Para contexto dos leitores, iniciei a escrita deste artigo no meio dos EUA, dentro de um avião, a mais de 25 mil pés de altitude, e onde, ao contrário do que seria imaginável há pouco tempo, tenho acesso total a conteúdos digitais seja através de um serviço de Internet bastante estável, seja através de uma plataforma de streaming disponibilizada pela companhia aérea em que viajo.
Apesar do interesse pessoal e profissional que tenho no tema, decidi procurar uma fonte de inspiração ficcionada que me ajude a dar o pontapé de saída e, já agora, a tornar a minha viagem até ao destino mais curta. Como tal, acedi à tal plataforma de streaming e rapidamente dei por mim a ver a mais recente odisseia de Missão Impossível.
Naturalmente, não posso deixar de confessar que sou um grande fã das mais variadas cenas de acção que o actor protagoniza sem qualquer duplo em todos os filmes da saga, mas, neste caso, pedindo já perdão ao leitor por qualquer spoiler, o argumento do filme centra-se (de forma ficcionada, claro) em questões muito actuais e ligadas ao tópico em discussão: utilização de inteligência artificial, acesso indevido a dados e sistemas e um centro de dados hiper resiliente e limitadamente conectado à rede, que serve de salvação à destruição do mundo.
Actualmente, já não existem dúvidas de que os centros de dados e as plataformas de cloud tornaram-se numa espinha dorsal invisível das empresas modernas. O que antes era uma opção tecnológica, hoje tornou-se uma ferramenta fulcral que viabiliza serviços digitais, permite às organizações iniciarem ou escalarem de forma flexível, assim como oferecer ciclos de desenvolvimento de aplicações e serviços com uma velocidade sem precedentes.
“As empresas e Governos que entendem as vantagens e abraçam a transformação utilizando a cloud tendem a ser mais eficientes e ágeis na adaptação às mudanças do mercado e a capturar vantagens do ponto de vista macroeconómico”
Para os directores de sistemas de informação e líderes digitais, a cloud tem sido sinónimo de:
- Rapidez: soluções e infra-estruturas inteiras podem ser redesenhadas em semanas em vez de anos.
- Escalabilidade: possibilidade de expandir ou reduzir capacidade de computação conforme as necessidades, sem interrupções ou desperdícios de recursos.
- Agilidade: respostas rápidas às exigências do mercado, permitindo ciclos de desenvolvimento acelerados e inovação contínua.
- Flexibilidade: acesso a aplicações e dados a partir de qualquer lugar, a qualquer hora, facilitando modelos de trabalho remoto e colaboração global.
- Confiabilidade: alta disponibilidade garantida por centros de dados redundantes, com mecanismos eficazes de backup e recuperação de desastres.
- Desempenho: infra-estrutura sempre actualizada e optimizada, oferecendo desempenho superior de TI com actualizações e melhorias automáticas constantes.
- Eficiência de custos: redução de custos operacionais e de manutenção de hardware, graças ao modelo de pagamento conforme o consumo e a utilização.
Esta realidade é validada por diferentes estudos, como um, da Gartner, que indica que, até final deste ano, 85% das organizações mundiais terão integrado serviços cloud nas suas actividades essenciais, reflectindo o reconhecimento geral das vantagens.
Mas no contexto actual (de transformação global, com reconfiguração geopolítica), estes tópicos já não são apenas uma prioridade de agenda para directores de sistemas de informação ou administradores responsáveis, mas sim para um conjunto mais alargado de intervenientes, desde líderes organizacionais a Governos.
A agilidade continua a ser um vector, mas já não basta. Governos, reguladores e cidadãos levantam questões cada vez mais incisivas sobre soberania e dependência digital: quem controla a infra-estrutura que aloja dados críticos? Onde é que a informação está armazenada? Que legislação rege o seu acesso? Numa era em que as disputas geopolíticas se estendem ao ciberespaço e em que a privacidade é uma exigência central dos consumidores, estas questões não são teóricas, mas determinam decisões reais de investimento, influenciam onde são construídos os grandes de centros de dados e moldam a própria arquitectura da Internet global.
Este artigo pretende explorar brevemente um dos desafios mais complexos da era digital: a convergência entre centros de dados (datacenters), computação à distância (cloud computing) e soberania de dados. A transformação digital e a cloud são hoje dois conceitos indissociáveis num contexto de economia global. Os centros de dados são a representação física da cloud. O que antes eram simples salas de servidores, hoje representam ecossistemas tecnológicos sofisticados e interligados, centros de processamentos que suportam uma vasta gama de serviços (desde aplicações de consumo até muitas outras).
Trata-se de uma infra-estrutura crítica para empresas e Governos, com resiliência robusta pela sua capacidade de alojamento e armazenamento em múltiplas localizações. São, cada vez mais, autênticas fornalhas de processamento de algoritmos de inteligência artificial que requerem capacidades de processamento muito elevadas.
Existem estimativas para todos os gostos quanto ao valor do mercado global de centros de dados. A mais recente, da Grand View Research, atribui-lhe aproximadamente 384 mil milhões de USD e uma perspectiva de crescimento até 652 mil milhões até 2030. Se olharmos para outras estimativas ligadas às necessidades de investimento no sector, geradas pelo crescimento exponencial da inteligência artificial, as estimativas sobem consideravelmente e agregam, além de hardware, outras necessidades como a infra-estrutura de produção eléctrica.

Fazendo um paralelismo do conceito com o sector industrial, os datacenters e a cloud representam um conjunto de fábricas que se encontram interligadas por uma cadeia logística que deve ser resiliente. Aprofundando simplificadamente esta analogia, a afinidade torna-se ainda mais engraçada. Vejamos:
No sector industrial, transformamos matéria-prima em produtos, e a competitividade e eficiência dependem de linhas de produção e/ou transformação e de uma logística fabril que devem maximizar o OEE ou Overall Equipmement Effectiveness (disponibilidade x desempenho x qualidade), e de uma cadeia logística de entrega bem orquestrada e preparada para entregar a tempo e horas o produto no destino e fornecer informação sobre necessidades futuras.
Olhando para os datacenters e cloud, o que temos é um OEE digital, sendo que a disponibilidade se mede em uptime/SLA (tempo de actividade/acordo de nível de serviço) das regiões e serviços, no desempenho na entrega de informação, no tempo de treino de IA, latência e a qualidade nos erros ou falhas em aplicações, redes, etc. A logística fabril é representada por arquitecturas de energia e rede que são exigidas para alimentar todas as unidades de processamento e armazenamento, e o transporte e tempo de espera são representados pela latência entre regiões/ zonas.
Poderíamos continuar a adicionar similaridades, mas indo ao encontro do fundamental, tal como na industrialização, a adopção de cloud computing é mais do que uma decisão tecnológica, é um imperativo estratégico para a competitividade empresarial e nacional. As empresas e Governos que entendem as vantagens e abraçam a transformação utilizando a cloud tendem a ser mais eficientes e ágeis na adaptação às mudanças do mercado e a capturar vantagens do ponto de vista macroeconómico.
No entanto, conforme já referido, apesar das muitas vantagens que advêm da utilização da cloud, cada vez mais emergem preocupações de soberania digital, tanto pela exigência do ponto de vista de cibersegurança e da preocupação crescente dos cidadãos sobre o tratamento dos seus dados, como, principalmente, pelo contexto geopolítico actual. (Continua na próxima edição).


























































