De operadora de telecomunicações a empresa tecnológica: esta é a jornada que a Vodacom está a percorrer em Moçambique. À frente da operação, Simon Karikari, CEO da Vodacom Moçambique, traça um horizonte ambicioso: 95% de cobertura de rede até 2030, soluções digitais adaptadas à realidade moçambicana e capacitação de jovens para liderar a transformação tecnológica do País.
A vodacom está a apostar fortemente na transformação digital do País, com investimentos de 25 milhões de dólares em centros de dados e novos serviços cloud. Em entrevista à E&M, o director-geral da empresa, Simon Karikari, defende que o Governo deve liderar a digitalização dos serviços públicos, tornando-a numa prioridade nacional para acelerar o desenvolvimento, mas revela que apesar de ser uma instituição privada, a Vodacom associa-se à causa e traça uma meta ambiciosa: assegurar 95% de cobertura de rede no País e reforçar a infra-estrutura partilhada entre operadoras. A aposta na capacitação tecnológica de jovens e startups é outro eixo estratégico, dentro da lógica de busca de “soluções criadas por moçambicanos e para moçambicanos.”

A digitalização surge, hoje, como um elemento transversal a sectores estratégicos como o turismo, as infra-estruturas, a logística, o petróleo e o gás. Sem uma base digital sólida, há o risco de muito deste potencial ficar comprometido. Qual o papel de empresas como a Vodacom nesta transformação digital?
É um papel absolutamente crucial. Vivemos num mundo em que a transformação digital é determinante para o desenvolvimento dos países. É encorajador ver que o Governo elegeu este tema como prioridade estratégica. Mas é preciso ir além da intenção e acelerar este processo, pois abre portas para mais crescimento.
Um bom exemplo é o M-Pesa. Graças à digitalização, conseguimos dar acesso a serviços financeiros a mais de oito milhões de pessoas que, antes, estavam excluídas do sistema bancário formal. Isto mostra o impacto transformador da tecnologia quando colocada no centro dos serviços.
“Um dos maiores obstáculos para startups é o custo de servidores e a impossibilidade de armazenar determinados tipos de dados fora do País. Com o nosso centro de dados e os serviços de cloud que estamos a lançar, vamos criar capacidade local”
Mas para que esta mudança tenha efeitos profundos, é necessário um compromisso firme do Governo em incorporar a digitalização em todos os seus processos: digitalizar serviços públicos, permitir pagamentos electrónicos, usar soluções tecnológicas em todas as interacções com o cidadão. Só assim será possível garantir uma transformação real e abrangente. É preciso garantir que existe um sistema de identificação fiável, que os pagamentos do Estado são digitais, que as repartições públicas estão todas digitalizadas e interligadas na mesma plataforma. E o Governo tem de assumir a liderança. Muitos países africanos já fizeram esta transição e estão a crescer de forma acelerada. É preciso começar agora, para colher os benefícios daqui a três ou quatro anos.

Como vê a criação do novo Ministério dedicado à área digital, liderado pelo ministro Américo Muchanga, que é reconhecido pela sua ligação às tecnologias?
É um passo na direcção certa. Ter um Ministério autónomo e focado nesta agenda é crucial. Contudo, a transformação digital é complexa e exige começar já a implementar projectos concretos, construídos sobre os alicerces existentes, em vez de reinventar tudo.
Um dos pontos-chave é a criação de um sistema nacional de identidade digital, que permita ao Estado oferecer serviços de forma segura e fiável. Outro é o estabelecimento de uma plataforma de pagamentos electrónicos do Governo, para que empresas e cidadãos possam realizar transacções digitais com o Executivo. Por fim, é essencial expandir a conectividade em todo o País.
Hoje, cerca de 70% do território dispõe de rede de transmissão adequada, mas ainda há 30% por cobrir. A meta de “Internet para todos até 2030” é ambiciosa e só será possível através de parcerias público-privadas robustas. Se o Governo se concentrar nestes três pilares (identidade digital, pagamentos electrónicos e conectividade universal) criará as bases para uma digitalização plena e sustentável.
Há dez anos, falaríamos apenas de Internet e telecomunicações. Hoje, uma empresa como a Vodacom é também uma firma tecnológica, com centros de dados e soluções digitais. Apesar das mudanças na estratégia de actuação, a sociedade ainda vê a Vodacom apenas como uma operadora de telecomunicações?
