A inovação digital começa, muitas vezes, com uma ideia radical. Pode ser uma nova forma de armazenar e processar informação, um novo modelo de negócio ou um novo serviço. Mas a ideia é apenas o início: perceber os benefícios da inovação exige trabalho árduo, investimento q. b. e adopção por parte dos utilizadores.
A inovação disruptiva tem sido a palavra de ordem no sector financeiro na última década. Surgiram novas empresas de tecnologia financeira (fintechs), as grandes plataformas digitais (big techs) estão a oferecer serviços de pagamento e crédito, os criptoactivos e as stablecoins estão a crescer em valor e muitas instituições estão a adoptar a inteligência artificial. Cada uma delas está a desafiar os intermediários financeiros tradicionais, como os bancos, as companhias de seguros e os gestores de activos, e os serviços que prestam (Ben Naceur et al., 2023).
As inovações digitais podem complementar e substituir os serviços no sistema financeiro tradicional. Muitos serviços parecem oferecer uma alternativa sólida aos intermediários e serviços existentes a curto prazo. Mas, a médio prazo, complementam frequentemente os serviços existentes, conduzindo a uma concorrência ainda maior e a um sistema financeiro mais diversificado. Ainda assim, as inovações nem sempre conduzem aos melhores resultados por si só: as coisas podem correr mal, e correm frequentemente. Aproveitar os benefícios da inovação digital exige, muitas vezes, políticas públicas com visão de futuro.
Disrupção nos pagamentos
Os pagamentos são a porta de entrada para os serviços financeiros. Para os particulares, uma conta à ordem é, normalmente, um pré-requisito para aceder ao crédito, contratar um seguro ou começar a poupar e investir. Para os caloiros do sistema financeiro, como as fintechs e as big techs, é comum começar por lidar com pagamentos e depois ramificar para outras áreas das finanças.
Na última década, a forma como pagamos mudou drasticamente, com os chamados sistemas de pagamento rápido ou instantâneo a arrancarem em muitos países, especialmente nos mercados emergentes (ver gráfico). Permitem transferências em tempo real (ou quase em tempo real) entre utilizadores finais (Frost et al., 2024). Pagamentos rápidos, 24 horas por dia, 7 dias por semana, são fornecidos por fintechs, big techs e bancos existentes. Utilizam aplicações para smartphones e códigos de resposta rápida (QR), operando até em telefones de tecnologia mais simples. De um modo geral, permitem que as empresas disruptivas prestem serviços que concorrem directamente com as tradicionais. Os casos de sucesso mais conhecidos provêm de infra-estruturas públicas, como sistemas operados ou supervisionados por bancos centrais. No Brasil, por exemplo, o banco central lançou o seu sistema de pagamento rápido Pix em Novembro de 2020. Actualmente, mais de 90% dos adultos brasileiros utilizam o serviço para pagamentos diários no retalho, como alimentação ou viagens, e até para pagamentos recorrentes, como contas de serviços públicos. Na Índia, a Interface Unificada de Pagamentos (UPI) — operada pela Corporação Nacional de Pagamentos da Índia e regulada pelo banco central — promove serviços de bancos tradicionais, fintechs e big techs numa única plataforma. Sucessos semelhantes incluem o PromptPay da Tailândia, que é gerido de forma privada, mas com um papel fundamental para o banco central, e o SINPE Móvil da Costa Rica, operado também pelo respectivo banco central.
“Novas ideias radicais são necessárias, mas podem não ser suficientes. São também necessárias infra-estruturas, regulamentação sólida e experimentação”
Estas infra-estruturas públicas bem-sucedidas contrastam com a situação em muitas economias, onde existem múltiplos sistemas de pagamento rápido do sector privado, inacessíveis aos utilizadores de outras instituições financeiras. Por exemplo, nos EUA, alguém que utiliza apenas o Venmo não pode pagar a quem utiliza apenas o Zelle. Estes “jardins amuralhados”, como se designam na gíria, têm surgido também na China, com carteiras concorrentes como a Alipay e a WeChat Pay, e no Peru, onde as carteiras Yape e Plin competem pelos utilizadores (ver Aurazo e Gasmi 2024). No caso da China e do Peru, a intervenção política foi necessária para tornar os sistemas de pagamento interoperáveis.
Muitas vezes, o que começa como um substituto (fintechs e grandes empresas tecnológicas) pode complementar os serviços existentes que operam no mesmo mercado. Os utilizadores obtêm pagamentos mais baratos e mais rápidos, o que também pode apoiar a resiliência financeira e promover um maior crescimento económico. Os disruptores — e as políticas públicas — ajudam a melhorar o sistema, a servir novos clientes, a oferecer novos serviços no mesmo mercado e a pressionar as empresas tradicionais a melhorar as suas ofertas.
