de Moçambique mostra como a mudança se processa.
Qual o impacto real do crescimento da moeda electrónica? Em que histórias reais se traduzem os números da expansão desta tecnologia? Há um estudo que faz luz sobre o que se passa no terreno. Inspirada pelo sucesso da introdução do M-Pesa, no Quénia, em 2007, uma equipa de investigadores liderada por Cátia Batista, professora catedrática de Economia na Nova School of Business and Economics, em Lisboa, e directora científica do centro de investigação NovaAfrica, realizou, no período de 2010 a 2013, um trabalho sobre a implementação destes serviços no País. A investigação incidiu nas zonas rurais das províncias de Maputo, Gaza e Inhambane. Com o título “Is Mobile Money Changing Rural Africa? Evidence from a Field Experiment” (“Estará o Dinheiro Móvel a Mudar a África Rural? Provas de uma Experiência no Terreno”), a pesquisa revelou como o uso de moeda electrónica mudou o dia-a-dia das comunidades.
Tendo em conta que se tratavam de serviços desconhecidos, Cátia Batista começa por apontar o acesso dado a localidades isoladas e a confiança por parte da população, como factores que facilitaram a implementação de um serviço que podia parecer complicado. Na altura, a Mkesh, plataforma de moeda electrónica da operadora estatal Mcel, era a única que oferecia este tipo de serviços no País, e foram necessárias várias estratégias para conquistar a comunidade.
A confiança numa nova rede de segurança financeira
“A confiança é o factor mais importante para introduzir uma inovação tecnológica, especialmente financeira. Nós trabalhávamos com as autoridades locais, tínhamos uma equipa que visitava a aldeia e havia sempre encontros com toda a comunidade. Foram necessários vários processos para que esta adopção acontecesse. E, de facto, foi um sucesso”, explica à E&M.
Segundo a autora, apesar de ter sido um serviço novo, no prazo de um ano, cerca de 70% da população já tinha aderido aos serviços de mobile money, destacando o seu impacto em momentos de choques negativos, como as inundações de 2013. O serviço permitia a transferência rápida de recursos, ajudava as famílias afectadas a evitar fome e apoiava a compra de medicamentos. Além disso, auxiliou as famílias que passavam por dificuldades, como a perda de emprego ou a falta de recursos para realizar funerais.
“Mesmo em contextos remotos, os serviços não só são usados, como transformam vidas, promovendo maior segurança alimentar, saúde e educação”
O estudo trouxe à tona o papel das remessas como uma rede de segurança financeira noutros contextos. “Surpreendentemente, o serviço não foi utilizado para aumentar investimentos agrícolas ou a criação de novos negócios rurais, como nós esperávamos. Em vez disso, muitas pessoas passaram a migrar para a cidade em busca de melhores empregos, usando a moeda electrónica para enviar dinheiro para as famílias no campo.” Essa verba, por sua vez, também trouxe benefícios. Por exemplo, “também foi direccionada para investimentos na educação das crianças, como compra de livros e uniformes, destacando-se um efeito positivo no desenvolvimento humano”, salienta.
Há um contraste claro entre vilas rurais, pequenas e isoladas, e mercados dinâmicos nas zonas urbanas. De acordo com Cátia Batista, o serviço financeiro móvel tem maior fluidez nas cidades, onde há mais movimento e procura, com volume de transacções suficiente para os agentes móveis suportarem a sua actividade. “Os agentes nos mercados da cidade já em 2015 funcionavam bem: eles ficavam no local o dia todo e esse serviço mostrou ser um negócio sustentável.”
Nas zonas rurais, não se geram negócios suficientes para sustentar agentes financeiros locais a tempo inteiro e estes servem mais como um complemento ao comércio já existente.
Esta evolução do ecossistema financeiro parece também esbater as desigualdades de género. A autora menciona um trabalho que está a ser desenvolvido nos mercados de Maputo e Matola, maior malha urbana do País. Ao introduzir os serviços de moeda electrónica, principalmente numa intervenção com mulheres empreendedoras, estas conquistaram vários benefícios. “Puderam guardar o dinheiro do negócio, separado das finanças pessoais, ganhando mais autonomia.”
Entraves no acesso à Internet travam evolução
Questionada sobre as perspectivas para estes serviços nos próximos dez anos, Cátia Batista considera que o serviço de moeda electrónica já está amadurecido, mesmo quando não há acesso à Internet, porque oferece uma ampla gama de serviços através da rede móvel tradicional. Porém, aponta o acesso a serviços de dados como o maior desafio para que continue a haver inovação.
“Quando há acesso, surgem novos serviços além da carteira móvel. Contudo, nos trabalhos que faço, tanto em áreas rurais quanto urbanas, incluindo Maputo, vejo muitas pessoas que ainda não têm condições de usar dados móveis.” A autora conta que, entre 1200 pequenos empresários e vendedores de mercado nas cidades de Maputo e Matola, uma grande parte não usa Internet porque não tem aparelhos adequados ou não pode pagar pelos carregamentos. “Enquanto o uso da Internet não se tornar acessível, as pessoas não conseguirão usufruir de serviços financeiros digitais que estão disponíveis para quem usa smartphones e pode pagar pelos dados.”

Assim, a grande revolução, para a pesquisadora, será tornar a Internet mais acessível, começando pelas cidades e alcançando, depois, as zonas rurais. “Tecnologias mais avançadas, como blockchain e inteligência artificial, estão muito além do alcance de uma grande parte da população em Moçambique e noutros países da África Subsaariana, devido à falta de acesso à Internet. Quando essa barreira for superada, a inovação tecnológica poderá finalmente chegar a quem mais precisa”, acrescenta. Cátia Batista acredita que para as empresas e startups interessadas em inovar no mercado rural, as lições são claras: é essencial investir para criar confiança local, oferecer suporte e facilitar a adopção. “Com isso, mesmo em contextos remotos, os serviços não só são usados, como transformam vidas, promovendo maior segurança alimentar, saúde e educação”, conclui.
Experiência mostra que risco compensa
Muitas empresas tecnológicas evitam investir nas zonas rurais por receio de que os serviços não sejam utilizados, algo que já aconteceu em vários países. No entanto, explica Cátia Batista, a experiência mostra que, quando há investimento em levar os serviços às pessoas, criar relações locais, construir confiança e oferecer apoio ao cliente, os resultados são muito positivos. As comunidades passam a ter melhor acesso a alimentos, medicamentos, educação para as crianças e novas oportunidades económicas.
Texto: Ana Mangana • Fotografia: D.R.































































