Como pode Itália ajudar Moçambique a transformar o seu potencial em crescimento real e sustentável? O embaixador Gabriele Annis destaca investimentos estratégicos e uma parceria renovada.
Num contexto global marcado pela crescente interdependência, a cooperação internacional revela-se fundamental para o desenvolvimento sustentável. Moçambique e Itália, que este ano celebram 50 anos de relações diplomáticas, mantêm uma parceria estratégica que procura transformar o potencial do país africano em crescimento concreto.
Este momento, decisivo para Moçambique, conta com investimentos focados em sectores-chave e um esforço conjunto para criar condições que promovam emprego e progresso social, de acordo com o embaixador italiano em Moçambique, Gabriele Annis, que traça um perfil de cooperação “win-win” alicerçado na complementaridade entre os recursos naturais, a mão-de-obra local moçambicana e a capacidade tecnológica e financeira de Itália.
Nestes primeiros seis meses em Moçambique, como tem sido a sua experiência e que conhecimento já tinha do País antes de chegar?
Desde que fui nomeado para este cargo, em Julho do ano passado, comecei a informar-me de forma mais profunda sobre o País. Mas cada italiano tem algum conhecimento sobre Moçambique, devido, justamente, à relação muito especial que existe entre os dois países irmãos. Então, conhecimento sobre o País eu já tinha. Sabia, inclusive, que nos meses que separavam a minha nomeação da minha assunção do cargo, Moçambique atravessou uma fase de muita convulsão, na crise pós-eleitoral [Outubro de 2024]. Cheguei a 10 de Janeiro e a situação estava muito tensa. Mas vou dizer uma coisa: se alguém me tivesse alertado, quando cheguei, que as ruas estavam desertas – e estávamos a cinco dias da posse do presidente Daniel Chapo – eu teria assinado por baixo. Quer dizer, hoje, oito meses depois da minha chegada, Moçambique tomou o caminho do diálogo, da reconciliação e das reformas políticas e económicas. Ou seja, passámos por uma crise importante, mas o sistema moçambicano resistiu a esta crise, graças ao esforço de todos, desde o Governo até aos partidos da oposição parlamentar e extraparlamentar.
A avaliar pelo ambiente político, social e económico actual, qual é a sua percepção sobre a capacidade de Moçambique manter esta estabilidade?
Hoje, vemos que foi iniciado um diálogo político, foi assinado um compromisso pelo diálogo político inclusivo, que é algo que Itália e toda a União Europeia apoia, técnica e financeiramente. Os dois partidos políticos mais votados nas eleições de Outubro de 2024 já se encontraram duas vezes e mantêm diálogo. Logo, tudo parece caminhar para a estabilidade, e nós, que temos interesse na estabilidade como requisito para o crescimento do País, não podemos ficar descansados: temos de continuar a apoiar, e os moçambicanos podem ter a certeza de que, como sempre na sua história, não lhes faltará o apoio de Itália.
A nossa cooperação vai focar-se nos sectores agrícola, da energia, ambiente e turismo. Para fazer isso, temos os recursos do Plano Mattei para África, que é o plano do Governo italiano lançado em 2024
Moçambique e Itália mantêm uma relação de cooperação económica antiga e transversal, que este ano deve conhecer um novo impulso. Qual é a estratégia para os próximos anos?
Como sempre, nós vemos o imenso potencial deste país: tem recursos naturais, cerca de 2700 quilómetros de costa, terra fértil para agricultura. A nossa intenção é intensificar as nossas relações para levar para a frente projectos de cooperação que sejam sustentáveis e desenvolvam estes sectores estratégicos de Moçambique. A nossa cooperação vai focar-se nos sectores agrícola, da energia, das energias renováveis, do ambiente e do turismo. Para fazer isso, temos os recursos do Plano Mattei para África, plano do Governo italiano lançado em 2024 que define as novas linhas estratégicas da nossa cooperação com as nações países africanas. Neste plano, Moçambique é um dos países prioritários. Existe uma série de projectos no País que visam dinamizar a economia nos sectores a que já me referi, para depois pôr as bases de investimento italiano que possam trazer emprego e desenvolvimento. Sempre tivemos com os países africanos, e com Moçambique, em particular, uma filosofia de cooperação paritária, baseada na escuta às suas exigências para depois crescermos juntos. Itália é um país que não tem recursos, mas é exportador, transformador e investidor no exterior. Por outro lado, Moçambique detém muitos recursos, muita mão-de-obra e muitas outras potencialidades. Por isso, acredito que entre estes países há um casamento perfeito para ganhos mútuos. Recentemente, o “Sistema Itália” visitou Moçambique, liderado pelo secretário-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros e integrado por altos funcionários, incluindo o representante da primeira-ministra responsável pelo Plano Mattei. A comitiva, composta por cerca de 50 empresas, ONG e agências, apresentou projectos e actividades, colocando-se à disposição do Presidente da República, Daniel Chapo, para apoiar os novos projectos e reformas em curso.