Sim, este é um dos desafios. Historicamente, as pessoas associam-nos aos serviços de chamadas e dados e é natural que esta seja uma imagem resistente ainda. Mas também é verdade que, como empresa, ainda estamos a começar a comunicar de forma mais eficaz toda a variedade de soluções tecnológicas que hoje criamos e oferecemos. Isto significa também ajustarmos a nossa narrativa para a nossa realidade actual. Esta é uma prioridade minha e da minha equipa mudar esta percepção e mostrar que a Vodacom é muito mais do que um provedor de voz e Internet: é o parceiro nacional de digitalização.
Além do M-Pesa, a Vodacom desenvolve serviços de nicho, que ainda não atingiram a mesma dimensão, pois são mais direccionados para empresas e organizações. Embora o M-Pesa tenha 8,5 milhões de clientes e seja reconhecido como um provedor de serviços financeiros, a percepção pública sobre os outros serviços que oferecemos ainda não se alterou.
Que iniciativas é que a Vodacom está a desenvolver para mostrar a transformação de operadora de telecomunicações para empresa de tecnologia em Moçambique?
A nossa estratégia para nos tornarmos uma empresa de tecnologia começou hásensivelmente dezanos. Estamos a investir para alcançar este objectivo e queremos desenvolver serviços que o público use no dia-a-dia. Consideramos importante por exemplo a parceria com o Governo em plataformas digitais como o e-Citizen.
Trata-se de uma plataforma digital que liga a identidade do cidadão aos seus pagamentos e a todos os serviços do Estado, e que deve ser acessível por aplicação móvel. Através do e-Citizen, os cidadãos podem solicitar diversos serviços governamentais num só local, como o registo civil, o pagamento da segurança social ou a emissão de licenças. Queremos criar respostas que podem ser alcançadas na ponta dos dedos dos moçambicanos para simplificar a forma que acedem aos serviços públicos e não so! Estamos a operacionalizar o conceito internet das coisas e replicar algo semelhante ao que existe na Estónia, nos Emiratos Árabes Unidos ou no Quénia, e desta forma mudar a forma como as pessoas vêem a empresa.

Qual é a visão da Vodacom para o futuro do M-Pesa em Moçambique e o seu papel na inclusão financeira e na digitalização de serviços?
O M-Pesa é uma plataforma digital que integra serviços para apoiar pequenos negócios, seguradoras e prestadores de crédito. Queremos complementar o que existe em termos de acesso seguro ao dinheiro e digitalizar os serviços associados, tornando-os acessíveis a um maior número de pessoas. Por exemplo, um florista pode usar a nossa base de clientes para expandir o seu negócio, e no sector de seguros trabalhamos com bancos para oferecer micro-seguros digitais.
“Queremos capacitar mais engenheiros e profissionais de tecnologias de informação moçambicanos, para que as soluções tecnológicas sejam criadas no País”
Apesar de Moçambique não ter uma infra-estrutura de suporte estável como a dos países ocidentais, o nosso trabalho é entusiasmante, porque nos desafia diariamente a encontrar soluções para resolver problemas operacionais, desde cortes de fibra até a falhas de energia. O nosso objectivo é garantir que os clientes estão sempre satisfeitos. Temos a capacidade e desejamos trazer para Moçambique soluções que já foram testadas noutros mercados, alicerçando nas lições de sucesso dos outros para planearmos o nosso futuro como país.
Já existe colaboração activa com o Governo para este projecto ou é apenas uma ideia?
Já estamos em conversações com o Governo. Partilhámos um blueprint (plano detalhado) sobre como o sistema poderia ser implementado e, naturalmente, terá de seguir o processo formal de contratação do Executivo. Mas o plano está desenhado.
A Vodacom tem experiência em modelos e-Citizen noutros países?
Sim. Já implementámos sistemas semelhantes no Quénia e no Egipto, que são mercados de grande dimensão para a Vodacom. Queremos trazer esta experiência para Moçambique e, em coordenação com o Governo, ir digitalizando os serviços gradualmente, um por um, utilizando os wireframes que já desenvolvemos noutros países para acelerar o processo.
O investimento em Afungi e em toda a região Norte tem um carácter estratégico para viabilizar os grandes projectos de gás no País?
