A economia moçambicana entrou oficialmente em recessão técnica, após dois trimestres consecutivos de contracção homóloga do Produto Interno Bruto (PIB): uma queda de 4,9% no quarto trimestre de 2024 e de 3,9% no primeiro trimestre de 2025. Esta configuração cumpre o critério clássico de recessão técnica, caracterizada por dois trimestres seguidos de “crescimento negativo”. Importa, no entanto, distinguir entre recessão técnica e recessão económica: a primeira é, sobretudo, um fenómeno estatístico e de curto prazo; a segunda é um declínio mais profundo e prolongado da actividade económica, com impactos significativos no emprego, no rendimento e nas condições sociais e institucionais.
Este fenómeno não é exclusivo de Moçambique. A Alemanha, por exemplo, a maior economia europeia, entrou em recessão técnica no início de 2023, com contracções de 0,5% e 0,3% no quarto trimestre de 2022 e no primeiro trimestre de 2023, respectivamente. As causas incluíram a redução no consumo interno, o aumento dos custos energéticos e disrupções nas cadeias de abastecimento globais. Apesar da sua estrutura económica robusta, o país enfrentou um período de estagnação com repercussões na zona euro.
No contexto da África Subsaariana, destaca-se o caso da Nigéria, que entrou em recessão técnica em 2020, na sequência do colapso dos preços do petróleo e dos efeitos económicos da pandemia de covid-19. O PIB nigeriano caiu 6,1% no segundo trimestre e 3,6% no terceiro trimestre de 2020. Apesar da recuperação impulsionada pela retoma gradual das exportações de crude, a economia do país continua a enfrentar desafios estruturais, como a fraca diversificação produtiva e a instabilidade cambial.
Em Moçambique, os sinais da recessão técnica são um reflexo da contracção económica resultante das manifestações que ocorreram após as eleições de Outubro de 2024, mas também de uma combinação de choques externos, fragilidades internas e desequilíbrios estruturais. O sector secundário foi o mais afectado, com uma contracção acentuada na indústria e na construção. O sector terciário seguiu a mesma tendência, com destaque para os serviços de comércio, hotelaria e transportes, reflexo da retracção do consumo privado e da debilidade do turismo. Em contrapartida, o sector primário registou um crescimento moderado, ainda que insuficiente para compensar o declínio dos restantes sectores, devido ao seu peso relativamente reduzido na estrutura económica.
A saída da recessão técnica e a prevenção de uma recessão económica mais profunda dependerá de reformas estruturais, de um ambiente político estável e de instituições económicas eficazes.
Pela óptica da despesa, o cenário também é preocupante. O consumo privado caiu mais de 7%, pressionado pela perda do poder de compra associada à inflação e ao aumento do desemprego. O consumo público teve um crescimento modesto, condicionado por restrições orçamentais. A Formação Bruta de Capital Fixo aumentou de forma significativa, mas concentrada em projectos de longa duração, com efeitos limitados no curto prazo. O défice comercial agravou-se, devido à redução das exportações e ao aumento das importações, o que expõe a vulnerabilidade da economia.
A instabilidade política resultante das tensões pós-eleitorais contribuiu para o enfraquecimento da confiança dos agentes económicos e, consequentemente, para a desaceleração da actividade económica. Adicionalmente, a insegurança persistente em Cabo Delgado continua a atrasar o arranque de projectos estratégicos na indústria extractiva, como o megaprojecto de GNL da Área 1, o que adia, ainda mais, as expectativas de um relançamento económico sustentado.
Perante este cenário, a recuperação económica exigirá uma estratégia coordenada e pragmática. A margem de manobra interna é limitada pela elevada dívida pública e pela frágil base tributária, sendo, por isso, essencial mobilizar recursos externos e fortalecer a cooperação com parceiros multilaterais. A saída da recessão técnica e a prevenção de uma recessão económica mais profunda dependerá de reformas estruturais, de um ambiente político estável e de instituições económicas eficazes. A confiança na economia moçambicana passará pela previsibilidade das políticas públicas, pela transparência na gestão dos recursos e pelo reforço da capacidade do Estado para responder, de forma célere e coordenada, aos desafios emergentes.


























































