O BCI deu, recentemente, um passo estratégico ao criar uma Direcção de Sustentabilidade, reafirmando o seu compromisso com uma gestão bancária mais responsável e alinhada com os desafios ambientais, sociais e de governança (ESG).
A integração dos critérios ESG está, nos últimos anos, a transformar profundamente o sector financeiro mundial, impondo mudanças operacionais, regulatórias e estratégicas no qual os bancos deixam de ser apenas instituições financeiras para se tornarem agentes activos da transição sustentável, alinhando as suas operações com metas ambientais e sociais e condicionando o financiamento à adopção de boas práticas.
As exigências regulatórias da UE — como o Pilar 3 e indicadores como o Green Asset Ratio — aceleraram essa transformação, e começam a ser bastante comuns alguns produtos directamente associados à sustentabilidade, como green bonds e empréstimos indexados a metas ESG, entre outros. E ao passo que a banca se torna cada vez mais digital e orientada pela big data, reforça a sua governança com foco na diversidade, integridade e transparência, consolidando o ESG como pilar estratégico irreversível.
E esta é uma tendência que começa, também, a chegar a Moçambique. Numa entrevista à Revista E&M, José Alberto Gamito, que lidera a recém-criada Direcção de Sustentabilidade do BCI, aborda precisamente esta transformação em curso no banco, deixando bem claro que este novo caminho “resulta de uma decisão consciente de uma liderança transformadora.” E coloca o foco na inclusão, na literacia ambiental, na saúde e bem-estar dos colaboradores, revelando a forma como o banco pretende integrar os princípios da sustentabilidade em toda a operação, da concessão de crédito à criação de produtos financeiros diferenciados. O objectivo, sublinha, passa por “criar valor partilhado, promover uma cultura de responsabilidade e contribuir para o desenvolvimento sustentável de Moçambique.”
O que motivou o BCI a criar uma Direcção de Sustentabilidade?
A Direcção de Sustentabilidade do BCI não surge por pressão externa nem por qualquer exigência regulatória. Faz parte da estratégia do Banco. A sustentabilidade é uma forma de pormos as pessoas a falar com a instituição e não sobre ela. Percebeu-se, por um lado, que este é o caminho a seguir, mas, sobretudo, entendeu-se, também que utilizar um órgão de estrutura centralizador dos temas da Sustentabilidade e do ESG permitiria construir pontes e não muros. A decisão da criação da Direcção de Sustentabilidade vem ampliar esta visão estratégica e ressignificar a transparência, a forma como se quer comunicar com a sociedade e com as comunidades com que se trabalha em matérias específicas e fortalecer a sua [já robusta] governança em matéria de Risco Climático e Ambiental.
“Vamos passar a considerar o impacto do clima sobre a produtividade, sobre as cadeias de valor e a previsibilidade do mercado. Ignorar esta nova dimensão pode custar caro em valor de mercado, reputação ou até perenidade do negócio”
Utilizar um ciclo mais longo de Sustentabilidade em detrimento de uma janela mais curta (conceito ESG) foi a solução. Fazer da Sustentabilidade um compromisso colectivo: articulação, coerência e, principalmente, o estreitamento de relações entre as lideranças pública e privada. É sobre mudança cultural, gestão de expectativas e execução da transformação.
Sendo um banco sistémico no panorama financeiro nacional, que importância tem esta aposta na sustentabilidade para o posicionamento do BCI?
A criação desta Direcção representa uma mudança de paradigma na banca nacional. Vamos passar a considerar o impacto do clima sobre a produtividade, sobre as cadeias de valor e a previsibilidade do mercado. Ignorar esta nova dimensão pode custar caro em valor de mercado, reputação ou até perenidade do negócio. Na prática, isto significa olhar tanto para o que é financeiramente relevante quanto para o que é significativo em termos de impacto. Só assim se obtêm resultados: serena e prudentemente, mas com perseverança, consistência e eficácia. O que funcionou até aos tempos actuais foi suficiente até agora. Mas as relações comerciais tendem a mudar e, com elas, os critérios de permanência no mercado.