Falou em sustentabilidade e numa forte aposta no digital. O que podemos esperar, na prática, dessas prioridades?
Nós tomámos nota, com muito interesse, de tudo o que o presidente Daniel Chapo disse no discurso de posse. Tomámos nota, inclusive, da prioridade da digitalização. Pela primeira vez, temos um ministro para a digitalização e estamos em coordenação com os nossos parceiros da UE e outros, para apoiar o que chamamos de “Digital Flagship”, que é um dos projectos estruturantes do Plano Mattei. O “Digital Flagship” baseia-se na escuta às necessidades, por isso, o ministro das Comunicações e Transformação Digital esclareceu muito bem os parceiros sobre as prioridades de Moçambique. Itália vai ficar com a parte dos pagamentos da Administração Pública e do “e-procurement”. Outros parceiros vão cuidar de outros temas, mas no sector digital é muito importante a coordenação, porque o sistema operativo tem de ser o mesmo, não pode ser incompatível e nem deve apresentar duplicações. É muito importante o papel do Governo moçambicano em colocar-nos a todos numa mesa para evitar falhas e o ministro Américo Muchanga está a fazer tudo isto muito bem.
Moçambique vive um momento decisivo para o seu desenvolvimento. Na sua visão, quais são as áreas prioritárias de cooperação com Itália? De que forma os investimentos podem acelerar o crescimento económico e melhorar as condições de vida da população?
Nas nossas interlocuções com o Governo moçambicano, ficou muito clara a prioridade do Executivo nestes primeiros meses, e até a urgência que o Governo tem de criar novos postos de trabalho. Deste modo, os grandes projectos têm de ser acompanhados por outros projectos, noutros sectores, que sejam de trabalho intensivo e, obviamente, um dos sectores é a agricultura. Moçambique tem o grande potencial para transformar a agricultura de subsistência em agricultura industrial e empresarial. Aqui temos muitas oportunidades de criação de emprego. É por isso que o maior investimento da cooperação italiana no País é a construção do centro agro-alimentar de Manica, no Chimoio. Trata-se de um projecto grande que está em andamento e que será dedicado à transformação e agregação de valor à produção agrícola de toda a província de Manica. A ele estão ligados outros projectos menores, noutras partes da província, na de Sofala, que vão criar cadeias de valor, infra-estrutura e emancipação das mulheres produtoras. A este respeito, o presidente do município de Chimoio, João Ferreira, anunciou que vai potenciar a pista do aeroporto de Chimoio para que possa receber aviões de carga, para levar a produção para outros cantos do País e, eventualmente, exportar para a região e para a Europa.

Como avalia o ambiente de negócios em Moçambique e que papel Itália, através de iniciativas como o Plano Mattei, pode desempenhar para apoiar as reformas e atrair mais empresas italianas?
A única forma de crescer e desenvolver verdadeiramente Moçambique é dinamizar a economia, criar um bom clima de negócios, facilitar a vida das empresas, desburocratizar e garantir a transparência no processo administrativo, o que significa, também, lutar contra a corrupção. Estes pontos estavam bem destacados no excelente discurso de posse do Presidente Chapo. O nosso desejo é que Moçambique alcance rapidamente esses objectivos, de forma a atrair mais empresas. As empresas italianas estão prontas para vir, muitas já estão presentes, mas há potencial para mais. A nossa mensagem para elas é que venham conhecer as oportunidades que o País oferece. Junto com o Governo de Moçambique, vamos organizar missões empresariais, inicialmente nos sectores agrícola, agro-industrial e de infra-estruturas. Serão duas missões separadas, previstas para 15 de Setembro e início do próximo ano. O trabalho conjunto é fundamental: através do Plano Mattei, trazemos as nossas empresas e o Governo, por sua vez, vai avançando com as reformas necessárias para criar um ambiente económico favorável e atractivo para os negócios.
O maior investimento da cooperação italiana no País é a construção do centro agro-alimentar de Manica, no Chimoio. Trata-se de um grande projecto que está em andamento
O turismo foi referido como um sector com potencial. De que forma Itália vê o seu desenvolvimento em Moçambique e que condições considera essenciais para que este cresça?
O turismo é um dos sectores que mais podem beneficiar de um bom clima de negócios e de melhor infra-estrutura. Moçambique é incrível do ponto de vista turístico e natural, com paisagens de tirar o fôlego, e um povo acolhedor, mas ainda enfrenta grandes desafios, como a falta de infra-estrutura, necessidade de melhorias no transporte aéreo e de um ambiente de negócios mais atractivo. Por isso, vemos o turismo como um sector para um segundo momento, quando estas condições estiverem mais consolidadas. A nossa ideia é trabalhar em paralelo com o Governo moçambicano: despertarmos o interesse das empresas italianas, enquanto o País avança nas reformas necessárias, para que, no momento certo, as oportunidades possam ser aproveitadas plenamente.
Moçambique e Itália celebram 50 anos de relações diplomáticas. Em que fase está hoje esta parceria e qual é a mensagem para o futuro?
Este ano celebramos 50 anos de relações, com uma programação cultural de alto nível para reforçar a presença de Itália no cenário cultural moçambicano. Ao longo deste tempo, fomos um dos principais interlocutores do País, presentes nos momentos mais difíceis, e Moçambique também tem sido um parceiro fiel para Itália no cenário internacional, incluindo nas Nações Unidas. Temos ainda uma comunidade italiana muito integrada, com cerca de 1000 registados nos consulados, embora o número real atinja, provavelmente, o dobro. Esta parceria não é um ponto de chegada, mas um ponto de partida para dar um salto de qualidade e torná-la num exemplo de cooperação paritária e respeitosa. As empresas italianas, quando chegam, integram-se de forma natural: empregam maioritariamente moçambicanos, adaptam-se ao contexto local e, muitas vezes, tornam-se empresas locais. No caso de Moçambique, isso acontece de forma intensa, e muitos italianos acabam por criar laços fortes no País.
Moçambique celebra, este ano, 50 anos de independência. Que mensagem gostaria de deixar a este respeito?
Cinquenta anos é, ao mesmo tempo, muito e pouco para um país jovem como Moçambique. É verdade que há muitos desafios por vencer, mas também é importante reconhecer o muito que já foi feito. Este é um momento para olhar com optimismo para o futuro. Reafirmamos que estaremos sempre ao lado de Moçambique, apoiando o seu desenvolvimento e confirmando-nos como um dos seus melhores amigos.

Texto: Pedro Cativelos • Fotografia: Mariano Silva & D.R.
























































