Decorreu nesta terça-feira, 26 de Agosto, o lançamento do CLM Express, serviço logístico do Corredor Logístico de Maputo (CLM), que marcou o início de um debate sobre o papel dos portos secos na transformação da cadeia logística no País. O encontro, realizado em Maputo, contou com a participação de governantes, representantes do sector privado e operadores logísticos, sublinhando a crescente importância destas infra-estruturas para a competitividade da economia.
Segundo a directora-geral da CLM, Ivânia da Fonseca, este serviço representa muito mais do que logística. “Cada encomenda que desembarca é também o transporte de sonhos e oportunidades. Democratizamos o acesso ao comércio internacional, dando a pequenos comerciantes a mesma dignidade que aos grandes importadores. Com o CLM Express, o círculo virtuoso do comércio pode multiplicar empregos, fortalecer cadeias produtivas e criar confiança no mercado moçambicano”, referiu a responsável.
Durante o painel denominado “O Papel dos Portos do Interior na Facilitação do Comércio no Nosso Pais”, na 60.ª edição da Feira Internacional de Maputo (FACIM), o Terminal Internacional Rodoviário de Marracuene (TIROMA), apresentado como modelo de porto seco moderno e integrado, foi destacado como exemplo concreto de como o País pode reduzir custos, ganhar eficiência e atrair mais investimentos. Operado pelo CLM, o TIROMA oferece serviços aduaneiros e capacidade de processamento de mercadorias que chegam de diferentes mercados internacionais, incluindo a China, garantindo a entrega em prazos curtos e com opções porta-a-porta.
Mudança de paradigma
O presidente da Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA), Álvaro Massingue, realçou, na ocasião, que os portos secos são peças centrais de uma nova visão logística. “O monopólio dos portos marítimos como única via de conectividade internacional já não responde às exigências actuais. Países como a Índia demonstraram que portos interiores bem geridos não só descongestionam as infra-estruturas costeiras, como também criam novos pólos económicos no interior. O TIROMA é um passo nesse sentido, ao reduzir o tempo de trânsito e facilitar o desembaraço aduaneiro fora dos portos marítimos”, afirmou.
O responsável defendeu ainda maior articulação entre políticas públicas e investimentos privados, sublinhando que “a logística deve deixar de ser um entrave e passar a ser um motor de crescimento económico inclusivo.”

Visão estratégica do Governo
O secretário de Estado do Pelouro dos Transportes, Chinguane Mabote, reforçou a importância de alinhar os portos secos com a estratégia nacional de transportes, lembrando que Moçambique é atravessado por corredores logísticos que ligam o oceano Índico à África Central e Austral. “Os corredores de Maputo, Beira e Nacala já não devem ser vistos apenas como vias de transporte, mas como corredores de desenvolvimento. Os portos secos são extensões naturais dos portos marítimos, permitindo resolver gargalos e criar maior previsibilidade para os investidores”, declarou.
O governante defendeu que o Estado deve assumir-se como facilitador do processo, deixando espaço para o sector privado ser o verdadeiro motor de desenvolvimento: “O papel do Governo é garantir um quadro regulatório transparente e eficiente, que permita aos operadores logísticos desempenhar o seu papel sem entraves burocráticos.”
Moçambique no mapa global
Clávio Macuacua, especialista em logística global e chairman do CLM, explicou que os portos secos diferem dos portos marítimos pela sua função complementar: “Enquanto os portos marítimos se dedicam ao embarque e desembarque de mercadorias, os portos secos garantem armazenagem, consolidação e ligação entre diferentes meios de transporte. São pontos centrais do transporte multimodal e instrumentos estratégicos para a integração de Moçambique nas cadeias globais de valor.”
O debate contou também com a participação de Hilénio Truzão, administrador da Civitas, que destacou a importância dos portos secos para dinamizar a cabotagem (o transporte marítimo entre portos nacionais). “A consolidação de cargas no interior reduz o número de camiões em circulação, aumenta a economia de escala e assegura que os portos costeiros se concentrem na operação marítima, enquanto os processos burocráticos e alfandegários são tratados no interior. Este modelo, já aplicado com sucesso no Brasil, mostra que portos secos podem ser determinantes para ligar a produção agrícola, mineral e industrial do interior aos mercados internacionais”, afirmou.
O responsável acrescentou que a experiência da Civitas mostra que soluções multimodais (combinação do transporte rodoviário, ferroviário e marítimo) são fundamentais para reduzir custos e melhorar a eficiência logística de Moçambique.
Para os intervenientes, a criação de infra-estruturas como o TIROMA responde a desafios estruturais de longa data, incluindo os elevados custos logísticos, a falta de interoperabilidade entre sistemas e o congestionamento dos principais portos nacionais. A aposta em soluções modernas, sustentáveis e integradas permitirá ao País assumir um papel mais activo na região austral de África e nos mercados internacionais.
Texto: Nário Sixpene



























