Ver o sector público reconhecer que as matérias de Sustentabilidade e ESG são um vector de transformação social e institucional é um sinal dos tempos. Mais do que isso, é uma resposta à urgência que nos cerca: eventos climáticos extremos, pressão para a inclusão real e exigência de uma gestão pública e privada mais eficiente e transparente. Estes padrões são especialmente relevantes para as entidades que procuram captar financiamento junto das entidades multilaterais. Os novos padrões de financiamento exigirão um compromisso real com o desenvolvimento sustentável, a mitigação de riscos climáticos e ambientais e com a promoção de impactos
positivos na sociedade.
Quais serão as principais áreas de actuação desta nova Direcção?
A sustentabilidade é rotina, é processo e é ajudar as outras direcções ou áreas a melhorar todos os dias. Com este carácter de transversalidade que se lhe atribui, a aposta da Direcção está, assim, centrada na inclusão, na educação, na disseminação da literacia ambiental, na saúde e no bem-estar. Esta vivência prática é o que transformará este conhecimento que o BCI está a acumular. A Sustentabilidade não começa com relatórios, mas com cultura, com governança e coragem para mudar. E vai mudar mesmo. Este modelo de actuação fará uma ligação de forma estruturada da Sustentabilidade à Governança, da Sustentabilidade à Estratégia e da Sustentabilidade à Gestão de Riscos com foco no desempenho global do banco.
Que objectivos concretos foram traçados para o curto prazo?
A intervenção do BCI nesta temática estabelece o alinhamento das prioridades com os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) nos quais a actividade do banco poderá ter um impacto material, nomeadamente em três alavancas principais: Pessoas, Tecnologias e Processos. Uma Estratégia de Sustentabilidade bem-sucedida não apenas mitigará riscos, como também criará oportunidades de inovação, de crescimento e, naturalmente, põe em evidência um dos propósitos centrais da instituição: potenciar o talento e promover novas competências aos colaboradores, medindo o valor e o impacto que esta estratégia traz. Portanto, é uma questão de vocação e de criação de valor. O BCI aprovou, em 2024, a sua Abordagem à Sustentabilidade, integrou no Thematic Review 2023 – 2030 por via da corporativização e desencadeou um vasto conjunto de iniciativas sustentáveis no âmbito dos seus processos centrais de negócio. Reforçou o seu modelo e estrutura de governança e as suas linhas de reporte local. Aprovou as Políticas de Sustentabilidade, de Financiamento Sustentável e de Riscos Climáticos e Ambientais. E, por fim, construiu o seu próprio Modelo de Rating ESG. Lançou conteúdos temáticos e hot topics sobre o ESG e a Sustentabilidade, que disponibilizou a todos os colaboradores, promovendo a formação das áreas comerciais de Norte a Sul do País.
E olhando mais para o médio prazo, qual é a visão de futuro nesta área?
O evoluir da sociedade eleva a nossa interacção e dependência, impactando, de forma directa ou indirecta, sobre o meio ambiente. É disto que se trata. Todos os modelos económicos têm valor, inegável, no ecossistema empresarial. A principal distinção entre eles reside nas suas métricas de sucesso: a primeira pela maximização do lucro, e a segunda pelo impacto social e ambiental positivo integrando o bem-estar, a ética, a responsabilidade, a integridade e a confiança, fundada ou alicerçada, portanto, em valores humanos. O desiderato desta Direcção é encontrar o justo equilíbrio na estratégia e no modelo de integração: trabalhar em mecanismos de contingência de riscos climáticos e ambientais robustos e preparados para responder aos desafios, dos mais simples aos mais complexos. O BCI não está alheio ao que, de facto, importa: rever a sua grelha de oferta para incluir produtos sustentáveis e repensar a diferenciação de pricing para as operações com marcadores ESG.
“Os novos padrões de financiamento exigirão um compromisso real com o desenvolvimento sustentável, com a mitigação de riscos climáticos e ambientais e com a promoção de impactos positivos”
Só assim se obtêm resultados: serenamente, mas com consistência e eficácia.
Como será feito o envolvimento de clientes, parceiros e colaboradores nesta agenda de sustentabilidade?
