Antes de a presidência rotativa do G20 passar para os EUA, a África do Sul vai tentar alcançar, em Novembro, uma Declaração de Líderes para promoção do desenvolvimento do Sul global – apesar das tensões entre Pretória e Washington.
A cimeira do G20, agendada para os dias 22 e 23 de Novembro, em Joanesburgo, África do Sul, é aguardada como um momento decisivo para a inserção africana nos grandes debates económicos e políticos mundiais. Pela primeira vez, a África do Sul acolhe a reunião de chefes de Estado e de Governo deste grupo de países desenvolvidos e emergentes, coincidindo com a presidência rotativa de Pretória.
O Presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, definiu como principal objectivo da sua liderança a aprovação de uma ambiciosa Declaração de Líderes, orientada para a promoção da agenda de desenvolvimento do Sul Global e, em particular, do continente africano. A iniciativa, explicou recentemente perante o Parlamento sul-africano, deverá reflectir a urgência de reformar a arquitectura financeira internacional e o sistema multilateral de comércio, com especial atenção para o reforço dos bancos multilaterais de desenvolvimento.
Apesar de reconhecer a existência de divergências naturais num fórum que reúne economias tão distintas, Ramaphosa destacou o “forte apoio” que as prioridades africanas têm encontrado entre os membros do G20. As reuniões preparatórias já realizadas permitiram discutir “alguns dos desafios mais urgentes e importantes” da comunidade internacional, sinal de que a presidência sul-africana está empenhada em encontrar “soluções sustentáveis e inovadoras” através do diálogo e da cooperação.
Trump ausente, JD Vance presente
A participação norte-americana tem gerado atenção mediática, face às recentes tensões. O Presidente Donald Trump confirmou que não estará presente em Joanesburgo, delegando a representação no seu vice-presidente, J.D. Vance. A decisão ocorre num contexto de relações tensas entre Washington e Pretória, marcado pela imposição de tarifas de 30% sobre produtos sul-africanos e pela suspensão da ajuda económica dos Estados Unidos, decretada em Fevereiro. Estas medidas foram justificadas pela Casa Branca com críticas à política agrária do Governo sul-africano e à sua posição crítica em relação a Israel perante a Corte Internacional de Justiça.
Mesmo reconhecendo divergências naturais entre economias tão distintas, Ramaphosa destacou o “forte apoio” que as prioridades africanas têm encontrado entre os membros do G20
Ainda assim, o ministro das Relações Internacionais, Ronald Lamola, acolheu com pragmatismo a nomeação de Vance, sublinhando que o essencial é assegurar que os Estados Unidos estejam representados e disponíveis para o diálogo. Para Pretória, a ausência de Trump não impedirá a obtenção de resultados “ambiciosos” na cimeira.
África e a negociaçãodos minerais críticos
Outro dos grandes eixos da presidência sul-africana será a questão dos minerais críticos, tema de importância estratégica para o futuro da economia global e da transição digital. Estima-se que 30% das reservas mundiais destes recursos se localizem em África.
Cobre, cobalto, coltan (mistura de columbita e tantalita), lítio e platina são matérias indispensáveis para baterias de veículos eléctricos, sistemas de inteligência artificial, componentes electrónicos e ecrãs de alta definição. A África do Sul detém, sozinha, 80% das reservas globais de platina.
Perante este panorama, Ramaphosa tem defendido que a exploração mineral não pode limitar-se a uma lógica extractiva, devendo traduzir-se em valor acrescentado local através da instalação de cadeias produtivas e de processamento em território africano. Em Davos, no início do ano, sintetizou essa visão como a construção de uma relação “aditiva, e não meramente extractiva.”
Atenção à corrida ao novo petróleo
Especialistas africanos têm alertado para os riscos de uma verdadeira “corrida aos minerais críticos”, em que a dependência tecnológica do continente face a grandes potências e multinacionais poderá fragilizar a sua posição negocial. A investigadora Noelle van der Waag-Cowling advertiu para a necessidade de África dispor de maior capacidade diplomática e técnica para garantir retornos justos das suas riquezas, propondo que os acordos de exploração sejam acompanhados de investimentos em infra-estruturas digitais e centros de dados.
A questão da cibersegurança também surge como prioridade. A digitalização da indústria mineira expõe cadeias de fornecimento a potenciais ataques informáticos, como recordou Gilbert Nyandeje, líder do Africa Cyber Defense Forum. Para ele, as grandes empresas tecnológicas têm não só a responsabilidade de assegurar a integridade dessas cadeias, mas também de se comprometer com uma relação mais equitativa com África.
No plano diplomático, cresce a ideia de que os países africanos devem apostar na formação de “embaixadores tecnológicos”, à semelhança do que já fazem países como a Dinamarca ou a França, para defender os seus interesses junto de empresas que, pela sua dimensão e influência, se equiparam hoje a actores estatais.

EUA vão receber presidência rotativa
A reunião de Joanesburgo, que antecede a presidência norte-americana em 2026 – já anunciada por Donald Trump para Miami, na Florida –, será, portanto, um palco decisivo. Não apenas para discutir a reforma do sistema económico global e a resposta às crises internacionais, mas também para afirmar a centralidade de África no futuro da economia digital e da transição energética.
Entre expectativas elevadas e tensões diplomáticas, a presidência sul-africana pretende deixar uma marca clara: a de um continente que não se limita a fornecer recursos, mas que exige ser parceiro activo e beneficiário directo da nova ordem tecnológica e económica em construção.
Texto: Redacção • Fotografia: D.R.


























































