A invenção da Near Space Labs nos EUA mostra como poderão funcionar os seguros para reforçar a resiliência económica de regiões que estão na rota de desastres naturais.
Uma empresa inovadora (startup) chamada Near Space Labs, sediada em Nova Iorque, EUA, está a usar balões que sobem até à estratosfera com robôs que utilizam IA para mapear zonas cobertas por seguros e acelerar os pedidos de indemnização após desastres. São máquinas que sobem acima de 10 quilómetros, ou seja, para lá da altitude a que circulam os aviões comerciais.
Esta invenção responde a uma necessidade de um mercado onde circula muito dinheiro: todos os anos, a época dos furacões do oceano Atlântico leva tempestades catastróficas para os EUA e faz com que muitas pessoas e empresas procurem seguros sobre eventuais perdas.
Com a crise climática, os prémios estão em alta e já houve seguradoras a retirar-se de Estados considerados de alto risco, como a Florida. Resultado: os proprietários de imóveis e infra-estruturas perdem acesso a coberturas ou vêem os pagamentos negados com base em imagens desactualizadas ou de baixa resolução.
No portal Axios, a Near Space diz que, com o seu processo de recolha, guarda imagens nítidas de, por exemplo, novos telhados ou outras melhorias que os proprietários fizeram para se prepararem para desastres.
E em Moçambique?
Moçambique está também na rota anual dos ciclones do Índico, mas o mercado segurador ainda é incipiente, quando comparado com outras economias. Ainda assim, desde 2022 que têm sido dados passos para aliviar a pressão orçamental provocada pelos desastres e o Governo accionou uma “cobertura paramétrica” (ver caixa) após o ciclone Freddy, em 2023.
“As comunidades recebem os seus pagamentos mais rapidamente e a resiliência climática está intrinsecamente ligada à resiliência financeira”, defende a Near Space
Neste cenário, a Near Space Labs mostra como a IA – associada a outras tecnologias, como os balões estratosféricos – pode vir a ter um papel na definição de riscos e indemnizações de infra-estruturas económicas.

Uma solução que promete substituir os voos de “drones”
A Near Space constrói e implementa dispositivos autónomos com câmaras e sensores que captam todos os tipos de dados de áreas afectadas por desastres. As imagens e medições têm alta precisão e, como voam a mais de 10 quilómetros de altura, fazem mapeamentos de grandes áreas de forma mais económica do que aviões ou drones. E os balões podem ser lançados a longas distâncias, sem entrar em zonas inseguras.
A empresa diz que os robôs Swift podem ser montados em balões em aproximadamente 10 minutos e que o resto do processo é autónomo, anunciando uma cobertura de 80% da população continental dos Estados Unidos.
O Mecanismo de Financiamento de Seguros e Riscos, uma iniciativa do PNUD e parceiros, visa fortalecer as comunidades e sociedade civil contra ciclones e outros eventos
A Near Space afirma ainda que as seguradoras utilizam os dados recolhidos pelos robôs para avaliar o risco com precisão, permitindo que as comunidades recebam os seus pagamentos mais rapidamente. E a resiliência climática está intrinsecamente ligada à resiliência financeira.
Tecnologia implica riscos e levanta dúvidas Várias dúvidas prevalecem: será que o facto de terem melhores dados vai evitar que as seguradoras deixem mercados de alto risco desamparados? Será que as imagens de casas em alta resolução representam riscos para a privacidade? A Near Space diz que gere a informação recolhida seguindo as melhores práticas de protecção de dados — o que inclui uma selecção cuidadosa de parceiros. Haverá confiança? Para comunidades remotas e carenciadas, muitas vezes ignoradas pela vigilância por satélite ou aérea, poderá nem haver outras soluções.

Mais startups com vista privilegiada
- A Near Space foi fundada em Brooklyn, em 2017, e angariou mais de 40 milhões de dólares em financiamento. E não é caso único: outras startups estão a utilizar IA e imagens de alta definição ao serviço do sector dos seguros.
- A ZestyAI, empresa de análise de riscos climáticos e imobiliários com tecnologia de IA, lançada em 2021, trabalha com o sector segurador na Califórnia.
- A Arturo utiliza imagens aéreas e de satélite combinadas com IA para ajudar as seguradoras a reduzir custos.
- Embora não esteja directamente envolvida no sector dos seguros, a Sceye utiliza dirigíveis estratosféricos para rastrear eventos climáticos extremos, como incêndios florestais.
Agente de IA em estudo avançado
A Near Space diz que está a trabalhar com agentes de IA, uma espécie de aplicações autónomas inteligentes, para permitir que as seguradoras pesquisem as imagens de forma flexível. Por exemplo, poderão pedir a um agente para detectar todas as lonas colocadas nos telhados após um furacão — uma forma simples e rápida de ajudar grandes seguradoras a compreenderem a exposição a um desastre.
Passos dados em Moçambique
Em 2022, pela primeira vez no País, o Governo contratou serviços de seguro para Transferência de Risco Paramétrico contra Ciclones Tropicais e Precipitação, o que permitiu responder ao ciclone Freddy em Fevereiro de 2023. Estes seguros pagam com base em critérios predefinidos, como a intensidade do ciclone e a área afectada, em vez de avaliar os danos individualmente. Em Novembro de 2023, foi lançado, em Maputo, o Mecanismo de Financiamento de Seguros e Riscos, uma iniciativa do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e parceiros para o fortalecimento da resiliência contra ciclones e outros eventos.
Texto: Redacção • Fotografia: D.R.

























