Vemos o sector de petróleo e gás como estratégico para o País. Há cerca de oito anos começámos a investir em fibra óptica na região e instalámos uma estação de ancoragem de cabos submarinos em Nacala, província de Nampula, garantindo redundância e conectividade directa com a Europa e as Américas.
Mesmo durante a insurgência, em que perdemos cerca de 53 torres, fomos os primeiros a repor a rede. Hoje temos fibra até Pundanhar, perto da fronteira com a Tanzânia, e conectividade transfronteiriça que garante resiliência adicional. Também somos responsáveis pela rede privada das plataformas de LNG flutuante.
Tendo um ano e meio de mandato restante neste cargo, quais são as suas prioridades?
A primeira prioridade é a cobertura de rede. Quero garantir a construção da base necessária para atingir 95% de cobertura de rede ao País. Entretanto, reconheço que a infra-estrutura existente no país pode ser optimizada Em Maputo, por exemplo, há locais com três torres – uma de cada operadora – na mesma zona, o que para mim poderia ser evitado através da partilha de torres entre as operadoras. Assim, haveria investimento para instalar torres em áreas onde ainda não existem.
A partilha de infra-estruturas (torres ou fibra) precisa de ser expandida. Criámos uma empresa de torres para construir novas estruturas e convidar os concorrentes a partilhá-las. Isto reduz custos e permite levar o serviço a mais pessoas a preços mais acessíveis. Outra prioridade é desenvolver serviços de cloud. Um dos maiores obstáculos para startups é o custo de servidores e a impossibilidade de armazenar determinados tipos de dados fora do País devido às leis de protecção de dados. Com o nosso centro de dados e os serviços de cloud que estamos a lançar, vamos criar capacidade local para estas empresas crescerem.
Por fim, é fundamental investir na capacitação digital. Queremos formar mais engenheiros e técnicos profissionais de tecnologias de informação moçambicanos, para que as soluções tecnológicas sejam criadas no País e para o País. Isto está associado ao nosso programa TechStart, que visa formar um milhão de pessoas em toda a África, através de uma plataforma online com cursos gratuitos.
Moçambique tem jovens que se destacam internacionalmente em programação e tecnologia. Vocês apoiam este talento?
Sim. Temos iniciativas como o Hackfest e o programa Puxap, que apoiam startups tecnológicas e ajudam a integrá-las nas nossas plataformas. No entanto, precisamos de escalar estas iniciativas. Notamos que muitas pessoas que formamos acabam por ir trabalhar para outras empresas mostrando que estes talentos são necessários por isso, temos de formar um pool de talentos para este pais e a Vodacom esta aberta para o efeito.

De há alguns anos a esta parte, Moçambique enfrenta uma sucessão de desafios políticos, sociais e até económicos. A Vodacom ainda vê potencial de crescimento perante os diferentes tipos de adversidades?
A economia de Moçambique cresceu menos do que o esperado. Mesmo assim, acredito no seu potencial único, que resulta de vários factores. Um deles é a população jovem (65% dos moçambicanos têm menos de 25 anos). Para o sector das telecomunicações, isto representa uma geração de futuros consumidores, essencial para o desenvolvimento económico.
Outro factor importante são as vastas reservas de gás natural. Moçambique é um dos países com as maiores reservas do mundo e o Governo está comprometido com a sua exploração sustentável. A extensa linha costeira, uma das maiores da África Austral, também representa um potencial para os serviços portuários, para a logística e para o turismo. O sector agrícola, com terras férteis, pode, igualmente, desempenhar um papel na segurança alimentar regional.
Apesar dos recentes desafios, estou confiante num futuro promissor. Mas é essencial reforçar a governação, garantir a responsabilização, atrair investimento e melhorar o ambiente de negócios. É também crucial investir na educação, para que a juventude se torne um recurso estratégico. Nos próximos cinco anos, prevejo um crescimento transformador, impulsionado pelo gás, pelo petróleo e pela expansão do sector digital, com as telecomunicações a desempenharem um papel central.
Texto: Pedro Cativelos • Fotografia: Mariano Silva & D.R.


















