Uma metamorfose do crédito digital
Além dos pagamentos, surge a necessidade de contrair empréstimos. As empresas precisam de crédito para fazer investimentos produtivos, e as pessoas precisam dele para comprar uma casa, um carro ou pagar a educação. Nos primeiros tempos da revolução das fintech, parecia que as novas plataformas de empréstimo poderiam acabar por substituir muitas funções dos bancos. O crowdlending e outras novas plataformas de crédito cresceram rapidamente, utilizando frequentemente dados alternativos para a pontuação de crédito e ligando os mutuários e os credores em processos digitais simplificados. Isto foi logo ofuscado por novos empréstimos de grandes fornecedores de tecnologia, como os empréstimos comerciais da Amazon nos EUA e da Alibaba na China. O volume de crédito para grandes empresas tecnológicas cresceu rapidamente (Cornelli et al., 2023).
Estas novas plataformas reduziram as lacunas nos mercados de crédito e aumentaram a inclusão financeira. Na Argentina, por exemplo, o Mercado Pago interveio para apoiar os pequenos comerciantes rejeitados pelos bancos. Na China, o crédito das grandes empresas tecnológicas tem sido menos sensível aos preços dos imóveis do que o crédito bancário, reduzindo potencialmente a importância das garantias. Nos EUA, as fintechs que financiam pequenas empresas têm como alvo áreas com elevado desemprego e falências, onde os bancos são menos propensos a emprestar. No geral, o impacto das fintechs e das grandes empresas tecnológicas varia amplamente de país para país.
Mas os bancos continuam em alta, competindo agora com um novo conjunto de intermediários. Mudaram os seus modelos de negócio para se parecerem mais com plataformas e utilizarem dados alternativos. Por outro lado, muitos concorrentes, como a Revolut do Reino Unido e o Nubank do Brasil, obtiveram licenças e tornaram-se bancos.
Criptomoedas e DeFi
Enquanto as grandes empresas tecnológicas desafiam as instituições financeiras tradicionais no seu próprio jogo, os criptoactivos e as finanças descentralizadas (DeFi) prometem reinventar as finanças, com base na confiança nos códigos e não nas instituições. A adopção global de criptomoedas está novamente em ascensão, apesar do seu longo historial de volatilidade, principalmente para fins de investimento especulativo, mas também graças ao apoio político a estes activos, nalguns países. As stablecoins, que ligam o seu valor às moedas fiduciárias que as criptomoedas supostamente desafiavam, surgiram como uma alternativa. As maiores stablecoins são emitidas por entidades centralizadas que detêm activos como letras do Tesouro dos EUA e depósitos bancários para as suportar. Mas mesmo com estes novos intermediários e com a crescente presença de stablecoins, o sector cripto continua repleto de riscos, incluindo fraudes generalizadas, burlas, branqueamento de capitais e financiamento do terrorismo.
As criptomoedas e as stablecoins oferecem um vislumbre de funcionalidades que podem ter uma aplicabilidade mais ampla. Por exemplo, a programabilidade e a tokenização poderiam melhorar as funções existentes e permitir novas funções dentro do sistema monetário, com base nos bancos centrais, no núcleo e na interacção dos bancos comerciais com os clientes. Nos pagamentos internacionais, por exemplo, a tokenização poderia voltar a ligar o sistema bancário correspondente, permitindo mensagens, reconciliação e transferência de activos numa única acção. Novas funções, como a liquidação simultânea (“atómica”) e a gestão melhorada das garantias, poderão melhorar drasticamente o funcionamento dos mercados de capitais. Estas funções poderão lançar as bases para um futuro sistema financeiro tokenizado.
Políticas públicas para orientar a inovação
Estas inovações radicais mudaram significativamente o sistema financeiro na última década. As políticas públicas com visão de futuro permitiram alguns dos maiores e mais importantes avanços.
A inovação pode ser inebriante, mas há que estar atento: estão a surgir riscos importantes a partir da inovação, que podem corroer a estabilidade financeira. Por exemplo, os choques no sector das criptomoedas podem alastrar para o sistema financeiro tradicional, representando, potencialmente, até riscos para o mercado de obrigações do Tesouro dos EUA (ver Ahmed e Aldasoro 2025).
Para aproveitar o potencial da inovação e mitigar os riscos, novas ideias radicais são necessárias, mas podem não ser suficientes. São também necessárias infra-estruturas públicas, uma regulamentação sólida e experimentação prática nos sectores público e privado para gerar novos conhecimentos e informar o investimento privado e as políticas públicas. Por último, os sectores público e privado precisam de se coordenar para direccionar as tecnologias digitais para aplicações que beneficiem verdadeiramente as pessoas e as empresas e estabeleçam uma base sólida para a prosperidade.























