O BCI implementará um conjunto de iniciativas para ajudar os seus parceiros e clientes a descarbonizar, disponibilizando, futuramente, o financiamento de transição, e poderá ter de reduzir a sua exposição a clientes com capacidade ou disponibilidade limitada para o fazer. Esta abordagem vai integrar-se na nossa missão de “Mudar para Melhor”, promovendo um equilíbrio entre crescimento e sustentabilidade e enfatizando a circularidade que permitirá ao banco não só inovar no desenvolvimento de soluções mais sustentáveis, como também diminuir, na medida do possível, o seu próprio impacto ambiental. Esta última abordagem é suportada por três grandes prioridades estratégicas: Simplificar, Maximizar e Recuperar.
Os critérios de sustentabilidade passam, assim, a ter um peso decisivo na política de risco do banco e a fazer parte das decisões de crédito, investimento e avaliação de projectos, é assim?
Globalmente, sim, no âmbito das Taxonomias de riscos do banco e no quadro de governança actual da instituição. O certo é que compreendemos que manter a Sustentabilidade e o ESG separados do risco, do compliance, da auditoria, da logística ou do ecossistema dos fornecimentos não seria apenas ineficiente, como arriscado. O BCI não considera esta associação como uma tendência, mas antes como uma camada crítica e transversal do seu sistema de gestão de riscos. Já é e será cada vez mais uma necessidade. Neste aspecto, o futuro da governança será híbrido: dados, intuição e coragem para fazer o que deve ser feito. No entanto, a verdadeira agregação e integração dos riscos ESG e de Sustentabilidade chegará em pleno e contribuirá para a tomada de decisões de financiamento quando for estabelecida uma linguagem hierárquica e escalas comuns de classificação de risco climático e ambiental. A regulação e supervisão bancárias desempenharão, neste aspecto, um papel absolutamente central. Por outro lado, o País deve fazer do financiamento sustentável uma prioridade política. Já todos percebemos que na balança, tanto a estabilidade como a sustentabilidade assumem semelhante nível de importância e são incontornáveis para o desenvolvimento do País e para o sector financeiro em particular. Moçambique tem de desenvolver a sua taxonomia sustentável transitória, promover a consulta pública tendo em conta o papel e o benefício das populações locais e comunidades e acelerar o pacote legislativo, sobretudo o incentivo fiscal.

Como é que toda esta nova dinâmica pode beneficiar, não só os clientes do banco, mas também o tecido económico e social do País?
A Direcção executará uma estratégia de suustentabilidade aprovada, quando o for, pelos órgãos de liderança da instituição, adaptada a esta geografia, com o propósito de identificar desafios, captar oportunidades e viabilizar o financiamento de projectos sustentáveis. A execução não é um mero detalhe técnico. É o que fará a diferença entre formulação e acção real. Portanto, fá-lo-á com o brio institucional de continuar a educar pelo exemplo, com rigor e compromisso. Essa tem sido, e continuará a ser, a missão do BCI, e é, nesta fase, a minha missão. Venham os debates, os dados, os projectos e, principalmente, a acção. A vasta biodiversidade moçambicana, incluindo os seus ecossistemas e vida selvagem únicos, são um tesouro que deve ser protegido para as gerações futuras através da colaboração estratégica com entidades com ideias semelhantes nos sectores público, privado e de apoio ao desenvolvimento. Ao apoiarmos o empreendedorismo e a inovação ‘verde’, incentivarmos o envolvimento em parcerias e investimentos estratégicos e a defesa de práticas sustentáveis, estamos a assumir um compromisso público. É fundamental que, de acordo com a sua realidade de negócio, as empresas demonstrem um compromisso público e se proponham cumpri-lo. Este modus faciendi é um sinal demonstrativo para os stakeholders das suas reais intenções para além do impacto.
O verdadeiro diferencial reside na capacidade de traduzir estes impactos em matéria de Sustentabilidade em decisões estratégicas, culturais e de governança adequada.
Texto & Imagem • M4D
























































